Quero, antes de mais, deixar um alerta, em modo de confissão: de acordo com os padrões modernos, sou uma péssima e (in)comum avó!
Posto isto, debrucemo-nos então sobre a expressão “O importante é participar”, que tem a sua origem histórica bem documentada. Surgiu originalmente como: “O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas participar”. Quem a proferiu foi o bispo norte-americano Ethelbert Talbot ao dirigir-se aos atletas que participavam nos Jogos Olímpicos de 1908, em Londres. Esta edição do evento ficou marcada por uma grande rivalidade desportiva e foi nesse contexto que Pierre de Coubertin – historiador e pedagogo francês, fundador do Comité Olímpico Internacional e impulsionador dos Jogos Olímpicos da era Moderna – a citou no seu discurso, imortalizando-a, assim, como uma espécie de lema olímpico.
Apresentados que estão o quem, o onde, o como e o porquê desta tão conhecida frase feita, passemos à “zona da oficina” para a desmontagem por peças de mais um cliché.
Quando os meus netos eram pequenos, acompanhava-os às suas atividades desportivas. E enquanto à minha volta pais e familiares entoavam a sagrada ladainha: “Não faz mal… o importante é participar!”, eu sentia arrepios na nuca. Via algumas crianças que tinham passado o seu tempo num campo de futebol a tropeçar nos próprios pés ou a fugir da bola, ou no ballet a olhar para as nuvens sem acompanhar as coreografias. E via os pais, consoladores, a distribuir medalhas onde se lia: “Parabéns, vieste!”.
Perante o piscar de olhos e toda a encenação teatral daquela validação, a minha tentação era dizer aos meus netos: “Olha, querido(a), se calhar isto não é para ti… não tens lá muito jeito”.
Quando regressava a casa sentia-me a pior avó do planeta. Desabafava com a minha filha e desfazíamo-nos ambas a rir. Não era gozo cruel, ríamo-nos com os meus netos da falta de jeito que tinham para certas coisas – na minha família sempre foi cultivada a arte de nos rirmos das nossas próprias incapacidades.
A frase “O importante é participar” tem, obviamente, uma intenção nobre e bonita: não traumatizar as crianças. Contudo, pensemos: utilizando este amortecedor moral para poupar os miúdos ao desgosto da derrota, não estaremos a privá-los de uma vacina emocional que é indispensável?
A frustração de perder, ou de perceber que se é menos bom numa atividade, não é uma tragédia. É uma bênção. Admitir que “não tenho jeito para isto” é um passo importante para a liberdade. Aceitar que nem todos nascem para o futebol, para o ballet ou para o piano não diminui; dá a oportunidade de não se perder tempo e descobrir onde é que, realmente, se pode fazer a diferença através dos dons naturais com que cada um nasce. Atrevo-me a acrescentar que esta espécie de ditadura de participação cega poderá estar na origem de uma geração de adultos incapazes de ouvir um “não” sem que entrem numa crise existencial, e incapazes de olhar para alguém verdadeiramente talentoso e admitir: “Aquele tipo é mesmo bom nisto, talvez possa aprender com ele”.
A capacidade de reconhecer que alguém é melhor que nós é sinal de maturidade. É preciso desenvolver o respeito e a humildade perante o talento dos outros. Valorizar os melhores deve ensinar-nos a ter referências, não inveja.
Comecei com uma confissão, termino da mesma forma: vou permanecer neste meu papel de avó (in)comum. Quero que os meus netos tenham a consciência de que o mundo não lhes deve uma salva de palmas só por aparecerem. E desejo que continuem a saber perder com desportivismo, a rir dos seus trambolhões e que tenham sempre coragem para dizer: “Isto não é para mim, vou procurar o meu caminho noutro lado”.
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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