Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Fernando Pessoa escreveu o O Banqueiro Anarquista em 1922. Um conto de raciocínio sobre um banqueiro que acumula dinheiro e que se proclama anarquista e explica que é mais revolucionário do que os revolucionários. Tudo indica que o poeta que é um fingidor não tenha inventado inteiramente este paradoxo. Na Lisboa do seu tempo existia alguém que era banqueiro, que era anarquista – e de outras sociedades clandestinas – que era homem de letras e colaboraram pelo menos uma vez no mesmo jornal. Chamava-se Adrião de Seixas.

Relatório Banco de Portugal
Adrião Acácio de Seixas (1860–1925) esteve no centro do sistema financeiro português durante mais de 30 anos! O relatório do Banco de 1925 regista a sua morte, em 11 de Junho, e refere que estava ligado ao banco emissor desde 1888. Em Abril de 1903, Raul apresenta-o nas Memórias como Secretário-Geral a falar da falta de dinheiro do Estado, das reservas de prata e dos défices. O Banco de Portugal era o banco emissor, detentor desde 1887 da exclusividade da emissão de notas no Continente e ilhas. Adrião trabalhava onde o dinheiro deixava de ser apenas riqueza privada para se tornar poder público. Implanta-se a República em 1910 e Adrião continua, impávido e sereno, como secretário-geral, Conservou o cargo até morrer, em Junho de 1925.
A segunda face de Adrião de Seixas era a literatura. Aparece repetidamente na imprensa ilustrada de finais do século XIX e princípios do XX. Era colaborador da revista Brasil-Portugal, escrevia muito em O Dia, esteve na origem da revista literária Serões e circulou nos meios culturais de Lisboa. Como personalidade pública. Fernando Pessoa não precisava de ser seu amigo para saber quem ele era.
E havia uma terceira face. Os apontamentos do anarquista Alfredo de Assunção Araújo – que eu apresentei no Dossier Regicídio – colocam Adrião de Seixas e António Centeno no gabinete do Banco de Portugal na tarde de 1 de Fevereiro de 1908, aguardando acontecimentos contra D. Carlos que, segundo o testemunho recolhido, os dois dissidentes monárquicos saberiam estar em curso. É um testemunho indireto: não prova que Adrião fosse carbonário, maçon, nem participante no Regicídio. Prova, porém, que entre antigos revolucionários circulava a memória da sua proximidade ao mundo conspirativo.
O banqueiro anarquista de Pessoa explica que matar capitalistas é inútil porque o verdadeiro inimigo não são os homens. «As ficções sociais não são gente, em quem se possa dar tiros.» Estado, propriedade e, sobretudo, dinheiro são as construções que dominam. Se não se mata uma ficção social com uma pistola nem se explode o dinheiro com dinamite, resta-lhe dominá-lo. Enriquece, acumula e conclui que venceu a tirania do dinheiro. Os outros continuam escravos das ficções sociais; ele seria, por isso, «o verdadeiro anarquista».

É aqui que entra José Nunes. serralheiro da Imprensa Nacional, membro do grupo anarquista Os Mineiros ( e de uma loja maçónica) e perito no fabrico de bombas, Esteve entre os homens mobilizados para o 1 de Fevereiro. Em 1912 publicou A Bomba Explosiva e em 1918 E Para Quê?, onde deixou a sua versão do Regicídio. Nunes é quase a encarnação do anarquista que o banqueiro de Pessoa rejeita: o homem da ação directa, da bomba e do atentado.
De um lado, José Nunes: o operário, as bombas, o Terreiro do Paço, a revolução que dispara contra homens. Do outro, Adrião de Seixas: o subterrâneo político, instalado no coração do banco emissor, conhecendo o crédito, a emissão e a dívida, dominando por dentro aquilo que Nunes pretendia combater por fora. Nunes representa a violência revolucionária; Seixas, a possibilidade muito mais inquietante de a revolução passar pelo dinheiro.
Ainda mais interessante: na revista de Faro intitulada O Heraldo onde Fernando Pessoa publica «A Casa Branca Nau Preta» aparece também uma notícia política sobre Adrião de Seixas que participaria na formação de um «grande partido republicano conservador» em torno de Egas Moniz, Sobral Cid, e José Relvas. Mais elementos que possuo não cabem no âmbito desta crónica.
Não existe carta, diário ou apontamento de Pessoa declarando que Adrião de Seixas foi o modelo do Banqueiro Anarquista. E há diferenças: a personagem diz ter começado como «vulgar operário», o que não corresponde ao percurso conhecido de Adrião. Uma personagem, porém, não é uma certidão de nascimento. Pessoa podia deslocar origens, condensar episódios e transformar uma figura pública num argumento.
A pergunta não é se Adrião «é» o banqueiro de Pessoa. É saber se Pessoa encontrou nele a contradição de que precisava. À vista de todos, havia em Lisboa alguém que era secretário-geral do Banco de Portugal, situado entre a alta finança, a literatura e a conspiração.
José Nunes preparava bombas contra gente poderosa. Seixas colaborava nas alavancas da emissão de dinheiro. A revolução do banqueiro anarquista não precisava de destruir o capitalismo: podia apropriar-se dos seus instrumentos e fazer do triunfo sobre o dinheiro a mais perfeita submissão.
É quase certo que o génio de Fernando Pessoa encontrou antecipadamente um dos nomes do sistema de que nos falam todos os dias as redes, os noticiários, e os jornais e que tem a sua mais poderosa expressão nos EUA de Elon Musk: anarcocapitalismo.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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