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[Entre Margens]

Deus morreu em Auschwitz?

| 10/09/2026

 

Muitos filósofos e teólogos questionaram-se sobre a possibilidade de continuar a falar de Deus após a catástrofe do holocausto. A tragédia humana de tal genocídio foi tão avassaladora que se tornava intolerável pensar em Deus dentro dos parâmetros que as tradições religiosas e filosóficas nos legaram. O silêncio de Deus fora demasiado impressionante (e comprometedor) para passar despercebido sem beliscar a imagem que dele temos. Tal silêncio inexplicável tinha de provocar um profundo incómodo em qualquer ser humano que se dissesse religioso. Se em muitos de nós, seres humanos imperfeitos e, por vezes, cruéis, uma tal catástrofe humanitária convoca a nossa consciência para uma intervenção humanizadora, o que dizer da perfeição ontológica e moral de Deus? Como pode Deus ter-se calado face a um flagelo de tamanha proporção? Poderia Deus ter agido de modo a pôr cobro à barbárie? Mas se não pode agir, como pode ainda ser o Deus omnipotente a que a tradição se refere? E se pode agir, porque o não fez?

O campo de extermínio de Auschwitz, numa imagem do filme Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais.

“Este mal-estar que se instalou na consciência do crente tem manifestações antigas, porque a injustiça e a maldade humanas não começaram nem terminaram no holocausto nazi.” Foto: O campo de extermínio de Auschwitz, numa imagem do filme Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais.

Este mal-estar que se instalou na consciência do crente tem manifestações antigas, porque a injustiça e a maldade humanas não começaram nem terminaram no holocausto nazi. Antes e depois de Auschwitz, vários genocídios ocorreram e a atual e inexplicável matança e expulsão do povo palestiniano relembra-nos que o ser humano pouco aprendeu com o passado.

Já no livro de Job, na Bíblia hebraica, o protagonista acusava Deus de inação perante a injustiça da sua situação existencial. A Bíblia também conhece a perplexidade humana e até mesmo a sua revolta face a um Deus silencioso que não reage à injustiça e à crueldade, nem repõe a ordem moral onde ela foi expressamente negada.

Para muitos, tornou-se, portanto, impossível afirmar Deus depois de uma barbárie tão devastadora. Só o ateísmo seria aceitável num tal contexto. Para outros, era suficiente a solução do livro de Job, segundo a qual os desígnios de Deus são insondáveis e ao ser humano não é dado conhecer os seus propósitos e os motivos da sua ação ou inação. Só o silêncio humilde do ser humano crente pode ser resposta razoável ao silêncio perturbador de Deus. Numa tal mundivisão, fica, no entanto, a pertinente pergunta: se a inefabilidade de Deus nos obriga ao silêncio humilde perante a sua inação face à barbárie, porque não nos obriga também a calar qualquer discurso que tente clarificar o seu perfil e definir a sua essência?

Etty Hillesum: “(…) a mística holandesa de origem judaica, dá ainda um passo em frente. Em vez de reconhecer apenas a nossa ignorância face à natureza de Deus, transforma significativamente o conceito de Deus, despindo-o dos seus tradicionais atributos.” Foto: Direitos reservados

Etty Hillesum (1914-1943), a mística holandesa de origem judaica, dá ainda um passo em frente. Em vez de reconhecer apenas a nossa ignorância face à natureza de Deus, transforma significativamente o conceito de Deus, despindo-o dos seus tradicionais atributos. A tradição legou-nos a ideia de um ser transcendente que distribui prémios e castigos ou impede o mal no mundo, mas Etty reconhece ser impossível trilhar esse caminho no meio de uma barbárie de tão grandes dimensões. Porém, em vez de o negar, reconhece a sua existência humilde e impotente na intimidade do coração humano. Deus não põe e dispõe do mundo de acordo com o seu arbítrio, mas precisa do ser humano para sobreviver. Trata-se de um Deus indefeso, sujeito a todo o tipo de agressões, porque qualquer agressão ao ser humano é, sobretudo, uma intolerável agressão a Deus. É por isso que a pergunta certa não é sobre a inação de Deus e a permissão da barbárie. A pergunta certa é sobre como poderemos nós ajudar Deus na tarefa quotidiana de humanização, sabendo que toda a ação ultrajante dirigida ao ser humano é uma ação ultrajante dirigida ao Deus que faz do coração humano a sua morada permanente.

Se, como Etty pressupõe, é na ação humana que a história se cumpre e tudo se decide, porquê, então, manter Deus na equação? Porque não eliminar Deus como um conceito obsoleto sem qualquer sentido prático ou vantagem para o mundo?

William Blake, Deus, Job, arte, pintura

“O Deus escondido na interioridade humana eleva o ser humano à condição divina, tornando gravíssimo qualquer ato que ponha em causa a vida ou o bem-estar de cada pessoa.” Pintura de William Blake, Deus responde a Job. National Gallery of Art, Washington DC (EUA).

Julgo que a resposta se encontra nas consequências para o ser humano que tal supressão teria. O Deus escondido na interioridade humana eleva o ser humano à condição divina, tornando gravíssimo qualquer ato que ponha em causa a vida ou o bem-estar de cada pessoa. O ser humano não é descartável como um animal de abate ou uma árvore. Vive dotado de uma dignidade absoluta e inviolável que não deriva da sua condição “natural”, mas da sua condição de templo onde Deus subsiste.

Estamos, portanto, nos antípodas da visão tradicional de um Deus que habita fora do mundo, cuja vontade se expressa nos acontecimentos da história. Um Deus-Providência que tudo vê, tudo determina e tudo orienta. Um Deus, portanto, que não pode ser apenas responsável pelas mais graciosas dádivas, mas também pelas mais terríveis vicissitudes. Um Deus intolerável face à barbárie e à injustiça.

Talvez possamos afirmar que Deus manifestou a sua grandeza e a sua omnipotência no ato primordial da criação, no qual constituiu o universo e as leis que lhe subjazem. Mas o ato criador de Deus foi, ao mesmo tempo, um processo de autolimitação do seu poder, de esvaziamento e despojamento voluntário. Ou, se preferimos, um processo que pressupõe a morte de Deus enquanto absoluto. Este Deus que tudo decide e tudo realiza torna-se, por vontade própria, o deus presente no mundo enquanto alteridade. Indefeso e silencioso, habita sobretudo o coração humano e dele espera renascer em cada momento da história através do amor e da solidariedade fraterna. Ajudar Deus a renascer do seu próprio autoaniquilamento na criação do mundo é o propósito de todo o crente. E a única forma de o fazer é tornar Deus visível no mundo, por meio do amor e da ação libertadora em relação a todas as vítimas com as quais Deus se identifica e nas quais habita. Assim, a existência de Deus não limita a liberdade humana, torna-a concreta e responsável pelo cuidado dos outros e pelo cuidado do próprio Deus. A iluminação de um mundo coberto de trevas, ou seja, a divinização do mundo, é o desígnio de cada crente e a responsabilidade de todo o ser humano.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

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