Decidi que, sempre que, infelizmente, escrever sobre o suicídio de um padre, vou intitular o artigo com a idade daquele que não encontrou outra saída.
Bernard Card, da diocese de Dijon, em França, suicidou-se na casa paroquial. Ao que parece, era um padre activo, envolvido em várias atividades diocesanas e de trato fácil e próximo.
Há alguns anos, um acontecimento familiar deixou-o profundamente abalado. O suicídio do seu irmão, segundo refere o bispo na carta dirigida à diocese, continuava intensamente presente na sua vida. É de agradecer que os bispos não ocultem o suicídio dos sacerdotes. No entanto, não posso deixar de continuar a clamar por um acompanhamento próximo e diário, que mostre aos presbíteros que não estão sozinhos. Cada pessoa tem formas diferentes de demonstrar, mesmo que inconscientemente, que precisa de um pouco mais de atenção.
Se ele arrastava a dor pelo suicídio do irmão há já algum tempo, será que ninguém pensou que ele poderia estar a viver um luto patológico? Não se trata de apontar o dedo a ninguém, mas dizemos muitas coisas, fazemos muitas reflexões para o exterior, mas, no nosso íntimo, é como se isso não valesse nada. Um padre deve estar atento às pessoas que o acompanham na comunidade. Acompanha as pessoas quando uma perda familiar as atinge, mas que tipo de acompanhamento teria o bom do Bernard quando o seu irmão se suicidou? Se o teve, alguém, ou ele próprio, poria fim a essa situação após um certo tempo?
Bernard Card já não era jovem; se fosse, teria uma perspectiva diferente. Talvez nunca venhamos a saber, pois pedir ajuda era demasiado para ele. Talvez acreditasse que ele estava lá para os outros e, não tanto, que os outros estavam lá para ele. Talvez… Agora, só nos resta fazer suposições. É preciso insistir muito no cuidado mútuo nas comunidades. Todos devemos estar presentes para todos, com todos e por todos.
É extremamente urgente abordar certas reformas no e para o ministério presbiteral, porque não estamos apenas perante o suicídio de um padre. Estamos perante uma realidade que deve ser abordada no seio das próprias comunidades: como cuidamos e acompanhamos quem nos acompanha, a própria comunidade?
A solidão indesejada não pode ser algo que abordemos apenas no que diz respeito a pessoas idosas ou com determinadas características. Falo com muitos padres idosos em contextos e países diferentes e chama-me imenso a atenção como, já tendo atingido uma certa idade, a questão do celibato é descrita por eles como «o grande fardo da solidão, porque não há família». Coloco-o entre aspas porque é a frase que um deles me disse há poucos meses.
Quando falamos em tornar o celibato algo opcional, não é algo que se diga para dar saída a determinadas situações que poderiam ser regularizadas, como algumas pessoas pensam; é antes porque esse facto está directamente relacionado com a obrigação de viver um modo de vida para o qual, na verdade, ninguém é bem preparado.
Descansa em paz, Bernard. Não é uma frase feita. Descansa em paz e na Paz que não abandona.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). O texto que aqui se reproduz com a devida autorização da autora e da revista, foi originalmente publicado na Vida Nueva.










