Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Quando os bilionários e trilionários da IA começam a falar do fim do mundo, convém ouvi-los porque os falsos profetas já possuem as grandes máquinas com que pretendem construir o mundo seguinte. Peter Thiel, cofundador da PayPal e da Palantir, decidiu levar a questão a Roma. Em julho de 2026 publicou na First Things um texto intitulado The Pope and the Antichrist, nascido das conferências que dera na capital italiana. O assunto, diz sem rodeios, é o Anticristo. E acrescenta uma provocação: durante grande parte da história cristã, o facto de ninguém falar dele poderia ser entendido como sinal de que a sua chegada estaria próxima.
Como nos aproximamos do texto em que João de Patmos nos apresenta o Cordeiro da Paz entre uma multidão de símbolos, de números, de línguas, de assembelias e de crentes? O excêntrico Thiel não faz espiritismo de feira. Move-se entre S. Paulo, Joaquim de Fiora, Boaventura, Soloviev e Bento XVI, especulando sobre a crise política e tecnológica do Ocidente. Retoma a imagem de Soloviev: o Anticristo não aparece necessariamente com chifres e exércitos. Pode apresentar-se como benfeitor da humanidade, defensor da paz, da segurança e da prosperidade universal. A tentação final pode não ser o terror, mas uma paz tão perfeita que exija entregar a alguém a liberdade.
Vale a pena ler Thiel. Ele receia que o medo das armas nucleares, da inteligência artificial ou da catástrofe ambiental seja utilizado para justificar um poder planetário capaz de travar o progresso em nome da sobrevivência. Podemos achar a interpretação excessiva ou contraditória: é curioso que um homem ligado a tecnologias de vigilância se apresente como profeta contra o controlo global. A velha pergunta regressa: quem promete salvar a humanidade e a que preço?
Elon Musk não possui doutrina do Anticristo mas habita o mesmo horizonte apocalíptico. Em fevereiro escreveu no X: “I agree with the teachings of Jesus.” uma frase parva sobre a qual não sei o que dizer. Mais reveladora é a maneira como fala do futuro. Em Davos, este ano, explicou que o objetivo das suas empresas é aumentar a probabilidade de a civilização ter um grande futuro e “expandir a consciência para além da Terra”. A vida é uma pequena chama numa imensa escuridão, e importa impedir que se apague. Em julho, numa entrevista à Economist, voltou à mesma ideia: interessa-lhe tudo o que possa prolongar a consciência no futuro.
Com Peter Thiel e Elon Musk, a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar ambíguo de ameaça e promessa. O planeta Marte torna-se uma espécie de arca de Noé cósmica. Os robôs poderão destruir-nos ou proporcionar uma abundância inimaginável. A humanidade vive entre a extinção e a transcendência. Falta perguntar se esta linguagem ainda pertence à engenharia ou já entrou no território da religião. Eu crieo que entrou na religião, mas de má qualidade.
Ouçamos o teólogo Joaquim Carreira das Neves, OFM (1934–2017) — de quem tive a sorte de ser colega na Universidade Católica Portuguesa — foi um dos nossos maiores especialistas em Sagrada Escritura e estudos bíblicos. Destacou-se junto do grande público pelos seus livros sobre as figuras bíblicas, o Jesus histórico, São Paulo e o diálogo entre religiões, conseguindo aproximar a investigação de leitores comuns.
Um dos seus melhores exemplos foi A Bíblia, o Livro dos Livros, projeto do Expresso em 2006 em doze volumes, com direcção de Carreira das Neves, ilustrações de Pedro Proença e design de Jorge Silva, que oferecia os textos bíblicos, enquadramento histórico e aparato crítico. Em torno desta renovação encontravam-se outros grandes biblistas, como Armindo Vaz, João Lourenço, José Augusto Ramos e José Tolentino Mendonça, pertencentes a uma geração que libertou a leitura da Bíblia tanto da ideia de que a crítica histórica destruiria necessariamente a fé – e seus fundamentalismo que agora pululam de novo com os teólogos e políticos pseudo-conservadores, em Portugal e Brasil, católicos e evangélicos – como do literalismo ingénuo.
Carreira das Neves ensinou-nos a desconfiar da transformação do Apocalipse em calendário do fim do mundo. No 12º volume de A Bíblia, o Livro dos Livros, devolvia as bestas, os monstros e os números ao seu lugar histórico: foi o combate das primeiras comunidades cristãs contra o poder de Roma. O famoso 666 não era uma password qualquer:; remetia para o poder perseguidor do imperador Domiciano. O Apocalipse não é, afinal, um livro de terror sobre o futuro. É um livro de esperança escrito para homens aterrorizados no presente.
Durante dois séculos imaginámos que a modernidade expulsaria a teologia da política. Mas afinal, ela regressou pela porta dos bilionários? Os empresários da tecnologia falam de criação de mundos, prolongamento da vida, inteligência superior, catástrofe final, sobrevivência da espécie e colonização dos céus. São palavras seculares, mas com uma antiga arquitetura narrativa. Há uma queda possível, uma grande tribulação, instrumentos de salvação e uma promessa de futuro.
Musk e Thiel continuam a atividade muito moderna de secularizar o cristianismo. A ressurreição transforma-se em longevidade; o paraíso, numa colónia em Marte; a providência, em cálculo algorítmico; a comunidade dos crentes, numa civilização multiplanetária. Até a esperança deixa de depender de Deus e passa a depender da capacidade humana para construir máquinas suficientemente poderosas.
O cristianismo começa pela afirmação de que o homem não se salva a si próprio. Ainda bem, considerando a quantidade de estupidezes e maldades que já fizemos. Silicon Valley começa quase sempre pela hipótese contrária. Mas os seus engenheiros voltaram a fazer perguntas que julgávamos reservadas aos filósofos: de onde vimos, onde estamos, para onde vamos, e por que ainda continuamos aqui a rir.

“Musk e Thiel continuam a atividade muito moderna de secularizar o cristianismo. A ressurreição transforma-se em longevidade; o paraíso, numa colónia em Marte; a providência, em cálculo algorítmico; a comunidade dos crentes, numa civilização multiplanetária.” Foto retirada de vídeo no youtube do Fórum Económico Mundial
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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