Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o nono texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
As férias trazem a bênção de juntar as gerações. Para as famílias que têm a sorte de ainda o conseguir, claro. Porque ter tempo e espaço para estar – simplesmente estar em família – já não é uma evidência. Estas reuniões intergeracionais oferecem-nos um fresco extraordinário das tendências, das linguagens e das formas de habitar o mundo, para lá das habituais adequações entre idades.
O mundo dos nossos filhos pouco tem a ver com aquele em que crescemos. Uma parte não pequena da geração nascida no início do milénio já estudou ou estuda fora do país, em contacto com os ritmos e tendências do centro e do norte da Europa, tão diferentes dos nossos e a uma velocidade que quase não permite maturação. Este é o tempo que lhes foi dado viver. E é, em muitos aspetos, mais complexo e difícil do que o nosso.
Percebe-se uma espécie de niilismo no mundo que os envolve. Uma geração a crescer com o ruído de guerras, crises sucessivas, ameaças múltiplas, precariedade, aceleração tecnológica e uma Europa onde não se descortinam promessas de futuro. Ao mesmo tempo, assiste à erosão das metacategorias que eram raiz do passado e, por isso, orientação para o futuro: a família, a comunidade, a pertença incondicional, o compromisso, Deus.

“Não se trata de romantizar o nosso tempo, nem de transformar o passado num lugar sem falhas. Trata-se de reconhecer o chão que recebemos. Os grupos de famílias onde se crescia entre várias gerações; os adultos que não eram todos intercambiáveis; os rituais; os domingos; as mesas demoradas; a aprendizagem quase corporal de que pertencíamos a alguma coisa anterior e maior do que nós.” Foto © Ty Downs | Unsplash.
Não se trata de romantizar o nosso tempo, nem de transformar o passado num lugar sem falhas. Trata-se de reconhecer o chão que recebemos. Os grupos de famílias onde se crescia entre várias gerações; os adultos que não eram todos intercambiáveis; os rituais; os domingos; as mesas demoradas; a aprendizagem quase corporal de que pertencíamos a alguma coisa anterior e maior do que nós. Onde, mesmo que não se pronunciasse, estava Deus. O olhar mais além, que impedia o presente de se fechar sobre si próprio.
Outro traço evidente desta geração é a experiência de isolamento, quase ontológico. A solidão do quarto onde tudo pode acontecer sem um olhar físico de tu a tu. Onde se pode comprar, estudar, sofrer e pedir conselho a uma entidade não pessoal, sem a presença, entretanto tornada perturbante, de um outro.
Surgiu o novo “melhor amigo” chamado inteligência artificial: sempre disponível, atento, paciente, concordante, sem necessidades próprias, sem cansaço, sem tiques e sem alteridade verdadeira. Que lugar fica para o outro real, aquele que contraria, desilude, exige, espera, perdoa e precisa de nós?
Este é o mundo que os nossos filhos receberam e é dentro dele que têm de construir uma vida, uma identidade, uma esperança.
Neste contexto, cada gesto antigo que reproduzimos vemo-lo como um pouco de chão: a memória de uma presença certa, de um cuidado seguro, permanente e incondicional; o perdão que não precisa de ser verbalizado; o acolhimento, os rituais, a liturgia – essa linguagem comum onde quer que nos encontremos. A experiência de um tempo maior do que o tempo.
Há tanta ausência de chão: de mesa, comunidade, pertença, transcendência, um lugar interior onde regressar. Sem chão, sem passado, sem referência de paz, que resistência poderá esta geração oferecer à solidão, ao individualismo e à exigência fátua de um mundo que lhes pede que se inventem inteiramente a si próprios?
Benditas férias que, mais do que argumentos, oferecem pequenas porções desse amor concreto onde Deus se pode encontrar. Um chão imperfeito, sempre aquém do amor que gostaríamos de dar. Mas mesmo essa imperfeição começamos a amá-la, como as gralhas nos textos, por ser prova autêntica do amor artesanal: aquele que dá tudo o que tem no concreto, ainda que esse tudo seja bem pouco. É, no entanto, o que basta para fazer um chão onde sempre se pode voltar.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.










