Carl von Clausewitz morreu em 1831, sem ter conhecido a Ucrânia independente desde 24 de Agosto de 1991 – drones, mísseis hipersónicos nem as trincheiras do Donbass. Mas conheceu o tirano Napoleão, e combateu-o; conheceu a Rússia, onde serviu em 1812; e percebeu melhor do que muitos estrategas que a guerra nunca é apenas uma questão de forças armadas; é um ato político de violência, praticado contra um adversário que possui vontade própria. Por isso, se queremos compreender a guerra da Ucrânia, é indispensável levar o genial general prussiano até ao Donbass.
Os comentadores pagãos de Clausewitz – como Lenine, o próprio Raymond Aron e uma multidão de norte-americanos – costumam começar pelo princípio de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Estão equivocados. A primeira realidade com que Clausewitz identifica a guerra é o duelo e a escalada. Clausewitz começa Da Guerra mostrando que o emprego da força não encontra, em teoria, um limite lógico dentro de si próprio. Quem emprega força obriga o adversário a responder; a resposta exige nova resposta e a ação recíproca empurra os dois para os extremos. Não se trata de uma escada previamente desenhada, com degraus numerados. Trata-se de algo mais perigoso: cada adversário participa na determinação da força que o outro considera necessária. Como explicou René Girard, falamos da violência primordial.

“A primeira realidade com que Clausewitz identifica a guerra é o duelo e a escalada.” Gravura: pormenor da capa de uma das edições da Penguin do livro A Guerra de Carl von Clausewitz.
Foi o que aconteceu na Ucrânia. Putin invadiu esperando uma operação rápida e encontrou resistência. O Ocidente forneceu armas defensivas e passou para sistemas cada vez mais sofisticados. Vieram artilharia, HIMARS, carros de combate, Storm Shadow e SCALP, ATACMS, F-16 . Agora é própria Ucrânia quem constrói os seus drones de longo alcance, com apoio ocidental, dos Estados Unidos… e do dono da Starlink. A Rússia respondeu com mobilização, economia de guerra, ataques às infra-estruturas, novos contingentes, importação de armamento e ameaças nucleares. Cada decisão que parecia excepcional preparou a normalização da seguinte.
É por isso que a ameaça nuclear russa é mais do que propaganda. Também não significa que Putin esteja disposto a carregar amanhã no botão nuclear. É uma arma política dentro da própria escalada e que foi entregue aos discursos do ex-presidente Medvedev. Moscovo recorda ao Ocidente que existe um degrau depois do qual a guerra convencional pode deixar de o ser, procurando influenciar a decisão do adversário antes de precisar de atravessar esse limiar. A dissuasão consiste em utilizar uma arma que se espera não ter de utilizar. Mas é uma arma apocalítptica, como escreveu René Girard.
A genialidade de Clausewitz consiste em perceber por que razão as guerras efetivamente não chegam ao extremo da aniquilação. A política, a fricção, o acaso, os recursos disponíveis, o medo, as alianças e a incerteza travam a escalada. Washington e a União Europeia pode querer impedir uma vitória russa sem querer uma guerra NATO-Rússia; Putin pode querer vencer na Ucrânia sem provocar uma intervenção direta americana. A guerra sobe, a escalada prossegue mas todos procuram simultaneamente corrimões.
Donde o segundo princípio, o célebre “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Antes de iniciar uma guerra, o estadista tem de compreender em que guerra está a entrar e não confundi-la com aquela que gostaria de travar. Foi o erro colossal de Putin em Fevereiro de 2022. Putin julgou poder executar uma operação de decapitação política, ocupar Kyiv em três dias, provocar a queda do governo e resolver rapidamente a questão ucraniana. Descobriu uma guerra nacional. Tratou a Ucrânia como objeto da política russa e encontrou um sujeito político disposto a combater e mais ainda; Vladimir Zelensky tornar-se o símbolo exemplar para uma Europa cética.
Clausewitz explicaria também uma aparente contradição destes quatro anos e meio de guerra, com 2.000.000 de baixas: como pode uma potência incomparavelmente maior não conquistar o território de uma potência menor? Porque a defesa é, para ele, a forma mais forte da guerra. O atacante precisa de avançar, abastecer, conquistar, ocupar e conservar. O defensor precisa, antes de tudo, de impedir que o atacante alcance o seu objectivo. A Ucrânia pode perder cidades e continuar a existir; a Rússia pode tomar cidades sem conseguir aquilo para que começou a guerra.
Chegamos ao ponto culminante da ofensiva. Cada avanço consome parte da força que permite avançar. Por isso, contar quilómetros quadrados no Donbass é uma contabilidade militar muito pobre( Neste ano de 2026 até a Ucrânia vai à frente neste tétrico campeonato de conquistas territoriais. Mas é preciso perguntar quantos soldados, veículos, munições, rublos, mercados externos e anos de crescimento custou cada quilómetro. Uma potência pode continuar a avançar no mapa depois de ter começado a perder estrategicamente.
E onde está então o centro de gravidade, o Schwerpunkt russo? A resposta imediata é Putin. Ele mantém articulados o aparelho militar, os serviços secretos, as elites económicas e a narrativa de uma Rússia cercada mas destinada a ser outra vez grande. A sua saída poderia provocar uma crise profunda do sistema. Mas seria perigoso confundir o centro de gravidade do regime com a causa da guerra. O imperialismo russo existia antes de Putin e pode existir depois dele.

Imagem amplamente divulgada que retrata o presidente russo Vladimir Putin de forma semelhante ao general prussiano Carl von Clausewitz. Clausewitz. Foto © Bake Necko | Wikimedia Commons
É aqui entra o problema da fraca oposição interna russa e da Rússia sem Putin. A oposição defende eleições livres, denuncia a corrupção mas ainda não se libertou da ideia de que Moscovo possui direitos especiais sobre os vizinhos. Derrubar Putin e desimperializar a Rússia são problemas diferentes.
E assim voltamos à escalada. Porque ela não ocorre apenas entre dois exércitos. A famosa trindade clausewitziana que trava guerras – e que alguns consideram decalcada da doutrina teológicas – envolve governo, forças armadas e povo. Putin necessita de soldados, mas uma mobilização excessiva ofende as famílias russas. Necessita de uma economia de guerra, mas cada fábrica dedicada às armas retira recursos à sociedade. Necessita de nacionalismo, mas não pode permitir que os nacionalistas fundamentalistas perguntem se o Kremlin está a combater com suficiente determinação. Até dentro da Rússia existe uma escalada que o poder tem de administrar.
Clausewitz morreu há quase dois séculos, mas reconheceria imediatamente no Donbass a escalada, a política, o nevoeiro da guerra, a fricção dos combates, o acaso no campo de batalha, os erros dos generais e a distância entre os mapas e a realidade. Mas reconheceria sobretudo a engrenagem que faz cada adversário aumentar aquilo que está disposto a arriscar porque o outro aumentou primeiro. A pergunta decisiva já não é apenas quem vencerá a guerra da Ucrânia. Sabemos que a Rússia comprometeu todos os seus objetivos de guerra. Falta a sua população abandonar o comodismo de quem troca a liberdade por algum bem . Estra. Muito bem estar no caso dos oligarcas.
- Bernard Brodie, 1946, The Absolute Weapon: Atomic Power and World Order,
- Raymond Aron, 1976 Pensar a Guerra Clausewitz. 1 A Idade Europeia e 2. A Era planetária
- René Girard , 2007, Achever Clausewitz
- Mendo Henriques, 2024 Da Guerra e da Paz: Clausewitz https://www.youtube.com/watch?v=5HCzaaoBf04
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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