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José Augusto Ramos, Bíblia, História das Religiões
José Augusto Ramos: uma vida dedicada aos estudos da Bíblia e da Antiguidade. Foto: Direitos reservados.

Biblista morreu em Lisboa

José Augusto Ramos (1942-2026): Estudar textos antigos como quem estuda as interrogações de hoje

Era um dos grandes nomes portugueses a estudar a Antiguidade, as línguas e as culturas antigas. Esteve envolvido em vários projectos de tradução da Bíblia – um deles ainda a decorrer – e era autor de uma vasta obra. Morreu em Lisboa, com 84 anos.

 

Olhar, revisitar e estudar textos antigos “como quem está a estudar as grandes questões e interrogações da actualidade”. Em Maio de 2024, era desse modo que José Augusto Ramos, caracterizava o seu trabalho, a propósito da publicação de dois volumes de estudos reunidos da sua autoria, com o título genérico Textos em Diáspora (O Tempo e o Homem era o título do primeiro volume, Os Deuses e a Hermenêutica o do segundo). O professor emérito da Faculdade de Letras de Lisboa morreu nesta terça-feira, 28 de Julho. O velório decorre nesta quarta, 29, a partir das 16h, na Igreja da Sagrada Família, do Calhariz de Benfica (Lisboa), Na quinta-feira, dia 30, às 13h, no mesmo local, será celebrada missa de corpo presente. Uma hora depois, no Edifício Saudade, do Cemitério de Carnide, realiza-se a cerimónia de cremação.

Biblista, tradutor e um dos grandes historiadores portugueses da Antiguidade e da História do Judaísmo, José Augusto Ramos dizia há dois anos ao 7MARGENS que aqueles volumes eram “trabalhos e meditações concentrados nas grandes semânticas e no [seu] mundo das culturas orientais”, resultado de uma “produção de dezenas de anos” que estava distribuída por dezenas de revistas.

“É uma maneira de os fazer convergir”, a partir das semânticas, definições de ideias e conceitos” do mundo representado pela Bíblia ou em torno dela. O mundo das religiões e religiosidades daquela região do planeta, estudada desde há muito pelo professor e investigador, e que têm a ver “com a complexidade e transcendência”.

Precisamente sobre uma das zonas daquela região, a antiga Mesopotâmia e actual Iraque, José Augusto Ramos publicara no 7MARGENS um texto em forma de pequeno guia bíblico daquela região, em Março de 2021, a propósito da viagem do Papa Francisco ao Iraque, que seria uma das mais importantes do pontificado.

“O conteúdo das memórias que sobem das profundezas deste Oriente traz consigo muito das memórias e vivências do mundo judaico-cristão das origens. O mundo da Mesopotâmia, representado agora pelo Iraque, foi realmente um espaço onde judaísmo e cristianismo deram alguns dos primeiros passos na difusão para fora da Palestina e onde por mais tempo conservaram entre si as cumplicidades da origem. Formas mistas de judaísmo e cristianismo, como os restos do movimento batista e os mandeus, mantiveram-se ali vivos durante séculos e são visíveis ainda nos dias de hoje”, escreveu na ocasião José Augusto Ramos no 7MARGENS.

 

Amor pela Bíblia

Bíblias e livros cristãos recuperados ao Daesh em Mossul: as comunidades cristãs do Iraque são das mais antigas do mundo. Foto: Direitos reservados.

Autor de uma extensa obra publicada, José Augusto Ramos desenvolveu também uma intensa actividade de investigação e de docência da História e das línguas antigas ao longo de mais de 50 anos, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, bem como em outras universidades portuguesas e estrangeiras. Além da actividade de ensino e investigação universitária, era também, nas últimas décadas, um dos tradutores mais importantes da Bíblia para português, em vários projectos. Destacam-se a Bíblia dos Capuchinhos, na qual foi também um dos coordenadores das equipas, a tradução interconfessional da Bíblia e o projecto em curso de tradução promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

O presidente da Associação Bíblica Portuguesa (ABP), o padre e biblista Mário Sousa, que com ele trabalhou nestes últimos anos, considera que a morte de José Augusto Ramos traduz “uma perda” para a ABP e “para o mundo académico e cultural português”.

“Era uma pessoa marcante, em primeiro lugar pela delicadeza no trato – era um verdadeiro cavalheiro –, mas também pela sua vasta cultura clássica e, sobretudo, pelo amor que manifestava pela Sagrada Escritura”, diz Mário Sousa.

José Augusto Ramos integrou, desde o início, o projecto da tradução da Bíblia da CEP, tendo-lhe sido entregue a responsabilidade da coordenação da tradução dos livros hebraicos do Antigo Testamento, recorda Mário Sousa ao 7MARGENS. Com Armindo Vaz e Luísa Almendra, fez a revisão e harmonização das traduções de todos os livros hebraicos do Antigo Testamento, entre os quais os dois que ele próprio traduzira: Salmos e Êxodo. “Dedicou-se a esta missão até quase aos últimos dias da sua peregrinação nesta terra, deixando-nos os trabalhos do Antigo Testamento praticamente concluídos”, diz Mário Sousa, que preside também à Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da CEP. “Que o Senhor, a cuja Palavra dedicou tanto da sua vida, o receba na Sua glória.”

Académico excepcional, mestre cuja influência se prolonga para além da sua obra publicada, Ramos ficou na memória de gerações de estudantes, investigadores e colegas. A sua actividade científica articulava filologia, história e hermenêutica, conjugando o rigor do trabalho sobre os textos com uma permanente atenção às grandes questões culturais e religiosas da experiência humana.

Na obra e a sessão de homenagem que lhe foi dedicada em 2023 pela comunidade científica, reunindo centenas de colegas, discípulos e amigos e materializada na extensa obra Os Meus Olhos Viram Todas Essas Coisas: Estudos em Homenagem a José Augusto Ramos, testemunha de forma eloquente a dimensão humana e intelectual do seu percurso. O reconhecimento que suscitou não se ficaria a dever apenas à vastidão do seu saber, mas também à sua capacidade de dialogar, ensinar e estimular o pensamento crítico, sem nunca perder de vista a complexidade das questões humanas e religiosas que atravessam a história.

O Centro de História da Universidade de Lisboa lamentou a morte do seu investigador: “Neste momento de tristeza, endereçamos as nossas mais sentidas condolências à família, amigos, colegas, alunos e a todos quantos tiveram o privilégio de o conhecer e de com ele conviver.”

 

De frade capuchinho à universidade

Cópia de A porta de Ishtar de Arbela, na Assíria, Iraque

A porta de Ishtar (hoje no Museu Pérgamo, em Berlim) dava entrada no santuário da deusa que concentrava em feminino o imaginário religioso da Mesopotâmia, actual Iraque. Foto: Direitos reservados.

Nascido a 4 de Janeiro de 1942, em Cascão (Soure, Coimbra), José Augusto Ramos ingressou em 1959 na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, que tinham iniciado um importante trabalho de divulgação da Bíblia. Seria ordenado padre em 1967, antes ainda de se licenciar em Teologia (1969) no Institut Catholique de Toulouse (França). Três anos depois, licenciou-se também em Ciências Bíblicas e Orientais no prestigiado Instituto Bíblico Pontifício, de Roma.

Em 1976 acabaria por deixar os Capuchinhos, mas não a sua paixão pela Bíblia e o mundo bíblico. Nos três anos anteriores, ensinou Literaturas Bíblicas e Livros Proféticos na Universidade Católica e, a partir de 1976, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).

O doutoramento em História Antiga (o primeiro doutoramento nesta área, em Portugal) viria em 1989, com uma tese sobre o hebraico antigo. Durante mais de três décadas, leccionou línguas antigas como acádico, ugarítico, fenício, aramaico e hebraico, História Pré-Clássica, História do Cristianismo e História das Religiões. Desempenhou ainda os cargos de presidente do Conselho Científico da FLUL, director do Departamento de História e do Centro de História, e vice-reitor da Universidade de Lisboa para a área de Artes e Humanidades, onde esteve sempre comprometido com a defesa da universidade e das humanidades. Estava jubilado desde 2012.

Ao longo dos anos, publicou e traduziu várias obras, e publicou dezenas de artigos, além dos dois volumes já citados. O Evangelho Segundo Tomé (1992), vários textos da Bíblia Sagrada, na edição dos Capuchinhos (2008), ou de A Bíblia Para Todos (da Sociedade Bíblica, em 2009), foram alguns dos trabalhos em que já se envolveu. As categorias de leitura da Bíblia, os percursos do Oriente antigo, a sexualidade entre os hebreus ou no mundo antigo, as percepções de identidade na história do judaísmo, e os pronomes pessoais de Deus no Antigo Testamento (ou Bíblia hebraica) foram temas de algumas das suas investigações, marcadas pelo contacto directo com as fontes e pela centralidade que dava às línguas antigas como elementos fundamentais do seu método de investigação e ensino.

Sendo um dos principais responsáveis pela actualização dos estudos bíblicos e orientais em Portugal, José Augusto Ramos contribuiu para aproximar a investigação nacional dos grandes debates internacionais da historiografia e da filologia contemporâneas. Conjugava exigência filológica, clareza linguística e sensibilidade hermenêutica, tornando os textos bíblicos mais acessíveis sem abdicar do rigor científico. O seu desaparecimento significa também que se perde uma das principais referências dos estudos bíblicos, das línguas semíticas e da História Antiga em Portugal.

Na apresentação dos dois volumes de Textos em Diáspora, José Augusto Ramos escrevia que a hermenêutica in­tegra de forma dialéctica “a fidelidade e a inovação” e é nesse “fio sequencial de hermenêutica que se vive e se constrói a história real” e que se afirma também “a linha de continuidade das religiões”. E concluía: “Podemos dizer de modo especial que, na sequência do judeo­cristianismo, é no dinamismo intenso da hermenêutica que se encontra a verdadeira chave do crescimento e da vitalidade. Mais do que uma entrega rígida e mecânica, a parádosis ou tradição é, ela mesma, um processo hermenêutico que acontece com o radicalismo e com a naturalidade com que se processa a mudança de uma geração para outra.”

 

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