Na manhã do último Sábado do passado mês de Agosto, depois de despertar para o Espírito Santo, como procuro fazer todos os dias, bem cedo, no meio desse mesmo despertar, dei comigo a ler, no 7MARGENS, o texto de Cristina Inogés, sobre o Padre Lino Zatelli, da diocese de Trento, com 75 anos de idade, que, após tanto tempo de ordenação como sacerdote e de ter passado 25 anos ao serviço de uma comunidade paroquial, naquela diocese, colocou um ponto final na sua vida. Aparentemente, como consta do texto, tal atitude ficou a dever-se à mudança, sem qualquer tipo de diálogo ou conversa prévia, para outra comunidade, apesar dos pedidos dos próprios paroquianos.
Depois do almoço, ao ler mais uma das suas brilhantes homilias, a propósito das leituras da Eucaristia do Domingo passado, que, semanalmente, o meu amigo Padre Manuel João Correia, dos missionários Combonianos, cujos Seminários frequentei na minha adolescência e juventude, me envia desde há vários anos, comecei a relacionar aquele texto com o conteúdo desta homilia.

“(…) falta aprendermos a cuidar do outro, dentro da comunidade como um todo: padres e leigos, em diálogo sério e próximo (…)” Foto: Lino Zatelli (março 2021) © site da paróquia de S. Carlo Borromeu (Trento)
E não podia deixar de estabelecer uma outra ligação daqueles dois textos com notícias anteriores, igualmente publicados no 7MARGENS e noutros meios de comunicação da Igreja e laicos, sobre a resistência, para não dizer oposição, de alguns, poucos, mas poderosos, altos dignitários eclesiásticos, a propósito da caminhada sinodal. E a questão que estes textos e a atitude desses bispos e cardeais me colocam é se achamos que na Igreja está tudo bem, para ficarmos quietos, perante estes e outros acontecimentos, que não nos podem deixar ficar de braços cruzados e, principalmente, calados perante esses acontecimentos.
A Cristina Inogés vive inquieta à sua maneira com o que vai observando dentro da Igreja no seu todo. E colocou muito bem o dedo nas várias feridas que causam dor a todos os cristãos, mas principalmente aos que se preocupam com os caminhos que estão a ser percorridos e, mais ainda, perante tantas igrejas vazias de cristãos e de ausência de verdadeiro espírito de baptizados, com os caminhos do futuro e que esperam por alguém, como aprendemos há muito com o antigo e belo Hino da Acção Católica.
Escreveu ela que não basta reformar a educação que é ministrada nos Seminários. E ainda que não basta a oração, que “é demasiado bela, para ser transformada num remédio de xamã tribal”. Acrescenta que falta aprendermos a cuidar do outro, dentro da comunidade como um todo: padres e leigos, em diálogo sério e próximo e, parafraseando o seu texto, não nos ficarmos por conversas de rua e um simples café, à mistura com umas risadas, num qualquer convívio esporádico. No fundo, o estar próximo tem de ter substância, verdadeiro amor e preocupação por todos e por cada elemento da comunidade. Falta regressar às origens.
Já o Manuel João, questiona-nos se, perante as circunstâncias narradas no Evangelho do domingo passado (30 de agosto), nos devemos calar ou, como Pedro, na sua humildade e uma aparente inocência, porém, inquieto, responde a Jesus, sem se preocupar com a resposta dura que irá receber de seguida.
E, mais à frente, na sua douta e, como sempre, bela homilia, a propósito da leitura do Profeta Jeremias (20, 7-9), e do desejo que ele tinha de ficar calado, mas o calor que sentia não lho permitia fazer, o Manuel João acaba por escrever que, antecipando a sua Paixão, “Jesus será perseguido por três categorias de pessoas: pelos anciãos (guardiães da tradição e do poder), pelos chefes dos sacerdotes (guardiães da religião) e pelos escribas (guardiães da lei)”.
E, no meu entendimento, é aqui que entronca a inquietação de Jesus em relação ao que se passava com a religião em que tinha sido educado e aquilo que Ele entendia que teria de ser mudado e, efectivamente, mudou.
Ora, é também esta a inquietação que sente a Cristina e muitos outros cristãos, leigos e, providencialmente, sentiu o Papa Francisco e sente o Papa Leão e a grande maioria dos Bispos e Cardeais que nos deve levar a prosseguir com a caminhada sinodal, para tentarmos atalhar os males que o imobilismo, as incompreensões e a maioria das vezes a “tradição”, o “poder”, o “sempre se fez assim”, “a norma é esta e ponto final”.
Vou concluir. Conheci um sacerdote que cometeu uma falta, foi julgado, condenado, cumpriu a pena. Depois, andou de “capela” em “capela”, até ser desterrado para bem longe, num país diferente do seu. Foi lá que, passados cerca de dez anos sobre o ocorrido, também colocou fim à sua vida. Veio a enterrar na sua terra natal. Nenhum representante da diocese esteve presente nas exéquias. Perante tudo isto, ninguém se questiona sobre a formação que lhe foi dada, pelo acompanhamento no exercício do seu ministério, pelo apoio nas horas de amargura, solidão e questionamento sobre tantas coisas da vida? Por onde anda a caridade, a compreensão, a entreajuda, o apoio que devemos proporcionar uns aos outros. E, também, que é feito do perdão, da misericórdia?
António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










