A República Democrática do Congo (RDC) está a viver uma das fases mais delicadas dos últimos anos. No leste, a violência armada continua a provocar deslocações de populações e a dificultar o acesso aos cuidados de saúde; em várias regiões, o surto de ébola continua a agravar-se; e, em Kinshasa, cresce a tensão política em torno do futuro do Presidente Félix Tshisekedi.
A situação sanitária é particularmente preocupante. Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Pública congolês divulgados a 13 de outubro, o surto de Ébola já tinha provocado 4.381 mortes em 9.066 casos, com uma taxa de letalidade de 48,3%. A doença, que começou em Ituri, no nordeste, alastrou a sete províncias do norte e do leste do país. E não existe atualmente uma vacina nem um tratamento específico aprovado para a estirpe responsável pelo surto (a Bundibugyo).
A dimensão da epidemia é agravada pelas condições em que decorre a resposta sanitária. As zonas mais afetadas incluem territórios onde atuam grupos armados e onde o acesso das autoridades e das organizações de saúde é limitado.
A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) chamou esta terça-feira a atenção para a relação entre a epidemia e a violência no leste do país. O padre Olivier Ndondo, superior provincial dos religiosos do Santíssimo Sacramento na RDC e no Uganda, explica que, apesar da resposta rápida das autoridades em muitas zonas, o acesso às regiões afetadas pelo conflito continua a ser um obstáculo decisivo. “É muito difícil entrar lá devido à guerra”, afirmou o religioso, citado pela organização.
A guerra e a epidemia não são, neste contexto, crises separadas. As pessoas que fogem da violência deslocam-se para outras regiões, aumentando a circulação da população e tornando mais difícil acompanhar e isolar os casos de ébola. Ao mesmo tempo, a insegurança impede que os profissionais de saúde cheguem a algumas das comunidades mais vulneráveis.
“Por um lado, têm de lidar com o conflito, mas, além disso, há a questão da doença”, resume o padre Olivier Ndondo, em declarações à Fundação AIS.
A Igreja procura responder dentro das suas possibilidades, através do acolhimento de deslocados, da ajuda de emergência e da sensibilização das comunidades para as medidas de prevenção. A Conferência Episcopal congolesa também tem apelado à responsabilidade individual e coletiva perante a epidemia.
O regresso de Kabila
É neste cenário que surge uma nova dimensão da crise: Joseph Kabila, Presidente da RDC entre 2001 e 2019, regressou ao centro da vida política e anunciou a liderança do recém-criado Frente para a Refundação da Nação (FRN).
Segundo a revista Vida Nueva, a nova plataforma político-militar integra o M23, grupo rebelde que mantém o controlo de Goma e de outros territórios no Kivu do Norte desde a ofensiva iniciada em 2025. Kabila, que passou vários anos no exílio e foi acusado pelo Governo de apoiar o M23, instalou-se em Goma em maio e assume agora uma posição de oposição direta ao atual Presidente do país, Félix Tshisekedi.
O antigo Presidente não esconde que pretende pôr fim ao mandato de Tshisekedi e regressar ao poder. A aproximação ao M23 aumenta, por isso, os receios de que o conflito se intensifique e ultrapasse as actuais zonas de combate no leste.
A evolução é particularmente preocupante porque acontece num momento de forte tensão em torno do próprio poder presidencial. A Constituição congolesa limita a dois os mandatos presidenciais, mas, segundo a Vida Nueva, Tshisekedi procura uma alteração constitucional que lhe permita apresentar-se a um terceiro mandato. As manifestações da oposição têm sido reprimidas pelas forças de segurança.
Bispos pedem que a prioridade seja a paz
A Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) tem criticado tanto a deterioração da situação no leste como as tentativas de concentração de poder em Kinshasa.
Os bispos consideram que uma alteração do limite de mandatos poderia romper o equilíbrio político alcançado depois de décadas de crises e aumentar o risco de uma nova guerra civil. “A prioridade hoje é a paz, o bem-estar social do povo congolês, a unidade e a coesão nacional”, afirmaram, segundo a Vida Nueva.
A preocupação da Igreja estende-se também ao envolvimento de atores externos. Os bispos denunciam a presença de “exércitos estrangeiros” em território congolês e alertam para o perigo de que as rivalidades políticas assumam dimensões étnicas e tribais.
O regresso de Kabila coloca ainda mais pressão sobre um país onde a disputa pelo poder político se cruza com uma guerra regional, a exploração de recursos naturais e uma profunda crise social. A situação no leste tem também uma dimensão económica internacional, recordam os média do Vaticano: ouro e coltan extraídos em territórios sob controlo de grupos armados continuam a alimentar redes comerciais que ultrapassam as fronteiras congolesas.
“Sem paz, é mais difícil proteger a saúde”
É neste cruzamento de crises que ganha particular força o alerta deixado pelo padre Olivier Ndondo à Fundação AIS: a paz e a saúde não podem ser separadas.
“Sem paz, é mais difícil proteger a saúde”, sublinha o religioso, descrevendo uma realidade em que há pessoas que nasceram e cresceram num contexto permanente de conflito. A guerra impede o trabalho, dificulta o acesso à escola e aos cuidados de saúde e destrói as condições necessárias para reconstruir a vida das comunidades.
A Igreja congolesa procura, por isso, manter a sua presença junto das populações deslocadas e das comunidades mais afetadas. A Fundação AIS recorda que a RDC é um dos países prioritários do seu apoio: em 2025, financiou 258 projetos no país, sobretudo ligados à construção e recuperação de estruturas religiosas, à formação de seminaristas e à formação permanente de padres e religiosas.










