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Festa de Babette
[na festa de Babette / quem é nobre podridão? ―/ oh colheita tardia! © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Ide às encruzilhadas dos caminhos

| 12/10/2026

[domingo xxviii do tempo comum ― a ― 2026]

 

1. Enquanto as folhas dos vinhedos continuam a brincar às cores,
na transumância dos tons verdes para dourados, vermelhos e castanhos,
dá-se por terminada a época das vindimas,
embora possam permanecer ainda por recolher certas uvas
extremamente maduras ou com aspeto apodrecido,
para fazer os aromáticos vinhos de colheita tardia.
Este quase-apodrecimento das uvas, enrugadas e com aspeto de passas,
designado de «podridão nobre», é desejado na viticultura de luxo.

Cacho de Uva

[Uma autêntica cantiga de amigo à vinha do Senhor.  Fotografia © Joaquim Félix]

2. Talvez possamos conhecer, entre os mais prestigiados vinhos,
os Sauternes, de França, como o lendário Château d’Yquem,
que é considerado um dos mais complexos do mundo,
com notas de mel, damasco e frutos secos.
São também famosos os Tokaji, da Hungria,
dos quais o Tokaji Eszencia é o mais renomado,
que, por ser tão denso, se consome à colher.
Em Portugal, por exemplo, o mais conhecido é o Grandjó Late Harvest,
produzido pela Real Companhia Velha na Região Demarcada do Douro.

[Com notas de mel, damasco e frutos secos.  Fotografia © Joaquim Félix]

3. Depois de três domingos consecutivos a escutar parábolas e cânticos
sobre a vinha e as vindimas, a Palavra de Deus brinda-nos hoje
com «um banquete de vinhos deliciosos» (Is 25,6).
Antes de avançarmos para saborear os manjares da Palavra,
poderemos perguntar: E as crianças, que não podem beber vinho,
como se sentirão ao ouvir o poema de Isaías e a parábola de Jesus?
Faço uma proposta aos pais e avós:
Lembrados das raposas e raposinhas evocadas no domingo passado,
que faziam mal às vinhas em flor (ver Ct 2,15),
contai-lhes a fábula da raposa e das uvas, atribuída a Esopo,
a qual, como sabemos, foi reescrita em verso por La Fontaine.
Caso desejeis uma versão em filme, mesmo que a preto e branco,
sugiro-vos a gravação feita, em 2023,
durante a vindima nas ramadas do Mosteiro de Singeverga.

4. «Sobre este monte,
o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos
um banquete de manjares suculentos,
um banquete de vinhos deliciosos:
comida de boa gordura, vinhos puríssimos» (Is 25,7).
Vivendo num tempo de complexa instabilidade geopolítica,
com a Assíria a invadir e a ocupar, primeiro, o norte de Israel
e, depois, o reino do sul, no tempo do rei Acaz,
Isaías profere um oráculo no qual o Senhor anuncia um tempo de paz.
O banquete é a imagem com que ele sugere tal transformação política.
Essa refeição de manjares suculentos e vinhos deliciosos
será servida na casa do Senhor, no monte onde se ergue o seu templo.

[Refeição de manjares suculentos.  Fotografia © Joaquim Félix]


A descrição minuciosa dos detalhes desse banquete,
na abundância e qualidade da comida e dos vinhos,
corresponde, de forma poética, à expressão da qualidade de vida
que se poderá obter num tempo de paz inaugurado pelo Messias.
O banquete, note-se, não é preparado apenas para Israel,
mas para todos dos povos, a fim de celebrarem a paz universal.
De forma desanuviada, o Senhor há de retirar o véu de feltro
― denso e resistente como um tecido de burel ―,
que cobria a cabeça de todas as nações mergulhadas nas violências.
Bem alimentadas e bebidas, as nações cantariam o hino messiânico,
com uma letra onde se glosa a salvação e a confiança doadas pelo Senhor.

[O banquete, note-se, não é preparado apenas para Israel. Detalhe de cartaz em Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

5. Infelizmente, sentimo-nos sob um pano pesado que cobre as nações
com guerras que ensanguentam muitas famílias e multiplicam os lutos.
De forma incompreensível, Israel, em vez interpretar este poema da paz,
tem-se tornado promotor de escombros e de mortes arbitrárias,
através do genocídio que continua a praticar em Gaza e na Cisjordânia.
A atribuição do Nobel da paz a ‘Navi’ Pillay, jurista de origem tâmil,
deve-se, entre outros motivos, ao reconhecimento da conclusão
a que chegou a Comissão Internacional Independente, por ela presidida,
sobre o inquérito da ONU efetuado nos territórios ocupados por Israel:
as autoridades israelitas cometeram atos de genocídio
contra as populações da Palestina em Gaza.
Atos de genocídio são também os crimes que a Rússia está a cometer,
nas terras da Ucrânia, ao atingir deliberadamente as populações civis.
Quando chegam ao poder comerciantes sem escrúpulos,
não nos admiremos que seja possível trocar
sangue de inocentes por toneladas de crude.

[Não nos admiremos que seja possível trocar sangue de inocentes por toneladas de crude.  Fotografia © Joaquim Félix]


Atentados como os que vimos nestes dias na Ucrânia,
com pessoas em autocarros e crianças a serem atingidas mortalmente,
não passam, para esses comerciantes, de danos colaterais, males menores.
Recordemos, por exemplo, Anatolii Chumnii,
uma das três crianças que morreram ontem nos ataques russos
com bombas guiadas contra bairros em Zaporijia.
Recordemo-nos, também, das lágrimas do seu avô junto ao cadáver dela.

6. Conhecedor deste poema de Isaías,
Jesus apresenta o Reino dos Céus às autoridades judaicas,
a partir da fusão de duas parábolas de banquetes.
O primeiro banquete, preparado pelo rei para o seu filho,
é explorado como uma ilustração da recusa de Israel
em aceitar Jesus como Messias, a salvação de Deus.
É significativo que Jesus apresente o reino dos Céus
a partir da parábola do banquete das bodas matrimoniais.
Notemos que, naquele tempo e segundo a cultura judaica,
a celebração das bodas durava uma semana inteira,
e nelas eram servidas as melhores carnes e bebidos vinhos de qualidade.

[Eram servidas as melhores carnes. Fotografia © Joaquim Félix]

7. Antes de considerar a ação do rei, dos seus servos e dos convidados,
é conveniente que nos detenhamos em certos aspetos da parábola de Jesus.
Tal como sucede no banquete profetizado por Isaías,
Com esta parábola, Jesus não faz apelo a uma adesão intelectual ao reino.
O reino de Deus tem mais que ver com o sabor do que com conceitos.
É que a revelação de Deus apreende-se melhor com a cultura da refeição
do que com lições de racionalidade e lógica puras.
Segundo o card. José Tolentino, «compreendemos que o paladar
não é indiferente ao amor de Deus
como não é de todo indiferente a qualquer amor.
Deus saboreia-se, Deus é sabor».
Mais, na mesma obra, A mística do instante, ele explicita esta ideia:
«o sabor é sempre uma forma de intimidade
que supõe o contacto profundo.
Enquanto das coisas que permanecem exteriores
podemos apreciar, avaliar, distinguir,
o sabor implica sempre uma relação total.
Não há pressa. Quanto mais precioso é o manjar,
mais o repartimos em minúsculas medidas para estender aquele instante»
(A mística do instante. O tempo e a promessa, pp. 86-88).
Efetivamente, como anota Santo Inácio de Loyola, nos Exercícios espirituais,
«não é o muito saber que sacia e satisfaz,
mas sim sentir e saborear internamente todas as coisas».

Detalhe da pintura, a preto e branco, «In a Roman Osteria (1866), de Carl Bloch (1834-1890).

[O sabor é sempre uma forma de intimidade. Detalhe da pintura, a preto e branco, «In a Roman Osteria (1866), de Carl Bloch (1834-1890). Fotografia: © Joaquim Félix]

8. Desconheço o que mais vos surpreenderá neste banquete,
se os cuidados extremosos do rei, se as recusas dos convidados,
ou a forma como a sala se encheu de convivas.
Tal como sucedeu na parábola em que o Senhor saiu a várias horas
para contratar trabalhadores para a sua vinha,
também nesta parábola verificamos semelhante insistência.
As sucessivas levas de enviados são os profetas.
Todavia, como pudemos ouvir, uns não fizeram caso do convite,
outros trataram-nos mal e outros ainda mataram-nos.
Se nos recordamos, algo de semelhante ocorreu
na parábola dos servos enviados a recolher os frutos da vinha.
O problema não residia no banquete, mas nos convidados.
Estava tudo pronto, mas eles «não eram dignos» (Mt 22,8).

[O problema não residia no banquete, mas nos convidados. Fotografia © Joaquim Félix]

9. «Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes» (Mt 22,9).
É de espantar a forma como os servos cumprem este mandato.
Eles saem pelos caminhos e, com liberdade para convidar,
reúnem tantas pessoas que a sala do banquete ficou repleta.
Não nos surpreenderá que eles tenham convidado bons e maus?
Creio que assim o terão feito porque não se puseram a julgar ninguém.
Mais: seria fácil evitar muita desta gente porque, nas encruzilhadas,
encontravam-se sobretudo pobres, doentes e salteadores.
Não estaremos a viver momentos semelhantes na Igreja?
Muitos dos que poderiam vir ao banquete, para saborear Deus,
recusam o convite, com desculpas, indiferenças e violências;
outros, que até poderiam ser convidados, nas encruzilhadas da vida,
são rejeitados porque vistos, com olhos judicativos, como maus.

[«Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai». Fotografia © Joaquim Félix]

10. «Em todo o tempo e em todas as circunstâncias,
tenho aprendido a ter fartura e a passar fome,
a viver desafogadamente e a padecer necessidade» (Filip 4,12).
Agradecido à comunidade de Filipos que lhe enviou ajuda,
quando se encontrava preso,
São Paulo partilha com ela e também connosco a sua confiança:
«O meu Deus proverá com abundância
a todas as vossas necessidades,
segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus» (Filip 4,19).
Esta abundância e magnificência faz-me pensar no banquete da Eucaristia,
que pode ser vivido não só com o requinte do banquete do Livro de Isaías,
mas também como sucede num filme metafórico: «A Festa de Babette».
De alguma forma, Jesus procedeu como Babette,
não porque lhe tivesse saído a lotaria nacional,
mas porque colocou toda a sua vida no banquete que ofereceu.

11. «Tu tens fortuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos factores
Pusemos números à frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores».
Imagino que reconheceis esta estrofe, por sinal, a última da canção.
Sim, é de Jorge Palma, que a canta no tema «À espera do fim».

12. Não podemos colocar os números à frente dos amores
nem ver a preto e branco este programa da Eucaristia,
cujo vinho é puríssimo, mais aromático que os vinhos de colheita tardia.
Quem desejar aprender algo com a «espiritualidade cromática»
da Eucaristia e do mundo,
leia o último livro do padre José Miguel Cardoso,
precisamente com o título: O Segredo das Cores.
Por fim, expresso um desejo: quem dera pudéssemos fazer da Eucaristia
algo de semelhante à ceia de natal que a Comunidade de Santo Egídio
proporciona na basílica de Santa Maria em Trastevere,
para a qual são convidados os pobres, os migrantes e os anciãos de Roma.

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 11 de outubro, [domingo xxviii do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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