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SERGIO GODINHO - MARTINS JUNIOR - TROVANTE - RIBEIRA SECA - MACHICO - 1978
Sérgio Godinho com o padre Martins Júnior e os Trovante, na Ribeira Seca (Machico), em 1978. Foto: DR

Cantautor faz 81 anos

Sérgio Godinho tocou-nos no ombro e a marca ficou lá

| 30/08/2026

 

São raros aqueles que sabem traduzir em palavras e de forma tão sublime os vários estágios da vida pelos quais invariavelmente todos passamos. O Sérgio Godinho é para mim essa inexplicável exceção, a quem a palavra é profundamente fiel às regras do jogo da existência, encontrando em cada compasso musical o ritmo que se faz sopro, dando-lhe assim o sentido necessário para chegar até nós. Da nostalgia do Primeiro Dia à alegria dos bons momentos da vida de Com um Brilhozinho nos Olhos, da dureza dos dias da Balada da Rita à autenticidade humana que é traço comum de Grão da Mesma Mó à qual temos de dar sentido, da empatia que se deseja em Dancemos no Mundo perante regras e preconceitos que dividem a Humanidade ou ainda às crises, contradições e mudanças de Às Vezes o Amor, são tantas as letras e as músicas que nos unem neste traço comum que é a vida. Muda, talvez, o significado que lhes atribuímos mas, aqui ou ali, há semelhanças comuns que todos detetamos. É quase como quando vamos na estrada em caminho e reconhecemos um sítio pelo qual já passámos e partilhamos o que nele sentimos ou vivemos com a pessoa que vai ao lado. E, inexplicavelmente, a pessoa ao lado também o [re]conhece e partilha uma outra história, uma vivência, uma curiosidade que tem sempre algo em comum além desse mesmo espaço, apesar do seu próprio tempo.

Conhecido por ser O Homem dos Sete Instrumentos, Sérgio Godinho desde cedo fez da versatilidade um eixo importante da criação, mas com duas particularidades importantes. A primeira, a de que sempre fez questão de não entender a sua obra como um exclusivo seu. Talvez por isso goste de se ver reinterpretado na voz de outros artistas e os olhe com o mesmo orgulho com que um pai olha um filho que vê crescer. Lembro, nisto, o seu “brilhozinho nos olhos” ao ouvir a participação d’A Garota Não nos concertos Liberdade25 que deu nos coliseus do Porto e Lisboa, em 2024, por ocasião da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril. Não apenas pela homenagem que a cantora lhe prestou, com a música Diga 33, que compila 33 títulos de músicas do Sérgio Godinho, numa letra completa e cheia de sentido sobre a sua grandiosa obra.

Mas, sobretudo, pela forma como a artista e depois, também, os Canto Nono deram voz às famosas Etelvina e Liberdade. Imagino que isso o comova e o faça sentir que tudo valeu a pena! Se valeu, querido Sérgio! A obra que vai além do criador não se pode fechar numa redoma. É uma dádiva à Humanidade! E talvez por isso tenhas sido sempre tão lúcido quando, em algumas entrevistas, fizeste questão de afirmar que o sentido das tuas músicas está também no facto de haver quem as interprete, dando-lhes a sua própria marca. Queremos mais belo exemplo disto que a reinterpretação da música Que Força é Essa, Amigo?, na voz de Capicua, com uma nova letra que em tudo nos fala da mesma resistência, mas a enquadra no papel da mulher, transformando a original na nova Que Força é Essa, Amiga? É a obra a caminhar e a ganhar vida para novas formas de ver o Mundo e de nos revermos no outro…

A segunda particularidade reside no facto de Sérgio Godinho ser inquieto por natureza. Não conseguir não criar é um belo motor de arranque para novas e tão diversificadas obras, que vão da música, à escrita e à representação. Mas, vale a pena dizer isto, é uma criação que parte sempre da mesma sã e nobre consciência de não se mover pelo elitismo intelectual, o que torna tudo nele sempre muito mais genuíno e raro.

Sérgio Godinho

Concerto de Sérgio Godinho em 2025, na Feira do Livro do Porto, frente ao Pavilhão Rosa Mota: “Claro que voltamos, Sérgio! E voltaremos!”. Foto © Filipe Moisés

E desenganem‑se os que acham que são músicas para outros tempos. O Sérgio continua a inspirar gerações. É difícil descrever o que se sente nos seus concertos, mas testemunhei essa transversalidade em todos aqueles em que estive: miúdos e graúdos, jovens e adultos mais velhos, todos olham, aplaudem e cantam em uníssono. Todos se surpreendem com a energia dos concertos e a brilhante interação com os Assessores, que une numa só alma a multidão dos que assistem. Em 2023, no Fórum Cultural de Ermesinde, foi fenomenal ver toda a plateia levantar‑se para cantar e bater palmas na famosa Liberdade. Em 2024, no Coliseu do Porto, foi brutal a participação do público, que terminou a gritar em uníssono a frase de ordem: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”. O ano passado, na Feira do Livro do Porto que o homenageou, a praça em frente ao Pavilhão Rosa Mota encheu‑se de gente de todas as idades para lhe dizer, nessa mesma presença, que o Sérgio e a sua obra são indissociáveis das nossas vidas.

Em fevereiro, num registo diferente, cantou‑nos as canções de amor e inspirou o Coliseu inteiro, a quem agradeceu com um “ainda bem que voltaste”, apontando a cada um de nós, no fim da música A Noite Passada. Claro que voltamos, Sérgio! E voltaremos! Viste agora, mais recentemente, no Vodafone Paredes de Coura toda aquela gente? E foram tantas as reações positivas. Só tenho pena de lá não ter estado. As fotos, essas, mostravam um Sérgio de coração cheio, com o tal “brilhozinho nos olhos”, perante uma encosta repleta de vidas e vivências, prontas a ouvir e para com ele cantar, naquilo que, acredito, tenha sido um concertaço.

Nesta segunda-feira, 31 de agosto, o Sérgio completa 81 anos. Que vida enorme e cheia! Talvez para muitos represente o inverno da vida, mas, para o Sérgio, continua a ser a primavera criadora, tal como uma Páscoa de renovação. Escrevo este texto para lhe agradecer cada letra, cada poema, cada canção, que tanto me acompanharam desde os tempos em que ainda ouvíamos o Sérgio a passar na rádio (era eu um miúdo) até aos dias de hoje. Há uns meses escrevi um poema, por ocasião da Páscoa. Queria falar da vida, da renovação e dessa possibilidade de recriar tudo “Enquanto o tempo é tempo”. É por isto e pelo que nisto se espelha na tua obra que me lembrei de o dedicar a ti, Sérgio. E que continues a criar, a fazer pensar sobre a vida, a fazer rir, a deixar-nos o “brilhozinho nos olhos” como herança e a unir as nossas vidas em rascunho, “curvas livres traçadas a lápis na folha do tempo”.

Obrigado, Sérgio! Promete-nos mais 81!

 

Enquanto o tempo é tempo

A Vida é um rascunho
em forma de curva livre,
traçada a lápis
na frágil folha do tempo.
Apaga‑se, refaz‑se,
interrompe‑se
quando a ponta cede.
Retoma.
Torna‑se pesada
se o lápis perde o fio.
Retoma, leve,
e segue caminho.
Fica indistinta
quando se deixa envolver
na escuridão dos túmulos,
onde o tempo pára.
Mas no romper das auroras
em que a luz emerge
volta sempre,
Renascida,
Livre,
Enquanto o tempo é tempo.

 

Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).

 

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