Telmo Ferraz, padre da Obra da Rua que em novembro do ano passado completara 100 anos, morreu na quinta-feira, 8 de outubro, depois de uma vida dedicada às pessoas mais vulneráveis e desprotegidas, de cujo eco deu conta nos seus livros – desde o primeiro, O Lodo e as Estrelas, publicado em 1960, que foi proibido pela censura da ditadura do Estado Novo. O corpo do padre Telmo será sepultado em Malanje, já que o padre Telmo foi o fundador da Casa do Gaiato que ainda hoje existe naquela cidade angolana. Aqui fica o testemunho do seu sucessor n’O Calvário, a casa para pessoas doentes e vulneráveis, localizada em Paredes, que ele dirigiu.
Modela, Senhor,
O pobre barro que sou;
Pois, modelado, dará
Uma cantarinha de brinquedo.
Em silêncio
Aceito este pouco
E espero o último retoque
Do Teu dedo.
(Telmo Ferraz, A Mulemba e o Grão de Areia)
A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores.
Na eucaristia que celebrámos na capela Espigueiro na tarde do dia 8 de outubro, junto com os doentes, as colaboradoras, os voluntários, os gaiatos e os amigos do Calvário lembrámos, a partir da Palavra de Deus, que ele foi um homem da Palavra escutada e escrita e um homem de testemunho eloquente. Um ser humano completo e que ajudou muitos a completarem-se diante das adversidades e problemas. O percurso existencial do Pai Telmo é um marco no sacerdócio católico recente. Serviu as comunidades cristãs mais distintas ao longo de 75 anos, feitos em junho passado. Amou as paróquias de Genísio e Vilar Seco; as barragens de Picote e Cambambe; a Obra da Rua nas diversas casas em Portugal e Angola e particularmente a que as suas mãos transmontanas edificaram em Malanje e orientaram ao longo de várias décadas entre revoluções e guerras.
Aldeia onde sempre triunfou o amor paterno e a inspiração de Pai Américo, que o cativou e puxou para a sua Obra, que o fundador dizia ser Obra de Jesus. Foi este amigo comum de tantas horas e desafios que os aproximou na missão e na busca da perfeição cristã, que muitos designam por santidade. O sorriso e a serenidade de Pai Telmo emanavam paz e graça simples. Com ele, como com os grandes sábios, podia aprender-se muito sobre o mundo, as pessoas, os animais, as plantas. Ele falava dessas realidades porque se demorava a contemplá-las. Encontrava disposição para isso. Um talento natural para dar vida ao outro. Foi isso que fez dele um grande educador, não pela força dos argumentos ou das utopias, mas pela eloquência da esperança cristã semeada em corações simples e puros. Os seus amigos mais fiéis foram o cavalinho Rocha, os livros, os engenheiros barragistas, os trabalhadores, os gaiatos, os “batatinhas”, os leprosos, os homens ilustres diante de quem se humilhava para pedir e os homens simples diante de quem se vergava para levantar do pó da miséria.
Um homem em movimento perpétuo e ascendente a quem não conseguimos travar na sua partida para o Pai. Esta tarde inundaram a minha alma as lágrimas de homens adultos diante do corpo jacente de Pai Telmo, elas ecoaram no umbral do pórtico da casa de Deus e dos homens bons como ele. Obrigado, Pai Telmo. Até breve. Muito em breve estaremos a tomar um cafezinho, vai ensinar-me a fumar cachimbo e narrar para um acontecimento banal para ilustrar o mistério da eternidade que sempre manteve viva a sua curiosidade de menino nado e criado no planalto mirandês de tantos encantos.
José Alfredo é padre da Obra da Rua e responsável d’O Calvário.










