Corremos para a televisão, horrorizados, hipnotizados.
Telefonámos para a escola dos nossos filhos, e a directora, Ursula Trush, atendeu. Esta mulher admirável nasceu na Hungria, atravessou a infância em plena tragédia da Segunda Guerra Mundial e, depois de uma formação pedagógica com o filho de Maria Montessori, decidiu abrir uma escola Montessori em San Francisco, ao serviço da construção da paz. Nessa manhã, pediu a todos os pais que levassem os filhos à escola, porque queria falar com eles sobre o que estava a acontecer.
Quando os nossos filhos chegaram à escola, encontraram outros alunos – dos três aos dez anos de idade – reunidos numa sala, a conversar com a directora e as professoras.
– O que devemos fazer perante estas pessoas que nos odeiam? – perguntou-lhes Mrs. Trush.
– Não sei… – disseram uns.
– Temos de nos defender! Temos de os matar! – disseram outros.
– Temos de lhes dar presentes – disse um menino.
– Dar presentes a quem nos quer matar?! – protestaram todos, a rir.
A directora interveio:
– Não se riam, porque ele tem muita razão. Não podemos responder ao ódio com o ódio. Temos de encontrar outra solução.
Nesse dia não fui trabalhar. Fiquei em frente à televisão o dia todo, a assistir em directo àquele horror em bruto, agravado pela repetição frequente de uma sequência odiosa de imagens: mostravam as pessoas a cair das torres e, a seguir, um pequeno grupo de palestinianos em Jerusalém a aplaudir alegremente. Ao longo do dia, vi essa sequência dezenas de vezes.
Quando fui buscar os meus filhos à escola, a meio da tarde, no «livro de bordo» havia um recado de Ursula Trush para os pais:
«Em nome do futuro e da paz, contem às vossas crianças como é a vida dos palestinianos. É preciso andar uma milha nos mocassins dos outros para os entender.»
Na altura, já me dera conta da intenção das televisões ao repetirem aquela sequência de imagens: identificar rapidamente um inimigo. De um pequeno grupo em Jerusalém extrapolou-se para todos os muçulmanos, e não demorou muito até vermos as primeiras consequências: ataques a mesquitas e centros muçulmanos em todo o país. E, também aí, houve respostas de paz: grupos de voluntários cristãos formaram escudos humanos nesses locais.
O medo tomou conta da sociedade: os ataques de antraz, o atirador de Washington DC, os boatos («O próximo alvo é a Golden Gate Bridge! Roubaram os planos de abastecimento de água da Bay Area! Em Stanford há bactérias em quantidade suficiente para matar todos os californianos!»). Um medo generalizado, servido em doses cavalares nos jornais e nas televisões.
No dia em que, no metro, me senti apreensiva por causa de um saco de desporto que um passageiro com aspecto árabe levava consigo, apercebi-me de que estava a ser completamente manipulada e já não conseguia pensar bem. Arrumámos a televisão na garagem, cancelámos a assinatura do jornal e, assim, recuperámos a antiga normalidade.
Pouco depois regressámos à Alemanha. Entretanto, veio o Patriot Act, Guantánamo, as invasões do Afeganistão e do Iraque. E Donald Rumsfeld banalizou a expressão «danos colaterais» para se referir aos inúmeros civis mortos pelo exército americano.

As primeiras bombas que anunciavam a «pax americana» no Iraque foram notícia de primeira página e abertura de telejornal. Pouco depois, deixaram de ser notícia. Só pelos refugiados iraquianos, que procuravam a Europa em número cada vez maior, ficámos a saber do estado quotidiano de catástrofe que se vivia no seu país.
Vinte e cinco anos mais tarde, o gráfico que aqui apresento, baseado num estudo da Brown University, mostra com clareza que, em nome da segurança e da autodefesa dos ocidentais, foram cometidos crimes terríveis contra outros povos. Não avançámos uma única milha nos mocassins de nenhum outro povo, e no sentido de construir a paz com todos. Para piorar, muita da relativa segurança e do conforto económico em que vivemos são conseguidos por meios que vão contra os valores que apregoamos como sendo aquilo que nos distingue no panorama mundial – nomeadamente, o atropelo dos direitos humanos e do direito dos povos, as concessões e a colaboração com regimes ditatoriais, a prática da tortura.
Será que algum dia nos pedirão contas deste tempo em que aceitámos com tanta naturalidade que as vidas dos ocidentais valem mais do que as dos outros?
Helena Araújo é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde uma versão deste texto foi inicialmente publicada.
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