Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Estou convicto de que, dentro de vinte anos, quando já tiverem terminado os impérios russo e chinês e o império americano estiver na sua agonia, os nossos netos e bisnetos usarão a expressão «informação artificial» para designar aquilo a que hoje chamamos IA. E por muitas boas razões. A principal é que, segundo alguns dos melhores mestres — Roger Penrose, Geoffrey Hinton, Miguel Nicolelis — não pode haver inteligência sem corpo, sem as suas experiências, memórias e emoções, sem amigos e inimigos.
Em 1955, John McCarthy precisava de um nome capaz de atrair financiamento para uma reunião científica a realizar no ano seguinte na Universidade de Dartmouth, com Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon. Havia computadores, cibernética e teoria da informação, mas faltava uma expressão vistosa. Surgiu «inteligência artificial». A Fundação Rockefeller concedeu 7500 dólares e o nome, muito antes da tecnologia, começou a trabalhar. Hoje, a «inteligência artificial» já é uma senhora de setenta anos: sabe imensas coisas, fala sem parar e, às vezes, deixa-nos sem resposta. Eu uso-a, como quase todos, mas não sou crente,
Miguel Nicolelis estraga a festa: uma máquina não é inteligente; a inteligência não nasce do cálculo, mas de um corpo vivo que sente, age, sofre, deseja e se relaciona. O algoritmo reconhece padrões e prevê palavras; não teve infância, não sentiu fome, não perdeu um amigo nem teve de pedir desculpa. Pode simular uma conversa, mas não vive dentro dela. Seria, por isso, mais exato falar de informação artificial.
A informação artificial é também a imagem do mundo diariamente produzida pelas redes e pelas televisões. Nem sequer precisa de ser falsa. Basta que seja selecionada e ordenada segundo critérios alheios à conversação humana. De um lado, interesses objetivos: dinheiro, audiências, poder, publicidade, carreiras. Do outro, trapalhadas subjetivas: vaidades, ressentimentos, medos e rivalidades. Entre os interesses económicos e as grandes confusões pessoais constrói-se um mundo às avessas.
Veja-se o plano Trump para Gaza. Anuncia-se o começo da reconstrução. Quem lê imagina casas, escolas ou um hospital. Afinal, o primeiro contrato conhecido destina-se a um posto militar para 150 soldados marroquinos, numa zona controlada pelo exército israelita. «Começou a reconstrução de Gaza» não é propriamente falso; é uma verdade de pernas para o ar.
Ceuta. Qual a notícia verdadeira? Foi invadida? Houve uma deslocação desesperada movida por vozes na rede? Marrocos abriu deliberadamente a fronteira? O governo espanhol manteve a ordem, sem alvejar ninguém? A Mossad inspirou o plano? Os EUA e Marrocos estão aliados contra a Espanha de Pedro Sánchez ? Todas estas frases contêm alguma coisa de verdadeiro. Nenhuma contém a verdade inteira. A informação artificial escolhe uma delas, acrescenta uma fotografia, uma seta vermelha e a palavra URGENTE. Depois entrega-nos o mundo às avessas.
Já em 1506, no Sermão de Abrantes, Gil Vicente dizia que o triste mundo anda para trás, às avessas, como o diabo o quer. A Assembleia de Abrantes publicou 2025 a minha tradução do que é esse Elogio da Loucura português.
A televisão é uma grande maçada, não porque nela tudo seja mentira, mas porque cada verdade nos é apresentada separada das relações que lhe dão sentido. Aperfeiçoou esta liturgia. Os noticiários repetem morte, cadáver, vítima, guerra, catástrofe e escândalo. Tornaram-se uma religião funerária: ao pequeno-almoço recebemos três mortos, ao almoço quarenta e ao jantar o fim do mundo, seguido da meteorologia. A morte existe. A informação artificial consiste em repeti-la tanto até parecer que só ela existe.
Não escapamos desta prisão por meio de informação secreta ou privilegiada. Escapamos através da grande conversação humana: incompleta, imperfeita e corrigível, mas sustentada por pessoas em quem confiamos. Um amigo pode enganar-se, mas podemos perguntar-lhe porquê. Conhecemos a sua história, o seu carácter, as suas lealdades e os seus interesses. Um algoritmo pode corrigir-se mas não tem vergonha.
A verdade chega-nos através de testemunhas, encontros, refeições, palavras dadas e, também dolorosamente, através de promessas traídas, abandonos imprevistos e cicatrizes mostradas. Jesus Cristo não chamou aos discípulos utilizadores, seguidores, subscritores ou acionistas. Não os chamou para anunciarem que o Verbo se fez máquina; chamou-os para anunciarem que o Verbo se fez carne.
A máquina pode ordenar quadriliões de dados e ajuda-nos extraordinariamente. O que não pode é substituir aquilo que há de mais humano: corpo, memória, risco, confiança e fidelidade. Convém consultar a IA, mas conversar à mesa; ler as redes, mas perguntar quem ficou fora do enquadramento; conservar o telemóvel, mas sobretudo amigos. O mundo às avessas não se melhora com mais informação melhora-se quando a informação volta a passar entre pessoas que respondem umas pelas outras.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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