“Depois das férias, recomeçamos.” É a partir desta frase aparentemente banal que o professor Luís Francisco Marques regressa ao Entre o Quadro e o Mundo, podcast dedicado à educação, para propor uma reflexão sobre o início de um novo ano letivo. Mas, avisa, ninguém recomeça verdadeiramente do zero: levamos connosco “o caminho andado”, as aprendizagens e os erros, os sucessos e as feridas, o entusiasmo e o cansaço.
Recorrendo ao pensamento de Paul Ricoeur, Luís Francisco Marques defende que recomeçar implica reler o caminho percorrido e decidir o que deve continuar, ser corrigido ou chegar ao fim. Ao mesmo tempo, evoca Hannah Arendt e a ideia de “natalidade” para sublinhar que cada novo aluno e cada novo ano letivo trazem consigo a possibilidade de iniciar algo inesperado.
O novo episódio aborda também a relação dos profissionais da educação com aquilo a que habitualmente se chama “o sistema”. Sem negar os problemas da burocracia, das decisões contraditórias ou da sucessão de reformas, o autor do podcast alerta para o risco de transformar o sistema numa entidade abstrata que acaba por justificar a inação: “Se tudo depende do sistema, então nada depende de nós.”
Em alternativa, propõe a ideia de um “metro quadrado” de responsabilidade: o espaço concreto onde cada pessoa pode agir — uma sala de aula, uma reunião, um corredor, uma conversa com um aluno ou uma decisão administrativa que pode ser tomada de forma mais humana.
A proposta não significa desistir da crítica. Pelo contrário, o autor recorre a Paulo Freire para defender que a denúncia deve ser acompanhada pelo anúncio: não basta identificar o que está errado, é preciso imaginar e experimentar alternativas. “Talvez precisemos recuperar o direito à experiência”, afirma, defendendo fazer em pequena escala, avaliar, corrigir e recomeçar.
Outro dos desafios lançados pelo podcast é a escolha de “uma grande causa” para o novo ano, suficientemente concreta para poder ser posta em prática. Pode passar por não deixar nenhum aluno passar despercebido, aproximar a escola da comunidade, cuidar das equipas ou mudar a forma de acolher quem chega à escola.
O episódio termina com uma pergunta dirigida a todos os que fazem parte da comunidade educativa: “Quando este ano terminar, haverá naquele metro quadrado de escola alguma coisa mais humana porque nós estivemos lá?”.
Este programa, que pretende ser um convite à reflexão num mundo cada vez mais polarizado e automático, está a ser transmitido às sextas-feiras na Rádio Regional do Centro, e é cedido pelo autor e pela RRC ao 7MARGENS.
A reflexão completa pode ser escutada a seguir.










