Os teólogos, essa raça tão espantosamente austera e irritável, pensam poder
sondar com a sua simples erudição os mistérios insondáveis de Deus
e chegam a pôr a si mesmos as mais extravagantes questões [—].
(In: Hans Kung. O Cristianismo. Essência e História. Círculo de Leitores, 1994 (p.511).
No Movimento do Graal, tanto em Portugal como no âmbito internacional, a palavra “demanda” é estruturante para estarmos sintonizadas numa busca espiritual contínua e ativa “dos mistérios insondáveis de Deus”. Mesmo estando longe das pessoas com quem partilhei mais vivências nesta procura, sobretudo em Portugal, a dinâmica sobrevive e encontra sentido em novos contextos.
Um destes contextos é Palliam, em Noordwijk, na província Holanda-do-sul, onde “comecei a tentar recriar a minha vida” há pouco tempo. Foi sempre importante para mim “criar contextos” (expressão de Teresa Santa Clara Gomes), uma das duas fundadoras do Graal em Portugal (com Maria de Lourdes Pintasilgo). Mas antes de criar eventuais contextos, tenho de me inserir em contextos existentes, ainda não sabendo no que “vai dar”, com referi no meu último artigo no 7Margens: neste momento, tento render-me ao não-saber, vivendo a dinâmica de um novo recomeço na “minha terra” […]. Viver este tempo de uma forma “leve”, sem pressa, aceitando as incertezas, tentando relacionar-me com pessoas em diversos contextos: livraria, biblioteca, projeto Bem-estar do município e a rede Palliam da Igreja local.
Neste artigo irei, num primeiro momento, viajar pelo site da rede Palliam, traduzindo alguns excertos, na esperança de, desse modo, partilhar o sentido desta iniciativa. Num segundo momento tentarei descrever algo do que me inspirou numa das pessoas que faz parte desta rede.
Palliam, uma “demanda” em conjunto
Na Palliam, as pessoas partilham a sua fé. Procuram aprofundar aquilo em que acreditam enquanto cristãos, católicos. Ao partilharem, sentem-se mais humanas. Palliam é uma rede de pessoas desafiadas a procurar formas de ser igreja que respondam aos tempos atuais.
É uma iniciativa da Paróquia de São Martinho (Sint Maarten) que abrange sete Igrejas em cinco vilas: Noordwijk – São Jerônimo e Maria ter Zee, Noordwijkerhout – São José e São Vítor, Sassenheim – São Pancrácio, Voorhout – São Bartolomeu, Warmond – São Matias.
Compartilhando o manto
O nome Palliam deriva de “pallium”, a palavra latina para “manto”. Segundo a tradição, o padroeiro da nossa paróquia, São Martinho dividiu seu manto de soldado com um mendigo que estava sentado às portas da cidade francesa de Amiens. Na Palliam, desejamos partilhar aquilo em que acreditamos e o que dá sentido às nossas vidas. Ao partilharmos, tornamo-nos mais plenamente humanos.
Fazendo parte de um grupo de pessoas que se importam profundamente com a Palliam, o diácono Bertijn Prins e a coordenadora Tiny van Westerop trabalham para expandir esta rede — seja através do envolvimento de pessoas das comunidades paroquiais de Voorhout, Noordwijkerhout, Sassenheim, Warmond e Noordwijk, ou de localidades mais distantes. Isso confere à Palliam um carácter diverso e multifacetado.

“Palliam é uma rede de pessoas desafiadas a procurar formas de ser igreja que respondam aos tempos atuais.” Foto: Equipa Palliam. DR
Tiny van Westerop: “Não somos tanto um grupo de trabalho ao lado de todos os outros grupos de trabalho que existem por aí. Queremos ser mais o cimento, ao estabelecermos ligações e criarmos redes. Palliam é um projeto apoiado pela equipa pastoral e pelo conselho.”
A Igreja do futuro estará muito menos presa a edifícios como os conhecemos até agora. Terá muito mais o carácter de um pequeno grupo de pessoas reunidas aqui e ali, sob um teto ou outro, em torno de histórias que as interligam. Pois acreditamos que Deus conta uma história libertadora através da vida de cada um/a de nós. Palliam deseja reunir pessoas, em qualquer lugar, que estejam em busca de sentido, que possam encontrar abrigo e recuperar o fôlego, que possam inspirar e serem inspiradas. Através da sua natureza móvel e dinâmica, espera construir uma rede de amor na qual a fé possa e deva ser encontrada.
Escritura e Tradição
Tiny van Westerop: “Eu não costumava falar sobre minha fé, mas agora tento mencioná-la com mais frequência. Ao fazer isso, a Bíblia tornou-se o meu tesouro. Boas conversas e conhecer a pessoa por completo — é isso que eu busco.” Hubert Jansen apresenta o chamado “slotje” (fechadura) no site da Palliam, uma Liturgia das Horas online ao final do dia. “Comecei a trabalhar na Palliam porque sentia que não havia muito a fazer na paróquia além dos serviços religiosos. Rezamos o ‘slotje’ na tradição das Completas, a oração final do dia nos mosteiros. Uma tradição antiga com uma nova roupagem. Não é preciso inventar tudo sozinho. Temos uma tradição secular de oração na igreja, como os cantos gregorianos. A espiritualidade palpável neles toca-me a mim e também a outras pessoas. O facto de agora estar online torna tudo mais acessível.”
Contar, ouvir e observar

Diácono Bertijn Prins: “O que noto é que, mesmo na igreja, a grande história já não está e ser contada. Há uma ênfase nos círculos externos: cantar em conjunto ou participar em atividades sociais.” Foto DR
Bertijn Prins: “O que noto é que, mesmo na igreja, a grande história já não está e ser contada. Há uma ênfase nos círculos externos: cantar em conjunto ou participar em atividades sociais. Mas as pessoas raramente fazem perguntas como: quem Jesus é para si e que impacto tem isso na sua vida? Também observo uma certa tendência para a superficialidade. Entretanto, quando as pessoas ouvem as histórias da Bíblia, dizem: ‘Oh, que bonito, isto fala sobre mim.’ As pessoas percebem que as histórias da Bíblia também falam delas próprias, mas não aprofundam, em conjunto, o que, como católicos, pensam sobre essas histórias. Neste sentido, ouvir-nos uns aos outros é muito importante.”
Tiny van Westerop acrescenta: “Na verdade, todo o nosso projeto assenta em ouvir as pessoas que vêm até nós. O que está a acontecer aqui? O que é que esta pessoa procura? E, depois, observar e explorar em conjunto o que podemos fazer.”
Palliam procura desempenhar um papel pioneiro na construção do futuro da igreja e da paróquia. Como será esse futuro? Não podemos consultar uma bola de cristal. A realidade, porém, é que alguns edifícios eclesiásticos serão abandonados. Isso terá consequências para as nossas comunidades. O que é que realmente nos une e nos liga? Em que alicerce nos apoiamos e de que necessitamos? Afinal, a Igreja já existia muito antes dos edifícios da igreja; pois a Igreja está presente onde quer que duas ou três pessoas se reúnam em Seu nome.
Em busca de sentido

“Depois da oração, as pessoas presentes encontram-se para tomar café no espaço da casa paroquial. Conversas várias.” Foto: Espaço Palliam na Igreja São Jerónimo em Noordwijk. DR
Sob o lema ‘zomaar een dak’ (simplesmente um teto), Palliam tenta reunir pessoas que estão em busca de algo — pessoas que podem encontrar abrigo, respirar fundo e, ao mesmo tempo, encontrar e oferecer inspiração. Através da sua natureza móvel e dinâmica, a iniciativa espera construir uma rede de amor onde a fé seja possível e bem-vinda.
Aos sábados, às nove horas de manhã, Palliam proporciona-nos a possibilidade de rezarmos em conjunto as Laudes, na Igreja São Jerónimo em Noordwijk.
Depois da oração, as pessoas presentes encontram-se para tomar café no espaço da casa paroquial. Conversas várias.
Com uma das pessoas presentes comecei a sentir muita sintonia. Trata-se do filosofo Charel B. Krol, que viveu em Odessa. Graças à sua estadia em Odessa, adquiriu uma sensibilidade especial pela identidade ucraniana, que se distingue da cultura e do carácter do povo russo. Escreveu uma tese PhD, publicada em neerlandês, que me emprestou. O título traduzido é: Se ao menos o Rei soubesse disso…! O subtítulo esclarece a complexidade da investigação realizada: Sobre autoridade e conhecimento, inviolabilidade e infalibilidade, na sua história mútua.
Charel analisa fontes históricas do mito da confiança na bondade do rei e na maldade dos seus ministros. Demonstra como este mito foi introduzido na Constituição neerlandesa.
Entre muitas outras coisas, o que me desafia no seu texto é a forma como problematiza a comunicação interpessoal. Cito:
“O cerne da individualidade pessoal deve ser incomunicável; se pudesse ser comunicado aos outros, haveria uma base de entendimento, um princípio comum, ou mesmo apenas uma compreensão comum da língua em que a mensagem é transmitida, que fosse mais profunda do que a própria individualidade. Se o indivíduo é chamado, sim, em princípio obrigado a concretizar ao máximo a sua singularidade, então é forçado a tornar-se cada vez mais incompreensível. A individualidade livre e a comunidade são inversamente proporcionais; à medida que a primeira aumenta, a segunda diminui. [In: Charel B. Krol. Se ao menos o Rei soubesse disso…!” Metro, 1994 (p. 237)]

Tenho andado à volta desta afirmação, tentando interiorizar a consciência da incomunicabilidade do nosso eu mais profundo. Ao entrar em novos contextos, e ao voltar a estar em contextos que me são próximos, nomeadamente o da família, como conseguir viver “feliz” com o que há de mais construtivo do nosso ser individual: a solidão?
No dia em que tive uma longa conversa com Charel, li (e ouvi) esta frase no Passo a Rezar. Coincidência?
“Lembra-te de que não estás só. És parte de uma imensa comunidade de irmãos com milénios de história e que se projeta na eternidade de Deus. Contempla este mistério…”
Com muita gratidão às minhas amigas Fátima Silva e Glória Miraldes por “vigiarem” o meu “português de estrangeira”.
Marijke de Koning, neerlandesa, trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.
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