“Há sempre alguém pior do que tu.” Não é possível determinar a origem exata da expressão. À semelhança de muitos dos provérbios e lugares-comuns da nossa cultura popular, chega-nos através da tradição oral, por ser frequentemente transmitida no contexto familiar e social, como uma determinada perspetiva moral da vida. A ideia que encerra aproxima-se de algumas correntes filosóficas antigas, como o estoicismo, que valorizava a capacidade de relativizar as adversidades e de aceitar aquilo que não é possível controlar.
Há poucas frases tão populares e, ao mesmo tempo, tão pouco escrutinadas como esta. Surge em conversas de café, em reuniões de família, nas redes sociais e até em contextos profissionais. Alguém fala das suas dificuldades e ela lá aparece, qual “paracetamol”, pronta a ser utilizada para amenizar todas as dores. E, uma vez mais, o problema não está na boa intenção com que se a utiliza, mas na forma mecânica como é usada, transformada numa resposta automática para quase todas as manifestações de sofrimento.
Durante anos, aceitei-a sem reservas, parecia fazer-me sentido, bastava-me olhar à volta para perceber que existem pessoas a viver dramas profundamente mais graves do que os meus. Guerras, fome, doenças incapacitantes, solidão extrema, pobreza. Comparados com estas realidades, muitos dos meus problemas parecem menores.
Mas será que parecem menores ou menos legítimos?
Julgo ter sido essa dúvida que me levou a olhar para a frase de outra forma, porque, ao refletir sobre ela, percebi que nela estava contida uma armadilha subtil: o sofrimento só era válido por comparação, como se a dor precisasse de passar pelo júri da desgraça antes de ter legitimidade para ser sentida.
Se alguém perde o emprego, há quem tenha perdido a casa. Se alguém passa por um divórcio doloroso, há quem tenha perdido um filho. Se uma pessoa sofre de ansiedade, há quem enfrente uma doença terminal. A comparação nunca termina porque haverá sempre alguém pior.
O sofrimento não é uma competição: não existem medalhas para os mais infelizes, nem uma classificação oficial para a dor humana. Cada pessoa vive a sua realidade a partir do lugar onde está. E é nesse lugar que os problemas ganham significado.
Além disso, quando é que aplicamos esta lógica ao lado positivo da vida? Quando alguém compra uma casa, encontra o amor ou alcança uma meta importante, costumamos interromper-lhe o entusiasmo para lembrar que há pessoas mais ricas, mais bem-sucedidas ou mais felizes? Intuitivamente, percebemos que a alegria não perde valor por ser comparada. Então, porque é que insistimos em aplicar esse critério ao sofrimento?
Uma coisa é relativizar os problemas, outra, muito diferente, é negar-lhes importância. Quando alguém diz “estou a passar por um momento difícil”, a resposta mais humana não está em estabelecer uma hierarquia da dor. Está, simplesmente, em saber ouvir.
Haverá sempre alguém que esteja pior do que nós. E haverá sempre alguém que esteja melhor. A questão é que essas pessoas não vivem a nossa vida. Nenhuma delas pode sentir por nós aquilo que carregamos todos os dias. Se a comparação pouco resolve, a empatia continua a ser insubstituível.
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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