A Rússia tem recorrido a “práticas enganosas, coercivas e exploradoras para recrutar cidadãos estrangeiros para as suas forças armadas e enviá-los para combater na Ucrânia”, afirmou a Amnistia Internacional num relatório publicado hoje, dia 10 de setembro. No comunicado enviado à redação do 7MARGENS a organização adianta que tais práticas constituem, em muitos casos, “uma violação dos direitos humanos e um crime de tráfico de seres humanos”.
“Aproveitando-se de rotas migratórias já existentes”, marcadas pela exploração e pelo tráfico de seres humanos, e de “práticas abusivas contra migrantes e refugiados na Rússia, os recrutadores desenvolveram um sistema de coação, fraude e engano, incluindo falsas promessas de emprego civil, para alistar estrangeiros nas forças armadas”, acusou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional na apresentação pública do relatório. A invasão da Ucrânia pelas forças armadas russas teve lugar há mais de 55 meses.

Agnès Callamard: Assim que as vítimas assinam a documentação, muitas vezes numa língua que não compreendem, os comandantes militares restringem os seus movimentos, destacam-nas para a linha da frente com uma preparação mínima e ameaçam aqueles que procuram uma saída.” Foto © Julia Mustard, CC BY-SA 4.0 | Wikimedia Commons
Especificando o modo como as forças armadas russas estão a agir neste campo, Callamard explicou: “Assim que as vítimas assinam a documentação, muitas vezes numa língua que não compreendem, os comandantes militares restringem os seus movimentos, destacam-nas para a linha da frente com uma preparação mínima e ameaçam aqueles que procuram uma saída.”
O relatório da Amnistia Internacional foi elaborado a partir de entrevistas com cidadãos originários do Brasil, da Colômbia, de Cuba, do Egito, da Serra Leoa, do Sri Lanka, da Somália e da África do Sul, realizadas em dois campos de prisioneiros de guerra ucranianos, entre 2024 e 2026 e em “conversas com cidadãos estrangeiros, que atualmente servem nas forças russas, com membros das suas famílias e com advogados, ativistas de direitos humanos e jornalistas”.
Entre outros entrevistados figuram dois homens do Sri Lanka recrutados após terem excedido o prazo de validade dos seus vistos de trabalho na Rússia. Ambos afirmaram que lhes foi dado a entender que iriam trabalhar como cozinheiros, mas foram enviados para combater na linha da frente e capturados, poucas semanas depois, pelas forças ucranianas. “A dimensão dos combates é inimaginável. Não se veem soldados ucranianos, apenas drones. Há drones por todo o lado”, disse um deles. “Nunca mais voltaria lá”.
Recorde-se que em maio de 2025, as autoridades russas proibiram formalmente a presença da Amnistia Internacional na Rússia, criminalizaram as suas atividades no país e negaram-lhe a oportunidade de recolher abertamente informações na Rússia ou a partir daí. Isto impediu a organização de investigar livremente os testemunhos de indivíduos que, segundo os meios de comunicação controlados pelo governo russo, alegaram que recrutadores ucranianos também tentaram alistar estrangeiros através de engano ou da exploração de situações de vulnerabilidade.










