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Jorge Palma, Música
Jorge Palma. Foto: Direitos reservados, reproduzida da página da editora Bairro da Música.

Evocação

Jorge Palma (1950-2026): Encosta-te a mim

| 23/09/2026

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
Encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
Encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
Não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar

(…)
Recebe-me bem, não desencantes os meus passos
(…)

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
O que não vivi hei de inventar contigo
(…)
Mas quero-te bem, encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Quero-te bem
Encosta-te a mim.

 

Jorge:

Tão cedo partes (76 anos, apenas um ano menos do que eu, mas parece tão cedo), praticamente dois meses depois do amigo Luís Represas. Escrevo-te esta carta que já não irás ler (ou irás?). Sem evidentemente tomares consciência disso foste meu amigo, meu irmão. Fui crescendo contigo ao longo dos anos. Sim, temos sido companheiros de uma estrada longa e larga. Podias ter sido o meu irmão ligeiramente mais novo. Eras mais corajoso do que eu, saíste, “despiste-te” do jovem antigo que levavas em ti quando partiste radicalmente para longe recusando a Guerra Colonial.  Nunca voltaste a ser o mesmo. Eu parti também, talvez um pouco mais tarde, mas ainda durante a ditadura, fui sozinha para Espanha: apesar de tudo respirava-se melhor do que no nosso país cinzentão e triste.

Muito se está a dizer e a escrever sobre ti, sobre ti como artista único, como cidadão e homem de letras e músicas comprometido, radical mesmo, sobre família que soubeste construir. Tantos mais estarão a sublinhar esta irmandade contigo.

Escuso-me a tanto pormenor.

Eu tenho um certo gozo em ver-te contente
já sei que o meu sentimento é banal
mas nem por isso o que eu te digo
a meu ver é menos importante

(in Boletim Meteorológico)

Quero falar da tua coragem em ires para além das dependências e hoje partires livre, solto, realizado, feliz tanto quanto possível. Respirando bondade, simples – “humilde, generoso e eternamente rebelde” (Rita Carmo), amigo do seu amigo, doce, doce… ajudaste tantos artistas mais jovens a singrar… com esperança, apesar de tanto mal à nossa volta. Quero dizer quanto me vais fazer falta com a tua música e poesia… o exemplo da tua insistência em continuares militante do belo, do bom, do justo, do transcendente. “No entanto nunca fui panfletário”, afirmas numa entrevista. “Um maluco adorável”, diz Rui Veloso. Um irreverente. Outro amigo chama-te “o bardo imperdível”. Amante da vida.

Se for preciso um paraquedas arranjam-se
uns milagres em bom estado prontos a usar
se achares que não valeu a pena, aí lamento
mas não posso mesmo concordar

(in Boletim Meteorológico)

 

Desde muito criança foste exposto à música, nomeadamente piano. Claro que passaste pelo “velho” Liceu Camões como tantos outros que desde cedo aprenderam a fazer a diferença. Foste da geração do rock norte americano de Bob Dylan e Lou Reed. Do piano passaste à guitarra. Fizeste parte de diferentes grupos de rock, incluindo os Sindicato na Escola Politécnica. Ainda nos tempos da ditadura, sim, estiveste no 1º Festival de Vilar de Mouros, eu andava por lá sentada ou estendida nos relvados a ouvir pela primeira vez o Elton John. Foi o teu mestre Ary dos Santos que te iniciou à escrita poética e que te abriu também à inquietação política. Recusaste-te ir à Guerra Colonial afirmando “Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou” (entrevista RTP Palco) e fugiste para outro país europeu, a Dinamarca. Viajaste antes e depois do exílio por muitos países – nisto somos semelhantes, inquietos.

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil

(in Frágil)

Corajoso e frágil, simultaneamente. Forte e vulnerável, de uma especial sensibilidade reconhecida por todos. Para ganhar a vida cantaste nas ruas, nos transportes públicos, lavaste pratos, esfregaste escadas. Depois de entrarmos em democracia, regressaste. Novamente te meteste à vida: foste orquestrador, instrumentista, letrista e, claro, cantautor. Concorreste a dois Festivais RTP da Canção com músicas ou arranjos musicais teus. Ousaste o teu primeiro disco com músicas compostas durante o exílio. Foste “crescendo” em outros discos, grupos rock, punk e, finalmente a solo. Já bem internacional “internacionalizaste-te” como músico profissional. Tinhas a tarimba porque eras um caminhante.

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

(in Na Terra dos Sonhos)

Começam os prémios como o Sete de Ouro, o Nova Gente e Disco de Platina (chegando à Tripla Platina), Globos de Ouro, o Prémio José Afonso e o Prémio Pedro Osório, entre outros. A Aula Magna da Universidade de Lisboa, o São Luís, os Coliseus de Lisboa e Porto, o Casino Estoril, o Campo Pequeno, acolheram-te em concertos. Foste condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, ó grande Navegador! Recebeste o Prémio de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa.

Produziste treze discos de originais. Numa entrevista à Lusa, em 2022, explicavas que “as pessoas com quem [me] relacionava, os lugares onde vivia, o quotidiano, aquilo que ouvia e o que lia acabavam por deixar marcas diferentes em cada disco”.

Vou andando por aí
Sobrevivendo à bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim à engrenagem
E ando muito deprimido
É difícil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja

(in À Espera do Fim)

 

No entanto eras . Apesar de o sistema “[te] consumir e aleijar” (eras um outcast), um concerto assinalou os teus 70 anos no Coliseu dos Recreios, com participações de nomes como Paulo Gonzo, Camané, Ana Moura, Pedro Abrunhosa, Sérgio Godinho ou Diogo Piçarra. Foste demonstrando também a diversidade dos teus modos de conceber e executar música, apesar do teu começo artístico ter sido como executante de música clássica.

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém
(…)

No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há hotéis nem hospitais
No bairro do amor cada um tem de tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

É, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu me compreendes bem

(in No Bairro do Amor)

Em 2023, venceste a terceira edição do prémio Língua Mãe e ainda nesse ano o Prémio Carreira da Música Portuguesa. Finalmente o espetáculo Três Palmas na Mão de 2024 reuniu-te aos dois filhos, Vicente e Francisco. Amigo Jorge, eras frondosa árvore musical, poeta e floresceste também em filhos artistas e músicos que te continuarão, a seu jeito, como será de esperar:

Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender

(…)
Há quem viva escondido a vida inteira
(…)

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
(…)
Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira

(in Deixa-me Rir)

 

Como uma viagem na palma da mão foi o título do teu primeiro disco a solo. Viagem, ó caminhante, meu irmão! Interessante verificar no teu percurso que, se foste um artista solo de exceção, não deixaste nunca de, paralelamente, funcionar em grupos e bandas, fazendo arranjos ou orquestrações de músicas de outros ou para outros, cantando mesmo a poesia de outros: ousaria dizer que foste um artista comunitário… ou, melhor, um artista que soube construir comunidade, coisa não assim tão comum para um artista. Perdoa a ousadia: foste um artista de ego partilhado. Por isso eras para mim, sim, um exemplo de ego partilhado. Nisto foste bem especial e único. Diziam os teus amigos: “um espírito único que não encaixava em nenhuma prateleira”.

Olá
Sempre apanhaste o tal comboio
Eu já perdi dois ou três
Entre o ócio e as esquinas
Ganhei o vicio da estrada
Nesta outra encruzilhada
Talvez agora a coisa dê
O passado foi á história
Cá estamos nós outra vez 

(in Olá cá estamos nós outra vez)

No entanto na tua “sua prateleira” soubeste encaixar as mulheres e o respeito que te mereceram. As mulheres ajudaram no teu “desmame”, enquanto elas próprias aprendiam a ser livres. Sempre a tentar, não desistindo. Até se desenharem na cara “sulcos secos” Uma delas foi praticamente companheira de toda a vida. A ela(s), mulher(es) gloriosa(s), deves também quem foste:

Disse fêmea
Mulher feita
Faz-te fêmea
Ama-te a ti mesma
O mundo espera
Cheio de tudo
Come-o, feliz, sã, gloriosa, cheia
Diz-te fêmea
Mulher feita

(…)
Mal eu sabia
Que a vida rouba os sonhos
Mal eu sabia
Que o mundo nos desmama
De paixões surdas,
Cava na cara
Sulcos secos,
Sulcos secos.

(in Disse Fêmea)

 

Foste ainda fiel aos princípios da frugalidade, do decrescimento, de um estilo de vida mais simples, de não acumular. Foste literalmente um sobrevivente quando recusaste ir para a Guerra Colonial e viveste em países “estranhos”, tocando e cantando nas ruas… frugal à força, mas sempre desprendido de sucessos vácuos e inúteis. Em tudo isto quiseste ser frugal.

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

(in A Gente Vai Continuar)

Caro Jorge Palma: A vida que tanto amavas completou-se cedo. Em tempos tão conturbados vais fazer-nos falta. Deixas o teu lugar vazio… por muito que agradeçamos à vida o teu legado. Depois de saltar para o primeiro comboio enganando o tempo, continuaste a apanhar tantos comboios procurando um tempo mais justo porque o belo e o bom estiveram e estão sempre em ti. Trocaste as voltas aos deuses?

Vamos enganar o tempo
Saltar para o primeiro comboio
Que arrancar da mais próxima estação
Para quê fazer projectos
Quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que por milagre
Troquemos as voltas aos deuses

(in Passeio dos Prodígios)

Afirmaste: “Falo com a vida como se estivesse a falar com uma pessoa, com um anjo ou com Deus” (entrevista ao Público/Ípsilon). Que Deus? Que inquietação? Pessoas com asas de anjo? Que esperança? Estamos mesmo “no fim do verão?” Que nos trarão o outono e o inverno?

No bairro do amor
Há quem pergunte a sorrir.
Será que ainda estamos
No fim do verão?

(in No Bairro do Amor)

 

Amigo, não poucas vezes me pergunto: que estou eu ainda a fazer aqui? Tantos dos “meus” que se estão a ir… tantos lugares vazios. Tantos sonhos sucessivamente adiados. Tu respondes-me: “a gente não vai parar/a gente vai continuar”:

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.

(in A Gente Vai Continuar)

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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