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Rui Veloso em concerto na Amadora, 11 setembro 2026. Foto Júlia Costa. Foto
Rui Veloso em concerto na Amadora, a 11 de setembro deste ano. Foto © Júlia Costa

[Lugar (in)comum]

“Estás tão bem para a idade!”

| 23/09/2026

“Estás tão bem para a idade”! A expressão surge com a evolução social e cultural ao longo do século XX. O valor humano ligado às fábricas, à produtividade na Revolução Industrial, assim como o nascimento da publicidade moderna, transformaram a preservação da aparência em dever social. A este propósito, no final dos anos 60, o gerontólogo Robert Butler utiliza o termo ageism (idadismo), que vem identificar este tipo de frases “simpáticas” como um sintoma verbal de rejeição da própria mortalidade.

Atualmente, e apesar de a esperança média de vida ter aumentado, a linguagem não acompanha a biologia. Há poucos feitos tão heroicos como o de continuar a respirar após os cinquenta anos sem ter a falta de educação de parecer um fóssil. Se por acaso conseguiu a proeza de chegar a “uma certa idade” com postura ereta e a audácia de não vestir um pijama de flanela às quatro da tarde, já deve ter sido brindado com este galardão da diplomacia social:

Eh pá…estás tão bem para a tua idade!

A intenção é nobre, o interlocutor sorri e dá uma palmadinha afável no ombro, esperando que a frase seja recebida como medalha de honra. Mas a gramática é traiçoeira e aquela preposição – para – estraga a festa toda, pois afinal o que lhe querem dizer, com tanto carinho, é simples: – Pelas minhas contas, deverias estar miserável, mas até disfarças bem a tua ruína biológica!

Não se elogia a vitalidade: elogia-se a capacidade de enganar o calendário, ou seja, a sociedade contemporânea tolera a velhice, desde que ela venha mascarada de juventude. Aceita a data de nascimento no cartão de cidadão, desde que o corpo continue em excelente performance e não aborreça com a inconveniência da fragilidade.

Se este policiamento estético-biológico já é sufocante na vida privada, em público passa a ser cruel. E nada ilustra melhor a incapacidade coletiva de lidar com o tempo a passar do que a forma como tratamos os nossos ídolos, aqueles que ousam envelhecer. Foi o que verifiquei há uns dias, num concerto que Rui Veloso deu na Amadora. O que esperava vir a ser o privilégio simples de ver aquele que é, para mim, uma lenda viva, transformou-se num exercício miserável de escrutínio: “Já não canta nada!”; “Ele não estará bêbado?”; “Nem se percebe nada, mas que melodia é esta?”; “Fôlego para cantar não tem, mas harmónica toca!”, fui ouvindo na plateia.

Inconformados, queriam o Rui Veloso de 1980, com a mesma voz que soava na fita da cassete que ouviam na adolescência. E quando lhes foi entregue o homem real que ali estava, preferiram acusá-lo de decadência a admitir que o tempo passou, para todos.

Exige-se que os heróis fiquem congelados no auge dos seus vinte anos para que façam esquecer a própria finitude. Não se perdoa a vulnerabilidade. Não se aceita que um músico com décadas de estrada adapte o seu repertório para poder continuar a partilhá-lo.

Mas, ao recusar a fragilidade nos outros, está a construir-se a prisão onde se vai viver amanhã. O envelhecimento passou a ser um exame contínuo, em que a nota de passagem é parecer ter, no mínimo, menos dez anos. E quem falha o teste – quem ganha rugas, assume os cabelos brancos, ajusta o tom da voz ou desacelera o ritmo – é visto como desleixado, como se envelhecer não fosse a consequência lógica de estar vivo.

Pois bem, a solução é simples: da próxima vez que forem a um concerto de algum artista com carreira longa, e já mais velho, exijam-lhe que peça desculpa por não ter morrido jovem, porque envelhecer é uma enorme falta de consideração.

 

Post Scriptum

O público foi muitas vezes implacável com ele, focando-se no desgaste físico, na voz mais rasgada e nas fragilidades que expunha em palco. Mas, hoje, os cínicos já o perdoaram: o artista cometeu a “cortesia” de morrer.

Refiro-me a Jorge Palma, que – entre outras coisas – nos ensinou que a beleza do tempo também se revela na pele e na voz. A sua arte, a música, não precisa de juventude para nos comover. Cada ruga, cada pausa ao piano e a rouquidão acrescida nos seus últimos concertos não eram falhas no espetáculo: eram a prova de uma vida inteiramente gasta a fazer canções. Celebrar o Jorge Palma é agradecer ao homem que teve a generosidade de envelhecer connosco, sem artifícios nem máscaras, até ao último compasso.

Jorge Palma, Concerto no Castelo de Aljezur 28 Agosto 2024 Foto Júlia Costa

Jorge Palma em concerto no Castelo de Aljezur, a 28 de agosto de 2024. Foto © Júlia Costa

 

Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.

Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.

Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra. 

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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