“A liturgia não diz eu, mas nós”, é a célebre frase do ilustre teólogo Romano Guardini no seu magnum opus O Espírito da Liturgia, frase esta que o Papa Francisco parafraseia na Carta Apostólica Desiderio Desideravi, acrescentando ainda que “…qualquer limitação à amplitude deste “nós” é sempre demoníaca”.

O que quer então dizer esta máxima? Ou melhor, o que significa pô-la em prática? Como sabemos, liturgia significa «serviço público» ou «obra em favor do povo», do grego. E como em qualquer serviço, todos têm uma função. Contudo, nem todos temos a mesma função, ensina a Igreja. O Concílio Vaticano II [da Igreja Católica, 1962-65] é bastante claro: «Nas celebrações litúrgicas, cada qual, ministro ou simples fiel, desempenhando o seu ofício, faça tudo e só aquilo que pela natureza da coisa e pelas normas litúrgicas lhe compete» (Sacrosanctum Concilium, 28).
A participação de todos não significa, portanto, que todos façam tudo, mas que cada um participe verdadeiramente segundo o seu próprio lugar e função. É precisamente por isto que o mesmo Concílio, ao falar da participação ativa dos fiéis, menciona as aclamações, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, os gestos e as atitudes corporais, mas também – e isto é particularmente significativo – «um silêncio sagrado» (Sacrosanctum Concilium, 30).
À luz disto, o sacerdote, que age in persona Christi capitis, não exerce simplesmente uma função delegada pela assembleia, pelo que não deve delegar aos seus membros funções que só a ele competem. A própria legislação litúrgica distingue as funções próprias dos diferentes ministros e pede que cada um faça “tudo e somente aquilo que lhes corresponde” (Redemptionis Sacramentum, 44)
Mas isto não é apenas uma questão de cumprir regras. Se a liturgia possui uma forma própria, também as suas palavras, gestos e silêncios têm um significado. Guardini observa que o homem tende a procurar na oração «a expressão directa da sua condição espiritual», mas a liturgia não é a expressão da espiritualidade particular de quem a celebra. A sua forma, precisamente por ser recebida e não inventada, liberta-a da subjetividade do celebrante: a missa não se deve tornar expressão da sua personalidade, nem a assembleia ser transformada em coautora daquilo que a Igreja não lhe confiou. Receber a liturgia é também aceitar a sua forma, mesmo quando esta nos pede simplesmente o silêncio.
A reverência litúrgica não se mede apenas pela solenidade exterior. É, antes de tudo, deixar a liturgia, dada pela Igreja, mãe e mestra, falar por si. Às vezes significa cantar; outras vezes responder; outras vezes, permanecer em silêncio. Significa também respeitar a forma que ela nos entrega, sem sentir a necessidade de a modificar para a tornar mais nossa. Receber a liturgia com reverência é, afinal, reconhecer que ela não nos pertence. «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti» (1 Coríntios 11,23).
Diogo Almeida foi seminarista da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro e é empresário na área da restauração.
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