“Faz o que o teu coração manda”. Oferecida ou vendida através do cinema, da literatura, da autoajuda e dos gurus das redes sociais, a expressão promete liberdade. No entanto, pela irresponsabilidade que traz em si, atrevo-me a dizer que pode ser uma das expressões mais infantis e inconsequentes da cultura contemporânea.
Fomos ensinados a tratar o coração como uma entidade infalível cujas ordens não se discutem. Mas a verdade nua e crua é que o coração é um terrível ditador, e obedecer-lhe cegamente é a forma mais eficaz de se arruinar uma vida: a nossa! E, por isso, vamos lá pegar no escopro e martelo para atacar este lugar-comum, desconstruindo mais um cliché da modernidade.
Do ponto de vista científico, o coração é um músculo que responde aos sinais enviados pelo sistema nervoso. Quando sentimos o coração “apertado” ou a “bater muito depressa” – e não se tratando de problemas cardíacos – estamos a viver experiências hormonais (adrenalina e cortisol, por exemplo) desencadeadas pelo cérebro. Portanto, quando dizemos “ouvir a voz do coração”, trata-se do cérebro a processar a informação de forma inconsciente e não por via de uma sabedoria “vinda do peito”.
Quando Blaise Pascal, filósofo e escritor francês do século XVII, afirmou que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, referia-se referia-se sobretudo à fé e a uma forma de conhecimento de Deus que não se reduz à razão, não à atual futilidade egocêntrica. Mas é no século XX, mais concretamente nos anos 90, que a expressão ganha uma enorme projeção popular com a escritora italiana Susanna Tamaro e o fenómeno literário Vai Onde Te Leva o Coração a trazer-nos o mote perfeito: se é o coração que manda, a razão cala-se… et voilà: o indivíduo fica desculpado de qualquer consequência.
Sejamos honestos: todos sabemos que, muitas vezes, aquilo a que chamamos “mandato do coração” é, essencialmente, uma mistura de dopamina, ansiedade, medo da solidão ou capricho do momento; e chamar “intuição” à imaturidade emocional é um belo truque de magia para fugir à responsabilidade e ao dever de pensar e ponderar.
Até a tradição judaico-cristã, pela qual fomos e somos influenciados, desmascara esta tirania emocional. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, os escritos bíblicos não aconselham uma obediência cega ao coração, pelo contrário: alertam que este é um terreno corrupto e instável. Veja-se, por exemplo, Jeremias 17:9, que é categórico: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”. Também o Novo Testamento mantém a perspetiva. Em Mateus 15:19, o próprio Cristo adverte que é do coração que brotam maus pensamentos e más escolhas e, em Romanos 12:2, o apóstolo Paulo exorta a que não se sigam os sentimentos viscerais, mas sim a procura da transformação através da renovação da mente, colocando o discernimento racional e moral acima dos impulsos emocionais.
O coração não analisa, não prevê o futuro, apenas reage ao presente. Fazer o que ele manda é a desculpa ideal para destruir uma relação à primeira contrariedade, para tomar decisões financeiras desastrosas ou para permanecer em relações destrutivas, apenas porque ‘é família’.
As emoções são ótimas para dizer o que sentimos, mas são péssimas para mandar no que fazemos. Questionemos, desconfiemos dos impulsos e submetamos tudo aos factos, à razão e à responsabilidade. Maturidade é assumir o leme da própria vida, não é ser escravo do que se sente.










