Estou em Londres, já não me considero migrante, mas pertencendo a este país também. Não me trouxeram aqui razões económicas, mas apenas o forte eco do Espírito Santo para aqui servir e ministrar.
Se por acaso estivesse em Portugal juntar-me-ia às recentes manifestações pela habitação e sei que cartaz ergueria:
“De quem é que os reis (governantes) cobram os impostos ou as contribuições? É dos da terra ou dos estrangeiros?”
“É dos estrangeiros”, respondeu Pedro.
E Jesus replicou:
“Nesse caso os da terra estão isentos.”
(São Mateus 17:24-26).
Este seria o meu cartaz. Se o caro leitor e leitora se apressou para ver a Bíblia e confirmar, é reflexo do meu ponto. Esta leitura nunca foi escolhida para constar do Calendário Litúrgico no Domingo por não ter grande ênfase, embora seja tão Bíblia quanto o: “Dar a César o que é de César” (consta do 29º Domingo do Tempo Comum do Ano A). Esta última passagem tao apropriada por uma direita que pretende tomar a si o monopólio do Cristianismo e de como (controverso) Jesus defendia que as pessoas deviam pagar impostos.
Contudo, esquecemos esta passagem de Mateus, nas próprias palavras de Jesus em privado com Pedro e acredito que nenhuma outra poderia responder tão bem à actual ponta do icebergue da crise da habitação.
Henrique Raposo no programa desta semana “Não é bem assim” da SIC Notícias explicava:
“A borla fiscal que o país dá a ricos estrangeiros, 140mil pessoas, muito mais ricas que nós que vêm de França, Estados Unidos, Brasil, e vêm cá e compram e alugam e ainda bem que querem viver em Portugal eu não poderia dizer nada se fosse só isso porque é o mercado a funcionar, mas não é isso que se passa. Eles têm uma borla fiscal tremenda que torna o mercado numa batota”.

Grafia de Instagram: página de “petição habitação”
Ainda acrescenta que isto foi o que criou a maior bolha imobiliária puxando as pessoas das cidades para fora delas.
É impossível não assistir à clara oposição do que está a acontecer às palavras de Jesus.
O comentador defende que todos pelo menos paguem o mesmo, mas Jesus vai mais longe:
“Nesse caso os da terra estão isentos.” (São Mateus 17:26).
Realmente faria sentido que o dinheiro estrangeiro pagasse habitação aos da terra. Mas não estamos no Reino dos Céus, de Deus, poderíamos porque como dizemos no Pai nosso “Venha a nós a vosso Reino” e esta situação está longe de nós como está longe isentar estrangeiros e expulsar para os subúrbios e outras cidades as pessoas da terra.
Viver em sociedade/comunidade como Jesus ensinou e muito possível viveu com os discípulos não é algo teórico que precisemos de complexos raciocínios teológicos para concluir, está descrito na vida dos discípulos:
“Os crentes viviam perfeitamente unidos: eram como um só coração e uma só alma. Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham tudo em comum. Os apóstolos falavam com grande autoridade acerca da ressurreição do Senhor Jesus e eram grandemente abençoados. Nenhum dos crentes passava necessidade, porque os que tinham campos ou casas vendiam tudo e entregavam aos apóstolos o dinheiro da venda, para eles repartirem por cada um conforme as suas necessidades.” (Atos dos Apóstolos 4:32-35)
E conta que morreu o casal mentiroso que queria usurpar-se dos bens comuns de todos e guardar parte da sua riqueza para si:
“Ora um certo homem chamado Ananias e sua mulher, Safira, venderam também uma propriedade. Ele ficou com uma parte do dinheiro e entregou a outra aos apóstolos. Safira concordou. Então Pedro perguntou a Ananias: «Por que é que te deixaste tentar por Satanás e mentiste ao Espírito Santo, ao guardares para ti uma parte do dinheiro que recebeste pela venda da propriedade? Se não vendesses a propriedade ela continuava a ser tua! E depois de a venderes o dinheiro também era teu. Por que foi então que resolveste fazer isso? Fica sabendo que não mentiste aos homens, mas sim a Deus!» Quando Ananias ouviu aquelas palavras caiu morto. E todos os que souberam do caso ficaram muito assustados. Então os mais novos amortalharam o corpo, levaram-no dali para fora e foram enterrá-lo. Umas três horas depois, apareceu a mulher de Ananias, sem saber o que tinha acontecido. Pedro perguntou-lhe:
«Diz-me cá! Foi por este preço que tu e o teu marido venderam o terreno?» Ela respondeu que sim. E Pedro disse: «Porque é que resolveram enganar o Espírito do Senhor? Estão aí a chegar os jovens que acabaram de enterrar o teu marido e vão agora levar-te a ti também.» Nesse mesmo instante, ela caiu morta aos pés de Pedro. Ao entrarem, os jovens viram-na já morta e foram enterrá-la ao lado do marido. Toda a igreja e os outros que ouviram falar disto ficaram muito impressionados.” (Atos dos Apóstolos 5:1-11)
Não estou em Portugal, sigo, sou solidária e partilho conteúdos. Mas estou certa de duas coisas, não devemos deixar a direita ter o monopólio da “voz cristã” quando fazem uma escolha minuciosa das passagens da Bíblia preferidas e ignoram outras para confirmar o que já acham que é a vontade do Senhor: a sua própria opinião; as mãos invisíveis de uma economia sem intervenção só ocultam de onde veio o estalo quando o sentimos (“mão invisível” é uma metáfora económica cunhada por Adam Smith que defendia que não é necessário regular o mercado porque ele se autorregula por si).
Por isso apelo a todos os Cristãos que estão em Portugal para o serem, sem medo do proselitismo da direita cristã, como se tivessem de escolher ser de esquerda ou ser Cristãos, e se juntarem às acampadas nas suas cidades, fazerem ouvir esta e outras partes da Bíblia, criarem uma acampada se a sua cidade não tiver porque trata-se de construir o Reino de Deus na sua Terra a Nova Jerusalém (Apocalipse 21:2) e receber o que pedimos a cada Pai-nosso.
Catarina Sá Couto integra a Comunhão Anglicana em Inglaterra e Portugal.
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