Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Portugal está a tornar-se uma Terra do Nunca onde o nosso Peter Pan vive no antigo quarto de solteiro, tem um mestrado, dois estágios, recibos verdes e palavra-passe das Finanças. Não se recusa a crescer. Recusam-lhe o salário, a casa, a estabilidade e lugar de adulto. Depois acusam-no de não sair de casa.
O nosso Peter Pan não é um jovem preguiçoso. Levanta-se cedo, estuda, trabalha e paga impostos. Só não consegue pagar a própria vida. Em 2025, só 8% dos portugueses dos 15 aos 29 anos não trabalhavam nem estudavam, abaixo da média europeia. Porém, 42,1% dos adultos dos 25 aos 34 viviam com os pais ou dependiam do agregado familiar e saíam de casa aos 28,8 anos, contra 26,3 na UE (Eurostat). A habitação subiu 17,6% e a remuneração média 5,6%; o metro quadrado mediano custava 2076 euros e o salário-base 1277. Segundo a OCDE, a valorização das casas favoreceu os proprietários mais velhos e excluiu quem não tem património. A família é o Estado social: dá formação, casa, caução e herança. A autonomia é um adiantamento desta última.

“Chamou-se «síndrome de Peter Pan» à resistência às responsabilidades adultas. A expressão não tem rigor clínico, mas triunfou: há quem não queira crescer.”
Chamou-se «síndrome de Peter Pan» à resistência às responsabilidades adultas. A expressão não tem rigor clínico, mas triunfou: há quem não queira crescer. Aqui Peter Pan encontra Estocolmo. O jovem depende de quem detém casa, poupança, recomendação e poder. Chama proteção à dependência e prudência à obediência. A prisão oferece cama, Internet e automóvel; pede gratidão e silêncio. Pais indispensáveis encontram filhos que preferem a menoridade confortável ao risco: «Eu sustento-te; tu não te afastas.»
O contrato reproduz-se no país. Nas «jotas», há jovens até aos trinta; investigadores de quarenta ainda são promessas; na empresa familiar, o fundador promete a sucessão, mas guarda o cofre; associações e academias renovam-se depois da morte. Os velhos temem largar o comando; os novos não o disputam porque precisam de assinatura, recomendação ou propriedade. Uns chamam experiência à permanência; outros, respeito à submissão.
Não basta chamar-lhes despolitizados. Têm opiniões, causas e indignação; falta convertê-las em poder. Num inquérito da Universidade Católica a 931 jovens, nove em cada dez dizem que já votaram, mas só 2,4% participaram num sindicato, 17,5% num partido e 34,7% numa associação. Votar é um ato; a cidadania exige aparecer, discutir e voltar. Não se acende só com uma causa mas apaga-se quando esta sai do ecrã. Um gosto não convoca assembleias, organiza trabalhadores ou negoceia leis. Nas redes, o jovem é soberano por trinta segundos; fora dela, depende do senhorio, do contrato e dos pais.
Portugal fabrica esta menoridade cívica. Os pais de Peter Pan prolongam a infância dos filhos, compensando o que economia e Estado recusam. A família substitui a política de habitação; o estágio a profissão; o apoio, o direito; a juventude partidária, a participação. O jovem candidata-se a bolsa, estágio, Porta 65, IRS Jovem, garantia pública ou lugar numa lista, mas raramente é coautor das políticas. O cidadão é beneficiário: tem número fiscal e senha, mas pouco poder. Eis o Estocolmo político: o sistema que impede a autonomia assegura a sobrevivência. E muitas vezes, a Terra do Nunca, toma a forma de consumo de drogas, álcool e escapismo.
Partem os que renovariam o país; os restantes adaptam-se. Depois lamenta-se a passividade de quem nunca recebeu as chaves. O vazio é ocupado pelo ressentimento, salvadores e respostas simples. O populismo cresce entre informados impotentes. Reduzido a espectador, o cidadão escolhe quem grita mais alto.
A questão não é a idade: há jovens conformistas e velhos criadores. É a circulação da responsabilidade. Uma sociedade vive quando transmite conhecimento, propriedade e poder; paralisa quando só transmite conselhos. A cura não é expulsar filhos ou reformar pais: exige habitação acessível, salários habitáveis, carreiras abertas, sucessões reais e instituições renováveis; pais dispensáveis e filhos dispostos ao risco.
Na parábola do Evangelho (Lucas 15, 11-32), o filho pródigo sai de casa, cai nas dívidas mas regressa adulto. O irmão mais velho nunca partiu e diz: «Há tantos anos que te sirvo.» Depende do que já lhe pertence e chama fidelidade à incapacidade de partir. O pai entrega a herança, suporta a separação e as consequências da liberdade: não infantiliza. Talvez o Peter Pan dos Evangelhos, seja esse irmão adulto obediente e ressentido.
Portugal deixará de ser a Terra do Nunca? Quando deixar de significar prender, quando agradecer deixar de significar obedecer e herdar deixar de ser a principal política de juventude. O problema não é só os filhos não crescerem; é os pais, os partidos e o Estado governarem como se nunca devessem entregar-lhes a casa.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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