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[Entre Margens]

Voz que clama no deserto: da radicalidade de João à ternura de Jesus

| 16/09/2026

Uma voz clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas
(Mt 3,3)

A figura de João Batista constitui uma das mais fascinantes portas de entrada para o Evangelho. Os textos evangélicos apresentam-no como aquele que prepara a chegada de Jesus, mas também como alguém cuja mensagem e estilo de vida evidenciam uma tensão profunda que acompanha toda a experiência cristã. Entre João e Jesus existe continuidade, mas existe igualmente contraste. Um contraste que não deve ser entendido como oposição, mas como desenvolvimento e aprofundamento de uma mesma revelação de Deus.

João surge no deserto da Judeia proclamando um baptismo de conversão e anunciando a proximidade do Reino de Deus (Mt 3,1-2). O cenário não é secundário. Na tradição bíblica, o deserto é o lugar da purificação, da prova e do reencontro com Deus. Foi aí que Israel aprendeu a confiar durante o êxodo (Dt 8,2-3) e que os profetas redescobriram a fidelidade divina em tempos de crise (Os 2,16-17). O deserto é o espaço onde caem as ilusões humanas e onde apenas permanece o essencial.

João Baptista

“O deserto é o espaço onde caem as ilusões humanas e onde apenas permanece o essencial. João encarna esse espírito de radicalidade.” Gravura: Julius Schnorr von Carolsfeld (1794–1872), João Baptista pregando no deserto. Georg Wigands, 1860. Leipzig

João encarna esse espírito de radicalidade. A sua própria existência é uma palavra profética. A veste de pelos de camelo e a alimentação austera (Mt 3,4) recordam Elias (2 Rs 1,8) e manifestam uma opção clara por uma vida despojada. O seu anúncio é igualmente radical: «Produzi frutos dignos de conversão» (Mt 3,8). Não bastam práticas religiosas ou pertenças identitárias. É necessária uma transformação concreta da vida. O machado já está posto à raiz das árvores (Mt 3,10). Aquele que vem depois dele limpará a eira e separará o trigo da palha (Mt 3,12). Tudo na pregação de João aponta para a urgência da decisão.

A imagem de Deus que emerge da sua mensagem está fortemente marcada pela proximidade do juízo. Deus aparece como aquele que vem avaliar a fidelidade do seu povo, e perante o Qual ninguém poderá esconder-se atrás de privilégios religiosos ou sociais. Trata-se de uma visão profundamente enraizada na tradição profética de Israel e necessária para despertar consciências adormecidas.

Contudo, é precisamente deste deserto que emerge Jesus.

Os Evangelhos mostram uma clara continuidade entre os dois. Jesus aproxima-se de João para ser baptizado (Mt 3,13-17). Após o baptismo, é conduzido pelo Espírito ao deserto (Mt 4,1). Também Ele inicia a sua missão proclamando: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» (Mt 4,17). O Evangelho não elimina o apelo à conversão. Pelo contrário, assume-o plenamente.

Mas acontece algo novo.

Se João anuncia o Reino como uma realidade iminente diante da qual é necessário preparar-se, Jesus apresenta-o como uma realidade já actuante na história. O Reino não é apenas uma promessa futura; é uma presença que, em Jesus e por meio de Jesus, começa a transformar a vida das pessoas. Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e aos pobres é anunciada a boa nova (Mt 11,4-5). O centro desloca-se da ameaça do julgamento para a possibilidade da salvação.

Também o estilo de vida de Jesus difere significativamente do de João. Enquanto o Batista permanece associado ao deserto, Jesus percorre cidades e aldeias (Mt 9,35). Enquanto João adopta uma disciplina austera, Jesus senta-se à mesa com publicanos e pecadores (Mt 9,10-13). Enquanto João representa a voz que chama para fora, Jesus torna-se presença que entra na vida concreta das pessoas.

O próprio Jesus sublinha esta diferença: «Veio João, que não come nem bebe, e dizem: “Tem demónio”. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: “É um glutão e um beberrão, amigo de publicanos e pecadores”» (Mt 11,18-19). Trata-se de uma observação profunda. João manifesta a urgência da conversão através do afastamento. Jesus manifesta a proximidade de Deus através da partilha.

A diferença torna-se ainda mais evidente na forma como ambos entendem a acção de Deus no mundo. Na pregação de João predomina o horizonte do juízo iminente. Em Jesus, embora o juízo não desapareça, ele deixa de ocupar o centro da revelação. O centro passa a ser a misericórdia.

«Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,17). Esta afirmação constitui uma verdadeira chave hermenêutica do Evangelho. A santidade de Deus não se manifesta prioritariamente na condenação do pecador, mas na sua capacidade de o procurar, acolher e transformar.

As parábolas de Jesus revelam essa novidade de forma magistral. O pai do filho pródigo não espera passivamente pelo regresso do filho; corre ao seu encontro (Lc 15,20). O pastor abandona as noventa e nove ovelhas para procurar a que se perdeu (Lc 15,4-7). O samaritano aproxima-se daquele que jaz ferido à beira da estrada quando todos os outros passam ao largo (Lc 10,30-37). Em todas estas imagens encontramos um Deus que toma a iniciativa da compaixão.

A partir daqui emerge uma nova compreensão, não apenas de Deus, mas também da própria acção humana.

A radicalidade de João convida a sair do mundo para reencontrar Deus. A radicalidade de Jesus consiste em encontrar Deus precisamente no coração do mundo. Não desaparece a exigência da conversão; muda o seu horizonte. O discípulo não é chamado a procurar a própria pureza como fim em si mesma. É chamado a participar na obra misericordiosa de Deus.

A espiritualidade do deserto não é abandonada; é transformada.

Gustave Doré, Bíblia – Sermão da Montanha. Reprodução a partir da Wikimedia Commons.

Com João, o deserto é o lugar da renúncia, da purificação e da preparação. Com Jesus, o deserto torna-se também lugar de compaixão e de encontro. O mesmo Jesus que se retira para orar em lugares desertos (Mc 1,35) é o Jesus que multiplica o pão para as multidões famintas no deserto (Mc 6,34-44). O lugar da privação converte-se em lugar de abundância. O lugar da prova transforma-se em lugar de cuidado.

Essa transformação tem profundas consequências para a vida cristã. Ao longo da história, muitos crentes oscilaram entre a radicalidade profética de João e a proximidade misericordiosa de Jesus. Por vezes privilegiou-se uma religião do medo, da vigilância moral e do julgamento. Outras vezes esqueceu-se a seriedade do apelo à conversão. O Evangelho convida-nos a manter ambas as dimensões, mas numa ordem muito clara: a conversão nasce da experiência da misericórdia de Deus.

Jesus não elimina a voz de João Batista. Pelo contrário, reconhece a sua grandeza: «Entre os nascidos de mulher não apareceu ninguém maior do que João Batista» (Mt 11,11). Contudo, o seu ministério conduz para além do horizonte inaugurado pelo profeta. A voz que clama no deserto prepara a chegada de uma presença. A severidade da preparação abre caminho à alegria do encontro.

Talvez seja esta a grande novidade cristã. O deserto continua necessário. Continuamos a necessitar de silêncio, de discernimento, de desapego, de conversão e de verdade. Continuamos a necessitar de escutar a voz profética que denuncia a injustiça, a superficialidade e a auto-suficiência. Mas o objectivo último do deserto não é a permanência na austeridade. O objectivo é abrir caminhos para que Deus possa ser descoberto na trama concreta da existência humana.

Em Jesus, o deserto deixa de ser apenas um espaço de purificação para se tornar um espaço de revelação. Aí se descobre que o rosto último de Deus não é o da ameaça, mas o da misericórdia; não o do afastamento, mas o da proximidade; não o da condenação, mas o da salvação.

Por isso, a voz que clama no deserto continua a ecoar na vida dos discípulos. Mas essa voz encontra o seu sentido pleno quando conduz ao encontro de Cristo. E em Cristo descobrimos que a radicalidade maior não é a do juízo, mas a do amor. Um amor capaz de transformar o deserto num lugar de vida, e a exigência da conversão num caminho de ternura. Talvez possamos dizer que esta é a mais profunda revolução do Evangelho: do deserto da preparação emerge um Deus de misericórdia que envia os seus discípulos, não para fugir do mundo, mas para o habitar com compaixão, justiça e esperança.

 

Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investigador no Centro de História (ULisboa) e na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião.
Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt 

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