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do vídeo "Cântico das Criaturas", OFM.

Ano jubilar-800 anos da morte (7)

São Francisco de Assis e os animais

| 03/09/2026

 

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.

É costume, nas imagens e pagelas, vermos alguns santos associados a animais: O boi e a água dos Evangelistas Mateus e João, o leão de S. Marcos e de S. Jerónimo, a mula ou o porco de S. Antão, o lobo de S. Vito, o veado de S. Eustáquio, a ovelha de santa Genoveva, o cordeiro de santa Inês, o boi de S. Silvestre, os cavalos de S. Hipólito, a corça de S. Gil, a aranha de S. Norberto, o falcão de S. Quirino, o ganso de S. Martinho, o peixe de S. Ulrico, a lebre de S. Procópio, as abelhas de S. Ambrósio, o corvo de S. Bento; o Cão de S. Roque e de Domingos…

Em quase todos os casos esta associação é simbólica ou lendária. Não se passa o mesmo com a relação de S. Francisco com os animais. Em primeiro lugar porque ele não é “amigo de um animal”, mas de todos as criaturas, racionais e irracionais; em segundo lugar, porque, mais do que amigo, ele reconhece-se irmão de todos os animais.

O Espelho de Perfeição narra que, “todo absorvido no amor de Deus, o Bem-aventurado Francisco [de Assis] discernia perfeitamente a bondade do Senhor não só em sua própria alma mas em todas as criaturas do universo, por isso as amava com um afeto raro e profundo”.

Talvez não tenha havido nenhum santo que sentisse tão vivamente a poesia da natureza. Compôs o Cântico das Criaturas e quis que seus irmãos o cantassem por toda a parte.

Falava e pregava às avezinhas, como S. António pregava aos peixes. Mas só ele foi tão amável para as criaturas insensíveis. Considerava todos os seres como membros de uma só e mesma família. Estabeleceu uma fraternidade com o sol, a lua e as estrelas; chamava irmã à água e ao fogo irmão.

É reconhecia a relação privilegiada que o Santo de Assis manteve com os animais. Reconhecemos que não é, na tradição cristã, caso único nesta relação reconciliada entre o Homem e os animais (G. PENCO, L’amivicizia con gli animali, in Vita monástica 17 (1963) 3-10). A espiritualidade e ética cristãs há muito tinham constituído o chamado bestiarius, isto é, catálogo de animais, considerados como espelho de vícios e virtudes humanas, ou reveladores de caraterísticas profundas da alma humana. Todavia, a atitude de S. Francisco não se insere, propriamente, nesta tradição que vê nas criaturas apenas realidades simbólicas. A redescoberta que propõe das criaturas como “irmãs” faz dele um restaurador de uma nova ordem, essa ordem pacificada que precedeu o pecado de Adão. O Santo de Assis surge assim como “o homem novo” de que fala S. Paulo, o novo Adão que antecipa o anúncio apocalíptico: “eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Ele é o “irmão universal” que anuncia o mundo renovado, ainda antes do Apocalipse.

A dialética entre “cultura” e “natureza”, sobre a qual tanto insistiu a cultura ocidental (mormente a antropologia estrutural) (Franco Cardini, Nella presenza del Soldan superba. Saggi francescani, Spoleto 2009, 209-210), vê-se superada no trovador de Assis que em todas as criaturas conseguia ver e ouvir mensagens e melodias do Criador. Tal a cultura de uma grande santidade. O santo, que só pretende ser santo, é muita coisa mais. Ele é visionário, porque vê o que os outros não vêem. O sentido da vista é nele não apenas aumentado, mas refinado, de maneira que lê em todas as belezas naturais a rica parábola da Beleza Divina.

Para o Salmista a terra e o firmamento são obra das mãos de Deus (Sl 8). Para S. Agostinho a criação é uma “voz” e o ar, a terra e a água são “imagens” e “semelhanças” de Deus. Para o Poverello, em contrapartida, as criaturas são irmãs e companheiras no louvor do Criador. Amava-as e respeitava-as a todas com “coração de irmão”: «Com um verdadeiro coração de irmão, estendia a sua caridade aos próprios animais sem fala nem razão, répteis ou aves, e a todas as demais criaturas» (1Cel. 28,77).

Um dia, «passando por um rebanho de cabras e bodes, viu que entre as cabras e os bodes havia uma ovelhinha que pastava pacificamente sozinha. Francisco, ao vê-la estacou sobressaltado e ferido no mais vivo coração, deu um forte suspiro e disse ao irmão que o acompanhava: Vês ali aquela ovelhinha tao só e tão mansa?… Assim era nosso Senhor Jesus Cristo, manso e humilde. Por isso te rogo que, pagando por ela o que valer, a tiremos dali». Como nenhum deles tinha dinheiro ou valores, aceitaram que um mercador que por ali passava pagasse o resgate da ovelha que o Santo confiou, depois, ao cuidado das Irmãs Clarissas. Noutra ocasião, cruzando-se com um mercador que levava ao ombro dois cordeirinhos atados, para serem vendidos, «ao ouvi-los balir, comoveram-se-lhe as entranhas, e acariciando-os, tal como faz a mãe aos filhinhos que choram, perguntou ao homem: Porque fazes sofrer os meus irmãos cordeirinhos, assim pendurados e atados?» Tendo o mercador respondido que os ia vender, para, depois, serem mortos, Francisco interveio: «De modo algum! Fica com este manto e dá-me cá os cordeirinhos» (Ibid. 79). Num outro dia, passando próximo de Greccio, um irmão levou-lhe uma lebre apanhada num laço. Ao ver o pobre animal «o santo homem de Deus moveu-se de compaixão e disse-lhe: “irmã lebre, porque te deixaste apanhar? Vem cá!”. O animal, uma vez posto em liberdade, «correu a refugiar-se nos braços do santo. Tendo descansado nele um pouco, o santo acariciou-a com afeto materno e pô-la em liberdade para que voltasse ao bosque» (ibid. 59).

O Santo de Assis nutria o mesmo afeto por todos os animais, repetindo com muitos deles análogos gestos de afeto. Inclusive, «pelos peixes nutria idêntica afeição. Se lhe era possível, devolvia à água os peixes capturados e recomendava que não se deixassem apanhar de novo» (Ibid. 21,61).

Como se documenta nestes episódios, o Poverello é movido, em relação aos animais, por dois grandes motivos: A imitação da bondade e caridade do Criador e a imitação  de Cristo, o Redentor da humanidade e de toda a criação. O Pobre de Assis aparece, assim, como o cantor da bondade de Deus, mas também como o continuador da redenção operada por Cristo.

Sendo um Homem reconciliado com Deus e com o Mundo, sente-se e vive como alguém regressado ao paraíso, onde a graça e a liberdade voltam a encontrar-se.

Por isso, numa das raras ordens que Francisco dá aos seus irmãos, e logo na Regra que lhes serve de “forma de vida” prescreve o seguinte: “Ordeno a todos os meus irmãos que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma” (1R XVI,1).

Parece contraditório: o Santo que tanto gostava dos animais, proíbe os seus frades de ter consigo animais domesticados! Para ele os animais devem gozar da liberdade e condições de vida para que Deus os criou. A relação de Francisco com os seres irracionais não é, mais uma vez, de posse, de interesse ou utilitária. Os animais são tratados e respeitados como criaturas pelas e com as quais os humanos devem louvar o Criador.

Queria, por isso, que se publicasse uma lei que obrigasse, no dia do Natal do Salvador, os lavradores a dar uma ração especial os seus animais e a deixá-los descansar neste dia do Senhor. Como otimista que era, acreditava que se pudesse falar cinco minutos com o Sultão, seria capaz de acabar com as Cruzadas e tinha um projeto para favorecer todas as aves: o Imperador devia publicar uma lei que proibisse todas as armadilhas das cotovias e obrigasse os Governadores e as Corporações a espalhar pelos caminhos migalhas de pão, ao menos no dia de Natal. Naquele tempo isto devia parecer mera poesia, mas em nossos dias já se publicaram, felizmente, leis a proibir as armadilhas contra os animais e a ter em gaiolas certas aves e outros animais.

Cigarra

‘Um dia, em pleno verão, poisada numa figueira junto à sua cela, perto da Porciúncula, uma cigarra dava o seu monocórdico concerto. Não podia passar despercebida ao santo que, carinhosamente a chamou: “Minha irmã cigarra, vem cá!” E ela, obedecendo, imediatamente saltou para a sua mão.’ Foto Bruce Marlin | Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5,

Até para com a incómoda e ruidosa cigarra ele se mostrava gentil.  Um dia, em pleno verão, poisada numa figueira junto à sua cela, perto da Porciúncula, uma cigarra dava o seu monocórdico concerto. Não podia passar despercebida ao santo que, carinhosamente a chamou: “Minha irmã cigarra, vem cá!” E ela, obedecendo, imediatamente saltou para a sua mão. Francisco, então, pediu “bis”: “Canta, minha irmã cigarra, e com a tua alegria louva o Senhor Criador”. A cigarra, sem demora, começou a cantar, sem parar, por mais de uma hora. Findo o “concerto na palma da mão” Francisco colocou-a, de novo, no mesmo lugar.  Durante uma semana o espetáculo repetiu-se, com o mesmo guião, diariamente. Passados oito dias o Santo disse aos companheiros: “vamos deixar ir embora a irmã cigarra, para onde mais lhe agrade, porque já nos alegrou bastante”. O animalzinho levantou voo e nunca mais a viram por ali (Legenda Perusina, 84).

Um dia, desta vez durante o inverno, ao encontrar um abelha morta, foi com Frei Egídio pelas ruas de Assis a pedir mel para as irmãs abelhas que durante todo o verão tinham trabalhado para os homens que lhe extorquiram todo o mel, deixando-as agora morrer à fome.

Com o coração cheio de ternura para com as toutinegras mansas, o Irmão Francisco exorta o seu fiel companheiro a levantar-se da mesa para que ambos cantem louvores a Deus juntamente com o rouxinol: Eamus ergo et nos et laudemus Dominum cum eo. Nesta exortação está contida a aspiração profunda de desfrutar o jogo que está prestes a começar: “Levantemo-nos, pois, também nós” (Salimbene, Cronica, I, 264-266).

Ficou célebre o sermão de S. Francisco às aves, em que um «rebanho de aves das mais diversas espécies» se dispôs a escutar aquele «homem de grande sensibilidade e singular ternura pelas criaturas irracionais e inferiores» (1Cel. 21,58; Florinhas, XVI). E não foi a única vez que Francisco pregou para tão “indistinto” auditório. Pregou, em Alviano, às “irmãs andorinhas” que, antes, tinham perturbado a sua pregação ao povo deste lugar (Ibid. 59). Não menos célebre o episódio do logo de Gúbio “amansado” por S. Francisco, onde devemos ver sobretudo uma alegoria da paz que assenta na justiça e respeito pela condição de cada um.

Não deixa de surpreender o paradoxo: aquele que aconselhava os seus seguidores a “submeter-se e a obedecer não somente aos homens, mas também a todos os animais e feras» (Saudação às virtudes), é escutado e obedecido pelas mesmas criaturas, incluindo as irracionais. Estamos nos antípodas da “vontade de poder” e todas as formas de prepotência alimentadas por uma errada compreensão da “superioridade” do homem perante as demais criaturas.

s. Francisco insiste antes de tudo nos deveres indiretos que o homem tem para com os animais. Segundo ele, não temos direito de os privar da alegria de viver que lhes foi concedida por Deus. Uma vez, certo fidalgo, julgando que lhe dava prazer, trouxe um veado no seu carro e soltou os cães atrás dele na presença do santo. S. Francisco desgostoso fugiu para a outra parte da casa, enquanto o pobre animal perseguido pelos cães instintivamente procurou o lugar onde estava o seu benfeitor. Foi morto em seguida, mas quando a carne foi servida à mesa, o santo recusou-se a comer.

Amava os animais e estes retribuíam. Os biógrafos salientaram que os animais reconheciam a sua natureza terna e compassiva. Quando eram perseguidos acolhiam-se à sua proteção. Quando rezava, as aves aproximavam-se ou pousavam em suas mãos. Na tarde da sua morte um bando de cotovias poisou no telhado da Porciúncula para se despedir do homem que tanto fez por elas e muito mais teria feito se o imperador e os poderosos de ontem e de hoje sintonizassem com a sua mensagem e ação.

 

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