Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o décimo quarto texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.

O traje não é fotografia que fica para a memória. É memória que fica em fotografia. Foto: DR
Quando vesti o traje pela primeira vez, não sabia que era o início de uma longa caminhada que falava de amor, tão pouco sabia que essas peças, um dia, haveriam de falar sobre mim, sobre as mãos de quem as teceu e bordou.
Não sabia que as pessoas não eram para sempre, de saudade não percebia nada.
O tempo passou e com ele essa criança de cinco anos cresceu.
Hoje, entende que o traje não fala apenas de brilho, de cores, de saias rodadas ou meias que amaciam os pés.
Sabe que ele é feito de festa e sorrisos e algumas vezes de silêncio.
Hoje sente o valor da entrega, sabe que não foram apenas agulhas a trabalhar o tecido, foram mãos, sacrifício, resiliência e dedicação. Foi arte sem palco em Paris.
Talvez a grande maioria tenha partido sem saber onde ficava Paris, talvez alguns nem o nome soubessem assinar. Mas todos souberam deixar em cada ponto grandes histórias de amor, em cada peça um poema… na algibeira um punhado de raízes.
Hoje, essa criança já entende de amor. Há quem lhe chame chieira. Já sabe que cada peça pode ter nome de gente e carregar saudade.
Hoje sabe que “Havemos de ir a Viana” é música que se ouve de dentro para fora.
O traje não é fotografia que fica para a memória. É memória que fica em fotografia.
Hoje, continua a apaixonar-se todos os dias pelo que é nosso.
Hoje pisa as ruas de Viana na Romaria e orgulhosamente sorri.
Celina da Chão Parente é natural da freguesia de Amonde, em Viana do Castelo. É autora do livro Ventos do Destino e tem marcado presença em diversas tertúlias poéticas, bem como em várias coletâneas, nomeadamente a coletânea de Autores e Escritores do Alto-Minho. Também autora de alguns poemas cantados em fado tradicional.










