Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o décimo primeiro texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
Eram os anos 60 do século passado. Num convento do séc. XVII que fora habitado por monges arrábidos (franciscanos) até 1833, funcionava um colégio interno para raparigas, orientado pelas Irmãs da Apresentação de Maria sob responsabilidade da Misericórdia de Lisboa.
Eramos cerca de 150 alunas entre os 10 e os 18 anos, levando o que penso ser a vida normal num colégio deste género, com aulas, trabalhos, recreios. Tinha, contudo, uma característica muito especial e marcante: a música.
Todos os dias havia ensaio de canto gregoriano, preparando a missa e as completas do domingo e festas solenes. E todas as semanas ensaios de música coral com peças tradicionais e clássicas que culminavam em concertos realizados geralmente no próprio colégio ou na Misericórdia de Lisboa. Tivessem uma voz melhor ou pior todas participavam.
Um dia acordámos com a notícia do sismo que na noite de 28 para 29 de fevereiro 1960 tinha atingido Agadir, em Marrocos, provocando a morte de cerca de 20.000 pessoas e a destruição praticamente total da cidade.

“Eramos cerca de 150 alunas entre os 10 e os 18 anos, levando o que penso ser a vida normal num colégio deste género, com aulas, trabalhos, recreios. Tinha, contudo, uma característica muito especial e marcante: a música.” Foto: DR
Da consternação sentida passou-se à procura de como ajudar e da reunião entre a Provedoria da Misericórdia de Lisboa, Irmãs da Apresentação de Maria, D. Olga Violante e o maestro Manuel Ivo Cruz, surgiu a ideia de realizar um concerto com o fim de angariar fundos para as vítimas da catástrofe. Foi escolhida a peça Stabat Mater, de Pergolesi, cuja intensidade e dramatismo se adequavam àquela situação trágica.
Os ensaios do coro aumentaram em número e intensidade, e durante um tempo foram diários e longos. Mas lembro que todas íamos com entusiasmo. O coro era ensaiado por Olga Violante, a que se juntava a orquestra dirigida por Manuel Ivo Cruz e apesar das longas horas ali passadas não surgiam queixas. Havia um espírito de colaboração e de bom-humor entre todos, e nós, meninas internas pouco habituadas a movimentações diferentes, gostávamos muito daquela novidade surgida na nossa vida e de ter pessoas de fora que nos apreciavam e acarinhavam. Além de ensaiarmos as partes atribuídas ao coro, íamos ouvindo as repetições das peças para solistas e de tanto as ouvir conhecíamos a obra inteira de cor.
Lembro que demos vários concertos, na capela do Colégio, na Igreja de São Roque e um transmitido em direto na RTP, tendo sido gravado um LP em 1965.
E é sempre com emoção que oiço os primeiros acordes daquela obra que conheço tão bem e que trago comigo.
Lucy Wainewright










