Quem sou eu? Talvez esta seja uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer. Passamos grande parte da vida a construir uma resposta: somos filhos, pais, amigos, profissionais, cidadãos, membros de uma determinada comunidade. Somos também feitos das nossas histórias, das nossas escolhas, das nossas perdas e das nossas esperanças. Tudo isso contribui para aquilo a que chamamos identidade.
Mas o que acontece quando essa identidade é atravessada pela fé?
Para um cristão, a pergunta “quem sou eu?” não pode encontrar resposta apenas naquilo que o mundo vê. A identidade cristã introduz uma outra dimensão: pertenço a Cristo. E esta pertença transforma a maneira como me compreendo a mim próprio e como compreendo o lugar que ocupo no mundo.
Paulo escreve aos Filipenses: “A nossa cidade está nos céus” (Fl 3,20). A expressão é particularmente forte. Paulo não está a dizer que o cristão deixa de pertencer à realidade concreta em que vive. Continua a ter uma terra, uma história, responsabilidades, relações e uma vida quotidiana. Mas afirma que a sua pertença mais profunda está noutro lugar.
É aqui que a identidade cristã se torna paradoxal. Vivo neste mundo, mas já não encontro nele a minha identidade última.
Jesus exprime esta mesma tensão quando diz aos seus discípulos: “Vós não sois do mundo” (Jo 15,19). Não se trata de desprezar o mundo, nem de fugir dele. O cristão continua dentro do mundo e é precisamente aí que é chamado a viver a sua fé. Mas não permite que sejam apenas os critérios do mundo a determinar quem é, o que vale e para onde deve caminhar.
Talvez uma das maiores dificuldades da vida cristã esteja precisamente aqui. É fácil deixar que a nossa identidade seja definida por aquilo que possuímos, pelo reconhecimento que recebemos, pelo lugar que ocupamos, pelo sucesso que alcançamos ou pela opinião que os outros têm de nós. Procuramos constantemente confirmações exteriores para responder à pergunta “quem sou eu?”.
A fé propõe uma resposta diferente.

Os peregrinos costumam levar cruzes por toda a Via Dolorosa até à Igreja do Santo Sepulcro. Nesta foto, pode ver duas cruzes encostadas à parede da igreja. Foto © Elias | Wikimedia Commons
Antes de tudo aquilo que faço, sou alguém amado por Deus. Antes dos meus êxitos e dos meus fracassos, existe uma pertença que não depende do reconhecimento dos outros. A minha identidade não começa naquilo que consigo provar, mas na relação com Aquele a quem pertenço.
Isto não significa que deixemos de ser aquilo que somos. Continuamos a ter uma história, uma nacionalidade, uma profissão, uma família, uma personalidade e responsabilidades concretas. A fé não apaga essas dimensões. Dá-lhes, porém, um novo horizonte.
Ser cristão é viver uma espécie de dupla consciência: estou aqui, neste mundo, mas a minha esperança não termina aqui. Tenho uma cidadania terrena, mas reconheço uma cidadania maior. Participo na sociedade em que vivo, mas não deixo que ela seja a medida absoluta daquilo que sou.
Talvez seja esta uma das maiores liberdades da fé: descobrir que não precisamos de encontrar no mundo a nossa identidade inteira.
Quando tudo aquilo que nos define exteriormente pode mudar, o trabalho, a condição económica, a aparência, o reconhecimento, os projetos, até as pessoas que nos acompanham, permanece uma pergunta mais profunda: a quem pertenço?
Para o cristão, essa pergunta conduz inevitavelmente a Cristo.
E talvez seja precisamente aí que começa uma verdadeira identidade: quando deixamos de perguntar apenas «quem sou eu aos olhos dos outros?» e começamos a perguntar «quem sou eu aos olhos de Deus?».
Viver no mundo sem pertencer inteiramente aos seus critérios não significa afastar-nos dele. Significa, talvez, aprender a habitá-lo de outra maneira: com liberdade, responsabilidade e esperança.
Porque quem sabe que a sua verdadeira cidadania está noutro lugar pode olhar para este mundo sem precisar de o transformar no seu absoluto.
Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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