Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o décimo texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
O verão faz-se de cinema, com a areia da praia a pousar no ecrã, e Eric Rohmer a filmar a estação de todos os sentidos. Conto de Verão (1997), um dos quatro filmes das estações, mostra-nos Rohmer a deixar-se levar pelas ruas de Dinard, uma praia da Bretanha, atrás do tímido Gaspard que, enquanto espera a chegada da namorada, Léna, conhece Margot, estudante que trabalha como empregada de mesa para ganhar algum dinheiro, e também Solène, uma morena que o seduz. E o verão torna-se um jogo de palavras e de uma grande confusão na cabeça de Gaspard, para delícia do espectador.
O verão faz-se da descoberta do corpo, da sexualidade, como em Y tu mamá también (E a tua mãe também, 2001) que nos leva estrada fora num México de paisagens rurais e convulsões políticas, com dois jovens a desafiarem uma mulher para uns dias na praia isolada. Essa viagem torna-se num retrato da juventude, tempo de aprendizagem, paixões, invejas e afetos, mas também muitos incómodos no discreto relato sobre as tensões sociais, económicas e classistas tecido por Alfonso Cuarón. E aquela viagem ganha cicatrizes na vida dos três protagonistas.
E o verão mostra-se companheiro, amigo e sincero, quando quatro amigos de 12 anos partem há descoberta do corpo de um rapaz, vivendo toda a espécie de aventuras enquanto se entranham pela floresta, os barulhos que as árvores escondem, o comboio que se os apanha na linha, os medos e as fanfarronices que só os adolescentes sabem contar. Conta Comigo (1986), de Rob Reiner, é senha e contrassenha para memórias de muitas aventuras nesses tempos.
Rohmer confessou que Conto de Verão de todos os filmes que fez, era o mais pessoal. “Tudo o que está no filme é verdade. Ou são coisas que vivi na minha juventude ou coisas que observei. Eu carrego comigo a história desse filme, que foi em parte inspirada por eventos que ocorreram durante a minha adolescência, por um longo tempo”, explicou-se. E os filmes que trazemos connosco são a exata medida de memórias e afetos que construímos em torno daquelas imagens e palavras.










