Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Começam hoje, 18 de setembro, as eleições para a Duma russa, num país onde a guerra condiciona a vida política e onde o Kremlin procura impedir que o descontentamento se transforme em alternativa. Para situarmos estas eleições, nada melhor do que repetir uma anedota dos tempos soviéticos.
Conta-se que um ouvinte telefonou para a Rádio Erevan, da Arménia:
— Já podem anunciar os resultados das eleições do próximo domingo?
— Infelizmente, não. Roubaram-nos os resultados.
Como matar o dragão
Em análise recente, o opositor exilado Mikhail Khodorkovsky – ex-bilionário e ex-prisioneiro de Putin – faz o elenco das visões recíprocas que o Kremlin e Bruxelas têm desta guerra, mostrando os enviesamentos que existem no mundo livre enfraquecido pela presidência Trump, e pelo mundo da oligarquia russa, apoiada pela China e outros dragões menores.
Segundo Khodorkovsky, Putin não conseguiu transformar a invasão de fevereiro de 2022 numa guerra assumida pelo conjunto da sociedade russa. A mobilização de setembro revelou a resistência da população a envolver-se na «operação militar especial». Desde então, passaram quatro trágicos anos, o número de baixas russas ascende a um milhão e meio de mortos e feridos, e as linhas da frente em pouco se modificaram. Também pouco se modificou a atitude dos russos perante a guerra; a oposição contrária à guerra represente cerca de 15% da população. Do outro lado, estão os “turbo-patriotas” do movimento “Z” — uma oposição de sinal contrário —, que também somam cerca de 15%. Os restantes 70% são politicamente inativos de momento.
Entretanto, desde há seis meses, os ataques ucranianos às refinarias e aos depósitos de petróleo da Federação aproximaram a guerra da vida quotidiana dos russos. As sondagens mostram uma divergência: desde fevereiro, o apoio à guerra terá aumentado sete pontos percentuais, enquanto a aprovação de Putin diminuiu. Esta divergência torna o presidente mais dependente das forças de segurança que exercem a repressão e controlo, embora o descontentamento das elites permaneça contido enquanto não ocorrer uma derrota militar decisiva.
Em «Como matar um dragão», Mikhail Khodorkovsky defende que a Rússia só romperá o ciclo das autocracias se a saída de Putin for acompanhada por uma transformação das instituições. Propõe uma república parlamentar, com federalismo e autonomia local, capaz de distribuir o poder e impedir que o próximo governante se torne outro ditador. A mudança exige preparação política e uma reflexão sobre como fazer justiça pelos crimes do regime sem perpetuar a violência.
Em segundo lugar, a proibição de o partido Yabloko concorrer às eleições ilustra o receio de que estas tornem visível a oposição à guerra. Inicialmente tolerado porque lhe atribuíam apenas 1 ou 2 por cento dos votos, o partido Yabloko, fundado por Grigory Yavlinsky, um nome a reter, terá alcançado dez por cento nas estimativas de Khodorkovsky, com possibilidade de crescer até 25% em votos de protesto. A exclusão é uma reação do Kremlin a esse crescimento nas sondagens.
A passividade do povo russo altera-se quando surge a possibilidade de mudança. Khodorkovsky estima que os meios de comunicação da oposição cheguem diariamente a dez milhões de pessoas, número que terá atingido trinta milhões durante o pronunciamento de Prygogin em 2023. A disposição para acompanhar os acontecimentos cresce quando os cidadãos sentem que podem influenciar o seu desfecho. É neste ambiente que Khodorkovsky antecipa uma nova mobilização, sem anúncio formal, destinada a recrutar cerca de trezentos mil homens. Pelas exigências tecnológicas da guerra, uma grande parte teria de ser recrutada entre estudantes e engenheiros, alargando o esforço militar a setores qualificados.
Putin continua a guerra devido à avaliação que faz das fraquezas ocidentais, à atitude dos “porquinhos”. É um presidente convencido de que mudanças de governo na Alemanha e em França, favoráveis à direita radical acabarão por reduzir o apoio à Ucrânia. As dificuldades da União Europeia em aprovar cada pacote de auxílio alimentam essa expectativa, enquanto a confiança num entendimento com Trump lhe permite desvalorizar a pressão americana. Uma mudança da posição dos Estados Unidos modificaria este cálculo, mas, entretanto, a hesitação europeia oferece-lhe razões para persistir.
Khodorkovsky também rejeita a expectativa de um colapso económico próximo. As receitas das exportações, petróleo e gás, continuam a permitir a compra de produtos chineses, enquanto recursos humanos e capacidade industrial são desviados para as necessidades militares. O custo aparece na degradação das infraestruturas, na falta de manutenção e nas falhas dos serviços. Mas apesar do desgaste Putin pode sustentar a guerra, sendo o abastecimento chinês decisivo para a continuidade.
Quanto a Bruxelas, um grande erro fundamental é acreditar que Putin procura uma saída para a guerra, quando o presidente russo está convencido de que basta resistir até os europeus deixarem de apoiar a Ucrânia. Conta com o desgaste do adversário, com as divisões da Europa e com a possibilidade de continuar a entender-se com Trump que tem feito tudo o pode para trair a Ucrânia.
A resposta europeia nestes quase cinco anos de guerra tem algo de miraculoso. O clube dos ricos conseguiu encontar fibra moral para ter um compromisso duradouro com a Ucrânia, acompanhado pela execução dos planos de rearmamento. O valor dos princípios morais e jurídicos que condenam o agressor tem conseguido sobrepor-se, com imensas dificuldades aos valores do dinheiro. A Europa terá, dentro de dois anos, maior capacidade de produção fde armamento do que a Rússia. Mas dois anos são muito tempo. Enquanto Putin acreditar que o auxílio ocidental pode terminar amanhã, continuará a prolongar a guerra; só a determinação europeia em apoiar o heróico povo ucraniano o fará a procurar uma saída.
PS. Uma nota de lamento pela morte de Paulo Sadhoka. Encontrei–o pela última vez em junho, no fecho do ano letivo do Centro Cultural e Educativo “Dyvosvit” em Lisboa
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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