[domingo xxiii do tempo comum ― a ― 2026]
1.De forma dionisíaca, as colheitas alimentam o deleite deste tempo.
Há cores que embevecem os olhos numa só folha.
Os figos e as maçãs levedam o ar e a luz de setembro.
Com barbas secas e engordados com as chuvas da semana passada,
os milheirais são colhidos para os silos por máquinas
que, até nesta igreja, se ouvem no seu rugido cortante.
As abundâncias deste ano saciam a fome das criaturas, nossas irmãs:
os verdilhões saciam-se na corola dos girassóis;
as felosas afiam o apetite nas folhas das roseiras;
os tentilhões, pacientes debulhadores, saboreiam as sementes das zínias;
as borboletas bebem de cânula o pólen de cada dia.

[Mariposa-beija-flor-de-asas-transparentes a beber pólen numa zínia. Fotografia © Joaquim Félix]
Embora não tanto como num passado recente,
vivemos ainda com uma forte ligação à terra,
ao horto onde se cuida de legumes, flores e frutos.
Esse zelo molda-nos a atenção e esculpe a nossa delicadeza,
não apenas para cuidar de plantas e árvores,
mas também para nos relacionarmos melhor.
2. De forma semelhante, a frequência da Palavra de Deus
ajuda a cultivar a qualidade de vida-segundo-Jesus
tanto na família como na comunidade de que fazemos parte.
De coração aberto, sem rigidez, escutámos a Palavra saborosa.
Na sua presença, debulhemo-la mais que os bandos de bicos-de-lacre
a dobrar as hastes das ervas com espigas.
A alegria que a sua Palavra nos desperta,
na semelhança dos cânticos das colheitas,
oxalá, transborde nas aclamações desta assembleia dominical.
Porque reunidos no nome de Jesus, presente entre nós (cf. Mt 18,20),
vivemos da sua Palavra, que gera e nutre a unidade dos discípulos.

[Planta teia-de-aranha (Tradescantia sillamontana) em flor. Fotografia © Joaquim Félix]
3. No Evangelho, Jesus dá instruções aos seus discípulos,
para cuidarem da unidade, segundo a reconciliação no amor.
Dirigindo um discurso ao seio da sua Igreja,
Jesus esclarece as etapas do caminho da correção fraterna.
Como proceder, se um irmão da comunidade nos ofender?
Apresentaremos de pronto uma queixa-crime no tribunal?
Denunciá-lo-emos nos na praça pública e nos lugares de trabalho?
Correremos para o pároco a fim de que ele o advirta?
Numa pedagogia que valoriza o contacto pessoal e as mediações,
Ele sugere que, em primeiro lugar, na discrição possível,
o ofendido deve deslocar-se até junto do irmão que causou o mal
para repreendê-lo num clima de encontro a sós (cf. Mt 18,15).
Frequentemente, encontros desta natureza permitem evitar
exposições públicas, endurecimentos e eventuais equívocos.
Quantos irmãos e irmãs se poderão ganhar,
quando, com delicadeza e frontalidade, nos escutamos e perdoamos?

[Evitar exposições públicas, endurecimentos e eventuais equívocos. Fotografia © Joaquim Félix]
4. Ainda assim, sabemos bem que há pessoas que não ouvem,
mesmo que os ofendidos, em tom moderado, tenham usado bons modos.
Neste caso, Jesus sugere um novo encontro, mas de forma acompanhada.
Uma ou duas pessoas são suficientes (cf. Mt 18,16),
para não parecer que alguém se aproximou com um batalhão armado.
Nesse sentido, convém que sejam pessoas com autoridade,
benfazejas na disposição de promover a paz através da reconciliação.
Não saberemos reconhecer as qualidades de pessoas conciliadoras,
que ajudarão a esclarecer problemas e a assumir as responsabilidades?
Não seria bom escolhê-las, também, em função dos ofensores,
pois, quem sabe, talvez eles poderão escutá-las de melhor grado?

[Não saberemos reconhecer as qualidades de pessoas conciliadoras? Fotografia © Joaquim Félix]
5. Caso estas duas iniciativas não produzam o efeito pretendido,
por falta de escuta quer do ofendido, quer das suas testemunhas,
Jesus dá a instrução para comunicar o caso à Igreja (cf. Mt 18, 17).
Todavia, pode suceder que nem assim o ofensor escute a comunidade.
Que fazer então? Estarão esgotadas as vias da reconciliação?
Para Jesus, tais pessoas passarão a ser tratadas como pecadores públicos,
isto é, conforme as categorias judaicas, como pagãos ou publicanos.
Ao determinar isto, Jesus não está a colocar limites à paciência,
nem a insinuar que a indiferença possa ser a melhor atitude para com eles.
Antes, Ele estará a dizer que o caminho da reconciliação terá de ser outro.

[Jesus não está a colocar limites à paciência. Fotografia © Joaquim Félix]
6. Procuremos permanecer na unidade, que Jesus tanto preza.
Vivemos tempos nos quais parece que, no mundo como na Igreja,
a violência e a exclusão se propagam mais rapidamente
que os incêndios do verão ou aquele que hoje lavra na Serra D’Ossa.
À falta de construtores de paz, a humanidade é dilacerada
por divisões e discórdias, bloqueios e guerras fratricidas.
Também a Igreja católica se vê a braços com dolorosas divisões.
Ainda há pouco tempo, como saberemos,
a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X rompeu com a unidade,
depois de, nela, terem sido ordenados três bispos,
sem os necessários mandatos apostólicos.
Infelizmente, nem as diligências do Papa Leão XIV acolheram.
Além disso, como seguimos através das notícias,
parecem vãos os esforços dos mediadores internacionais,
inclusive dos enviados pela Santa Sé a Moscovo,
o cardeal Matteo Maria Zuppi e o arcebispo Paul Richard Gallagher,
para manter os canais do diálogo abertos
e colocar um termo à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Como esta, tantas outras guerras estão em curso,
esquecidas pelos meios de comunicação social,
sem que se façam esforços diplomáticos para que terminem.
O clima de oração e a consciência de que Jesus está presente
quando nos reunimos em seu nome (cf. Mt 18,19-20)
criam as melhores condições para promover a paz e a unidade.

[A Fraternidade Sacerdotal S. Pio X rompeu com a unidade. Fotografia © Joaquim Félix]
7. Sem ingenuidade, sabemos que as Igrejas locais e as famílias
têm os seus problemas e precisam de ajuda para resolvê-los.
Tão-pouco as primeiras comunidades cristãs eram perfeitas,
como, por vezes, são exaltadas, à mercê de visões românticas.
Sem enumerar todas as situações em que S. Paulo
se viu constrangido a colocar fora das comunidades vários irmãos,
― por motivos graves, no caso, imoralidades e blasfémias ―,
basta-nos recordar a passagem da carta aos romanos hoje escutada.
Porque faz S. Paulo um resumo dos mandamentos da lei,
com mais qualidade que um programa de inteligência artificial?
Efetivamente, ele converte os «nãos» da lei num desafio audaz:
«Amarás o próximo como a ti mesmo» (Rom 3,9).
S. Paulo insiste na caridade porque a comunidade cristã de Roma
vivia um problema muito sério: a discriminação entre os irmãos.
Com o regresso a Roma de muitos irmãos de origem judaica,
que tinham sindo expulsos, ao abrigo de um édito do imperador Cláudio,
havia quem, na comunidade, não os acolhesse e tratasse com caridade.

[A comunidade cristã de Roma vivia um problema muito sério. Fotografia © Joaquim Félix]
8. Na sequência das dificuldades associadas ao exílio na Babilónia,
o profeta Ezequiel, sem criar falsas expectativas,
desperta, nos judeus deslocados, duas importantes atitudes:
a necessidade de todos permanecerem na esperança do regresso
e de que, por sua vez, cada um se torne sentinela vigilante dos irmãos.
Mesmo assim, é possível que o irmão, ensurdecido e no mau caminho
― tal como refere Jesus, nos passos da correção fraterna ―,
não escute nem mude de vida,
segundo o aviso do Senhor, fielmente transmitido pela sentinela.
Em todo o caso, porque este oráculo também é para nós,
compete-nos ser profetas, nestes tempos ásperos e sanguinosos,
na fidelidade ao batismo recebido,
para cuidarmos da unidade e da paz nas comunidades e no mundo.

[A necessidade de todos permanecerem na esperança. Fotografia © Joaquim Félix]
9. «Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel» (Ez 33,7).
Tendo em atenção que estamos a viver o Tempo da Criação,
um período ecuménico de oração e ação pela salvaguarda da Criação,
que começou no dia 1 de setembro e vai até ao dia 4 de outubro
― dia da festa de S. Francisco de Assis, padroeiro da ecologia ―,
o apelo do Senhor poderia ser ajustado na seguinte paráfrase:
«Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na Casa Comum».
Por motivos graves e inadiáveis, é urgente que nos empenhemos
no que concerne à consciencialização pela proteção da Criação,
e, de forma mais comprometida, promovamos uma conversão ecológica.

[Filho do homem, coloquei-te como sentinela na Casa Comum. Fotografia ©Joaquim Félix]
10. A Comissão Teológica Internacional (CTI) publicou
no dia 2 de setembro, a propósito do Tempo da Criação,
uma extensa reflexão intitulada Cuidando de Nossa Casa Comum:
Uma Resposta Responsável e Fraterna ao Deus Trinitário.
Neste documento, que proponho para leitura integral,
a Comissão Teológica Internacional chama a atenção
para «a urgência de uma mudança radical promovida
por uma verdadeira conversão ecológica»,
mudança que se deve «à grave deterioração do meio ambiente (…)
que agora nos coloca perigosamente
perto de um ponto de rutura e de um ponto sem retorno».

[Uma das fotografias que, na atual igreja de Longarone, Belluno, documenta a tragédia de Vajont, ocorrida na noite de 9 de outubro de 1963. Fotografia © Joaquim Félix]
A tragédia que se abateu no Nepal, onde ainda se procuram sobreviventes,
tal como a catástrofe que ocorreu, em 1969, em Longarone, Itália,
com o deslizamento abrupto de uma vertente para a barragem de Vajont
― onde também morreram cerca de 2000 pessoas ―
despertam a atenção para as alterações climáticas e suas consequências.
O Secretário-Geral da ONU, António Guterres,
admitiu na passada quinta-feira,
na abertura da Cúpula de Líderes da COP30 em Belém do Pará,
que o mundo falhou em atingir a meta
de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas. Foto retirada de vídeo.
11. Se dermos ouvidos à Palavra do Senhor e aos seus profetas,
― e não apenas porque os preços dos combustíveis fósseis,
amanhã, irão registrar mais uma subida significativa ―,
seremos cada vez mais responsáveis
tanto no cuidado para com as pessoas,
a fim de que permaneçam na unidade, na paz e na esperança,
como na atenção para com as demais criaturas, nossas irmãs;
criaturas que, connosco, cantam hinos de louvor ao Senhor do universo.
Uma das melhores expressões deste louvor polifónico
sucede no canto do Santo após o Prefácio, na Oração Eucarística.
Além disso, sabemos que, na apresentação dos dons sobre o altar,
o Senhor acolhe não só os produtos do trabalho humano,
mas também os frutos e os esforços da Criação inteira.
Não estamos nós aqui a celebrar «a missa sobre o mundo»,
conforme escreveu o Pe. Pierre Teilhard de Chardin?
12. Corra a tua voz, Senhor, junto ao nosso sangue.
Uma sentinela rubra assinala-nos a dívida do amor.
Que a luz deste dia inflame o Hossana cósmico.
Ah, Senhor, derrama na tua voz a salvação!
Ouvindo, ouviremos; e nada se fechará à alegria.

[Que a luz deste dia inflame o Hossana cósmico. Passo di Giau, Dolomitas Fotografia © Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 6 de setembro, [domingo xxiii do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja matriz de Fragoso (S. Pedro), no arciprestado de Barcelos.





![De 125 Azul [Palavra] até à outra margem Joaquim Félix](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/08/1-1-e1786370917105-480x270.jpg)




