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autores - Rúben Azevedo

[Entre Margens]

Tudo é para sempre

| 09/09/2026

 

Friedrich Nietzsche, na sua famosa teoria do eterno retorno, propôs que a existência de cada indivíduo se repete infinitamente até à eternidade. De facto, se concebermos o universo como infinito no tempo, é inevitável que concluamos que, o que quer que tenha alguma probabilidade de acontecer, mesmo a mais ínfima, não só já aconteceu infinitas vezes no passado como ocorrerá infinitas vezes no futuro. É uma questão de probabilidades. A probabilidade de eu atirar ao ar vinte cartas de um baralho e de elas caírem todas no lugar certo, formando um belo castelo de cartas, é extremamente reduzida, mas existe. Num tempo infinito, ou seja, num número infinito de tentativas, é não apenas necessário que tal prodígio aconteça, como também que aconteça infinitas vezes. Analogamente, se houve uma probabilidade ínfima de eu ter vindo a existir com esta constituição e personalidade, é então necessário que eu venha existir exatamente do mesmo modo, na perspetiva do tempo infinito, não apenas mais uma vez, mas infinitas vezes. É este, em termos básicos, o pressuposto da teoria nietzschiana do eterno retorno.

Friedrich Nietzsche

Friedrich Hermann Hartmann (1822–1902): Friedrich Nietzsche, cerca de 1875. Wikimedia Commons

Com efeito, ela não está muito longe de certas teorias da cosmologia atual, especialmente das que propõem a existência de um multiverso, ou seja, de múltiplos universos – infinitos – ao invés de um só. Pois, precisamente, se o universo for espacialmente infinito e as leis da física nele não mudarem, será em princípio inevitável que, como num fractal imenso, tudo o que foi possível num lugar seja possível noutro, exatamente da mesma maneira. Porque se foi possível uma vez, terá de voltar a ser possível uma segunda, e uma terceira, até ao infinito. Há quem vá mais longe: se o nosso universo, com as suas leis próprias, foi uma vez possível, no infinito do tempo e do espaço será possível conceberem-se infinitos universos como o nosso, isto é, com as mesmas leis; bem como miríades de outros universos diferentes e com diferentes leis, dado que são também possíveis. No infinito, tudo o que é possível é também necessário; tudo o que é potencial é atual.

Mas o meu propósito aqui não é discutir cosmologia, mas antes os pressupostos da teoria de Nietzsche em relação com a conclusão filosófica e existencial que o filósofo alemão dela pretendia extrair. Eis essa conclusão: se a vida de cada um de nós se repete infinita e eternamente, então devemos sempre escolher de tal maneira que queiramos que a nossa escolha se repita até à eternidade. Dito de outra forma: o que decidirmos ou não decidirmos hoje, nesta vida, o que vivermos ou não vivermos nesta existência, de certo modo é como se o fizéssemos (ou não fizéssemos) para sempre. Portanto, vivamos sabendo que a nossa vida se repetirá para sempre, da maneira como escolhemos vivê-la.

Não me é claro se Nietzsche pretendia, efetivamente, que crêssemos numa espécie de imortalidade pessoal, ou se queria que apenas vivêssemos como se essa imortalidade existisse. É que vejamos: Nietzsche é, confessadamente, um materialista ateu. Filho do século de Darwin e do positivismo, crê no mecanicismo das leis físicas. Deste modo, não pode crer na alma nem na sua imortalidade. Contudo, parece estar implícita na teoria nietzschiana do eterno retorno que qualquer entidade física e biológica, ainda que única e singular, não é irrepetível, pois já se constituiu inúmeras vezes no passado e fá-lo-á inúmeras vezes no futuro. Ora, se a consciência, que é o que nos torna únicos, não resulta senão de um certo modo de organização dos constituintes físicos e biológicos (que é o que defende o materialismo), então, sempre que esse mesmo modo de organização ocorrer, dele resultará a mesma consciência. Na verdade, dele resultará exatamente a mesma entidade, dado que é necessário que ela se repita infinitamente, exatamente do mesmo modo. Portanto, Nietzsche foi, é e voltará a ser Nietzsche, sempre que a sua particular biologia se reconstituir, infinitamente. Nietzsche viverá, mesmo que o não queira, uma e outra vez, a mesma vida; será, deste modo, imortal.

” Para ser coerente com o seu materialismo, Nietzsche seria obrigado a defender que o eterno retorno do mesmo é, na realidade, o eterno retorno do outro, pois a replicação do mesmo corpo e até da mesma circunstância não garante a replicação de uma mesma alma.”

Mas é evidente que Nietzsche não quer ser imortal nem julga que isso seja possível. Ele é um convicto materialista, como já referi. Para ser coerente com o seu materialismo, Nietzsche seria obrigado a defender que o eterno retorno do mesmo é, na realidade, o eterno retorno do outro, pois a replicação do mesmo corpo e até da mesma circunstância não garante a replicação de uma mesma alma. Por conseguinte, a maneira como vivo nesta existência, as escolhas que faço, só a mim dizem respeito e nenhuma consequência, de facto, têm na eternidade, que aliás também não me diz respeito.

Para preservarmos esta ideia, que julgo ser interessante, de um impacto, na eternidade, da nossa vida e das nossas escolhas, devemos apelar a um outro modo de ver as coisas. Subscrevo a sabedoria do “vivamos sabendo que a nossa vida se repetirá para sempre, da maneira como escolhemos vivê-la”. Ou seja, como se, de certo modo, a nossa vida ficasse inscrita para sempre no coração da realidade. Mas ficará realmente?

No debate teológico secular entre presciência divina e livre-arbítrio, há uma ideia que concilia perfeitamente as duas realidades, e que me foi sugerida, em tempos, por Boécio. É a ideia, muito simples de compreender, de que Deus, sendo eterno e estando na eternidade, tem perante si o eterno presente de tudo. Nós, que vivemos no tempo, agimos desta ou daquela maneira, livremente ou não, e não conhecemos o futuro. Mas Deus, que tem perante si o passado, o presente e o futuro, tem eternamente diante de si tudo o que se fez, faz e fará. Portanto, em vez de pré-determinar o destino do Homem, Deus dá-lhe liberdade, mas tem diante de si, eternamente, todas as consequências dessa liberdade, e a consumação mesma de todas as vidas.

Se bem refletirmos, a consequência desta teoria é a seguinte: não há um só momento na eternidade que não continue a existir perante o olhar de Deus, eternamente. Mas a existir como, perguntar-se-á? Apenas virtualmente, como uma memória, sem atualidade e efetividade? Admitir que, por exemplo, aquilo que fiz ontem está perante Deus apenas virtualmente, como uma memória, significaria dizer que, também para Deus como para mim, o que aconteceu passou, ou seja, tornou-se passado, memória. Seria admitir que também Deus está no tempo. Mas não: o que estará perante Deus, ou melhor dito, em Deus, é a visão eterna do acontecer mesmo, ou seja, é o próprio acontecer, sempre atual. Em Deus, tudo está sempre a acontecer, eternamente. Assim, desembocamos, embora por outra via, na ideia de um eterno retorno do mesmo, desta feita realmente o mesmo, pois vejamos: eu sou eu em toda a minha vida. Nenhuma consciência, no seu decurso temporal, deixa de ser ela própria. A consciência é um continuum. Portanto, no acontecer da minha vida, que é o acontecer da minha consciência e circunstância, estou sempre eu integralmente, irredutivelmente. É esse eu indivisível que, a cada momento, a cada eterno presente, está em Deus, ou perante a visão de Deus. Estou eternamente a ser e a acontecer em Deus – eu, e não outro. Logo, sou protagonista, em Deus, desse acontecer que reverberará na eternidade. Sou responsável por ele.

Assim se logra o que a teoria nietzschiana não pode lograr: preservar o impacto da nossa ação na eternidade. É que, embora Deus tenha perante si todo o meu passado e todo o meu futuro, não apenas em potência, mas em ato, a realidade é que, como já vimos, a minha liberdade de escolha permanece intacta. Portanto, faz agora todo o sentido dizer: vivamos sabendo, ou estando convictos, de que cada momento é para sempre. Cada ato ou omissão, cada bem ou mal que se faz, cada hora vivida ou não vivida, é para sempre.

 

Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da VidaEnigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.

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