Vi há algum tempo a peça de Tiago Rodrigues, La Distance, e pensei sobre as cartas que troco com a minha mãe.
Na peça, uma filha parte para outro planeta, num futuro apocalíptico em que a vida na terra se tornou insustentável. O público vive a dor dilacerante do pai que fica, que troca mensagens de voz com a filha, e a quem às tantas ela diz que estão mais próximos, agora. Apesar da distância interplanetária, agora comunicam sem se interromper, ouvem-se e procuram compreender-se verdadeiramente.
Pensei nas cartas que troco com a minha mãe. O contexto é diferente do descrito na peça. A minha mãe e eu sempre tivemos uma relação muito próxima, mas a vida mete-se pelo meio e tira-nos o tempo (tema muito presente em La Distance, também). Tenho três filhos, um emprego, uma pequena quinta e, às vezes, dou por mim e passei uma semana sem telefonar. Não tenho o hábito de ir almoçar a casa dos pais todas as semanas e, por isso, já aconteceu ficarmos um mês sem nos vermos. E, entretanto, a minha mãe chegou aos 83 anos com uma afasia progressiva (doença causada pela falta irremediável de uma proteína no cérebro) que lhe foi retirando a capacidade de falar. Começou por sentir que as palavras não lhe saiam facilmente, que trocava as sílabas sem querer, e, embora inicialmente isso não se notasse muito, ao fim de uns anos tornou-se um problema evidente e muito difícil de gerir. Com a cabeça a 100%, não conseguir comunicar é exasperante, e é todo um drama que a minha mãe vai tendo de viver com a maior sabedoria que consegue.

“E eis, então, que a peça do Tiago Rodrigues materializou, em palco, este valor do papel em branco sobre o qual pomos, com calma, as palavras”. Foto: La Distance, retirada do teaser da peça.
Então, começámos a escrever. Primeiro, eu enviava-lhe mensagens de voz regulares no Whatsapp, em troca de emails. Ainda fazemos isso, mas acrescentámos uma nova camada: ofereci-lhe um Diário, com uma página em branco por dia, onde peço que escreva, sobretudo, sobre o que passa lá dentro, no seu coração: as impressões, os pensamentos, as emoções. E depois eu leio.
O que me moveu foi o medo de a ver fechar-se sobre si mesma, porque comunicar se lhe tornou tão difícil. Mesmo com um caderninho e caneta sempre à mão, num jantar de família com 15 pessoas é mesmo complicado conseguir que o ritmo das conversas deixe espaço para uma intervenção sua, e o que tem acontecido é que a minha mãe se tornou mais uma observadora atenta do que participante. Esta provação tem-na feito perceber que as pessoas falam demais, falam quando não sabem, dizem montes de coisas inúteis e ela suspira por se dar conta disso. Mas claro que a compreensão profunda de que, às vezes, menos é mais e ouvir tem muito valor, não deixa de poder resvalar para o hábito de, simplesmente, desistir do esforço de pegar num papel para falar. E daí o Diário, como forma de a obrigar a valorizar a partilha da sua interioridade, porque é preciosa e há quem a queira ouvir.
E eis, então, que a peça do Tiago Rodrigues materializou, em palco, este valor do papel em branco sobre o qual pomos, com calma, as palavras. O valor do papel já escrito que é lido por alguém desejoso de saber de nós. A tinta reveladora de significado, que constrói a ponte entre duas interioridades que, através da linguagem, comunicam e se compreendem.
Sinto-me muito grata por ter a linguagem escrita como forma de não deixar que a minha mãe se cale. E o Tiago Rodrigues tem razão, a distância não é medida em quilómetros, anos-luz, ou sequer em silêncios impostos por mordaças como esta maldita doença. A distância está na desatenção e na indiferença, na incapacidade de nos escutarmos ou na falta de vontade de nos entendermos. E enquanto tivermos tempo, podemos sempre reinventar maneiras de a colmatar.
Joana Rigato é professora de Filosofia
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