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Trago comigo (15)

As pretas: o caminho é meu, o caminho é delas!

| 10/09/2026

 

Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.

Publicamos a seguir o décimo quinto texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. 

Muvuca organizada e cada um para o seu lado. É o dia-a-dia da Rua das Pretas, na Freguesia de Santo António. Esta Rua cruza a Av. da Liberdade, em Lisboa. Palco de imensa diversidade cultural e étnica, atravessada por gentes de todas as terras, é cosmopolita.  Recorda, aos transeuntes, a alegria de viver a diversidade cultural harmónica que supostamente deveria existir em qualquer lugar do mundo. Mais do que isso, reza a história que ela, já no séc. XV foi povoada por mulheres negras que contribuíam para a economia de Portugal. Tratava-se de mulheres forras, livres da escravatura, que tendo alcançado a independência, tiveram possibilidade de terem bens próprios e de serem proprietárias de estabelecimentos que geravam renda. Eram donas de si.

Elas, as pretas, no quesito proprietárias, recordam-me as Donas da Zambézia, em Moçambique. Entretanto, as da Zambézia, nem todas eram forras. Havia as nativas desse lugar que, sendo filhas de nativos-donos de latifúndios, ascendiam a essa categoria. As outras, as goesas ou mestiças, filhas de portugueses e africanas, ganhavam o título de Donas, fruto de concessões de terras atribuídas, pelo governo colonial, a mulheres, nos prazos da coroa portuguesa, para que gerissem propriedades e exércitos, por três gerações. Tinham poder político. As Donas surgem por volta dos séc. XVII e controlavam o comércio local. Tinham escravos, a que se designava de achicunda. E, dado o contacto com os nativos, mais as suas diferentes culturas, goesa e portuguesa, o local no qual habitavam tornou-se uma sociedade multiétnica e multicultural.

Donas de si e das suas obras científicas são as mulheres pretas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Elas desejam acrescentar o número de cientistas e alcançar mais mulheres, para que todas elas (académicas ou não) se libertem do racismo estrutural e epistémico existente no Brasil. As Pretas académicas (com a colaboração das brancas que se solidarizam com a causa, porque conscientes da inferiorização racial) organizaram um seminário Internacional para debater e mostrar a produção científica de mulheres negras e pardas. Chamar a si esse nome não foi um acaso. Foi e tem sido necessidade de afirmação desse lugar de pertencimento étnico, com um tom de pele, em termos de cidadania, igual aos outros tantos no mundo, mas que, no Brasil, tem sido negado. Há racismo e não há dúvidas. As leis nr. 7.716/1989 e 14.532/2023 foram, cientemente, criadas para defender esse desiderato. Racismo é crime e, ainda assim, há quem passe por cima dessa concepção.

Quando comentei, em Moçambique sobre a minha participação nesse evento, muitas perguntas se levantaram: “tinham que colocar a cor das pessoas?”, Isso não será um encontro para exacerbar o racismo?” Eram, entre outras, questões compreensíveis, para pessoas residentes de um país de maioria negra e que, entretanto, vive e debate, de modo velado, o racismo e outras formas de silenciamento ou de apagamento de pessoas ou de História. Cultua-se a desmemória. É tabu falar-se nisso, embora, assumidamente, grande parte das pessoas negras se sinta inferior a minoria branca ou ainda, com o neocolonialismo subtil, os brancos actuem e se sintam mais humanos e sub-humanizam os negros. Isso não é motivo, nem para debate público, nem para activação do dispositivo criminalizante sobre o racismo (Artigo 191 do Código Penal). Existindo, somos a ele indiferentes. Vive-se, silenciosamente, a síndrome do colonizado, aceitando e memorizando a condição de sub-humanos. E, até quando se aceitará essa divergência social e outras?

Voltando à Pretas académicas ou retomando o assunto. Há uma preta que conheci, através da música: “sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu”, interpretada por vários artistas. É Yvone Lara ou Dona Ivone Lara (1921/2-2018), mulher de voz penetrante e inesquecível. “Rainha do Samba”, cantora, compositora e enfermeira. Não lhe conhecia a vocação e formação como assistente social, até dar com essa informação no meu percurso do dia-a-dia, a caminho do “Pretas Académicas”.

Nessa marcha regular, passava sempre em frente ao Banco Caixa Cultural, também em Curitiba. Constatei que havia uma exposição sobre Nise da Silveira (1905- 1999), intitulada “A Revolução pelo afecto”. Nise da Silveira, mulher branca (constatei), é assim descrita, nesse evento:

“Acho necessário chamá-la de doutora – este título por muito tempo negado às mulheres ou usado com deboche. Foi a primeira mulher a se formar na Faculdade de Medicina na Bahia, em 1926. A única mulher em uma classe com 157 homens – nem banheiro feminino tinha! Nise, dedicação por completo a um trabalho de toda a vida.”  [Amanda Rigamonti (2016)].

Exposição “A Revolução pelo afecto” sobre a vida de Nise da Silveira. Foto: DR

Não deixa de ser acutilante a designação, sobretudo, lembrando a seguinte frase, também, colocada numa das salas da exposição: “A revolução será feminista, ou não será”. Rosa Luxemburgo (1914). O evento mencionava Dona Ivone Lara como quem, junto com Nise da Silveira trabalhou em terapia ocupacional, para doentes de psiquiatria, recorrendo a métodos menos agressivos, através da arte do afecto. E veja que revolução, meu caro leitor: rara, minuciosa, pedagógica e humanizante. Mencionava-se na exposição que Nise recorreu a teorização de Carl Jung, para lidar com o inconsciente do homem, de modo diferente do comum. E foi feminista, essa revolução, a julgar pelas palavras de Nise, num dos quadros: “Não temos mesa, nem cadeira. Vamos trabalhar no chão.” …mulher pungente, pensei.

Reivindicar pertencimento étnico e manifestá-lo é buscar caminhos de reconhecimento de que o mundo é lugar para todos os humanos, sem necessidade de uns pedirem licença para viverem. Ivone Lara, a primeira mulher compositora na Escola Império Serrano e autora do grande hino de samba acima mencionado, a lembrar, “Sonho meu”. Ela popularizou a música “Se o caminho é meu”, composta por Paulinho Mocidade e Jurandir Bringela. A música, cuja letra segue abaixo, me sugere que, mais do que necessário, o caminho dos pretos, com o adjectivo em letras garrafais e a negrito, deve assim ser designado, sem causar espanto e sem camuflar a luta, porque a que já foi feita do lado contrário, teve por base uma adjectivação baseada na cor, esse mesmo adjectivo que se deseja ocultado.

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho for de pedras
Sou eu que vou tropeçar
Se o caminho for de agruras
Eu que vou me amargurar

Se o caminho for de espinhos
Sou eu quem vou me espetar
Se o caminho for de rosas
Eu que vou me perfumar/

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Já que o caminho é traçado
Realizado eu terei que seguir
Mesmo encontrando influências
Só ter paciência que eu vou conseguir

E nos meus sonhos da vida
Conservo a esperança de um dia sorrir
Sei que é meu caminho
Embora sozinho eu terei que seguir

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho for de pedras
Sou eu que vou tropeçar
Se o caminho for de agruras
Eu que vou me amargurar

Se o caminho for de espinhos
Sou eu quem vou me espetar
Se o caminho for de rosas
Eu que vou me perfumar

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu

Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu
Se o caminho é meu
Deixa eu caminhar, deixa eu.

Os negritos são da minha responsabilidade.

Que o caminho das pretas seja coberto de rosas e que as perfume. Que triunfe e ganhe a sua liberdade de direito, de cidadania e de humanidade. Falo em liberdades e não em liberdade.

 

Sara Jona Laisse, docente universitária, membro do Graal-Moçambique, integrado no Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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