O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.
O Cântico das Criaturas, também chamado Louvores das Criaturas, ou, segundo outras fontes, Cântico do Irmão Sol [a partir de agora CC], composto em dialeto umbro, é a expressão cabal da experiência cósmica que, por sua vez, o levou a atingir as grandes profundidades do sagrado.
Este hino às criaturas é fruto de uma personalidade rica e festiva, singularmente comunicativa, que viveu intensamente a vida. Não estamos, contudo, apenas perante um místico, mas também diante de um criador de ambientes e correntes: “Trouxe ao universo uma nova primavera”, atestam os seus companheiros. Efetivamente, o CC espelha, em primeiro lugar, a paisagem interior do Poverello, mas reflete também o seu lado extrovertido capaz de comunicar-se discursivamente, poeticamente e musicalmente. O mundo interior de Francisco sintoniza com o mundo exterior, porque a sua própria estrutura psíquica e espiritual é dotada de uma especial intimidade e consanguinidade com as criaturas, numa síntese dificilmente superada entre a arqueologia interior e a ecologia exterior (A. Merino).
Expressão de uma existência preenchida e autêntica, poderemos ver nesse Cântico a partitura que cada ser humano é chamado a ensaiar em clave de sol, sob a batuta do Criador summum bonum (LD 3: Tu es bonum, ombe bonum, summum bonum). O homem sintoniza de novo com todas as criaturas na bondade que as torna “irmãs” e na fraternidade que as faz belas. Francisco ensina-nos que a própria interioridade (se quisermos, espiritualidade) requer a presença do mundo exterior, do mundo real, do “outro” como possibilidade de relação harmonizante. Como lembra Paul Ricoeur, eu autoexprimo-me ao expressar o mundo. É nesta harmonia entre a ecologia interior e exterior que se baseia a ecologia real que terá sempre de começar pela ecologia do espírito.










