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[Entre Margens]

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Há pessoas que entram em nossas vidas tão cedo e permanecem por tanto tempo que deixamos de imaginar a possibilidade de perdê-las – não pelo ciclo natural da vida, já explico. De certa forma os anos, por si mesmos, parecem constituir uma espécie de garantia, de blindagem dos laços.

Temos tantas frases sobre amizade… por exemplo, “Quem tem um amigo, tem um tesouro”, “Amigos são como as estrelas que brilham em nossas noites escuras”, “O sucesso testa a quantidade de amigos, o infortúnio testa a qualidade”, “Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo”, frase atribuída ao pensador francês Voltaire (1694-1778) e a que pode representar este artigo: “Não temos tanta necessidade da ajuda dos amigos como de confiança na sua ajuda”, do filósofo grego Epicuro (341 a.C.- 270 a.C.).

A amizade antiga cria hábitos, rituais, pequenas certezas e até códigos internos. Sabemos onde encontrar o outro, para quem telefonar, onde dormir depois de uma longa viagem, com quem conversar quando estamos cansados do mundo. Compartilhamos vitórias, conquistas e sabemos que os/as amigos/as se alegrarão conosco. Justamente por isso, talvez deixemos de perceber que nenhuma relação está protegida pelo tempo. Às vezes, basta um acontecimento para deslocar tudo.

Não necessariamente uma briga. Não há gritos, acusações ou uma porta batida – claro que, às vezes, sim. Pode ser apenas uma ausência inesperada. Uma resposta que não vem. Um gesto que, vindo de alguém que sempre agiu de outra maneira, adquire um peso enorme. É então que percebemos que alguma coisa mudou. E ficamos nos perguntando “o que houve?” – tenho certeza de que todos/as já devem ter passado por isso alguma vez.

O mais difícil não é necessariamente perder a pessoa. É perder a certeza que tínhamos sobre ela.

AMIZADE

“A amizade antiga cria hábitos, rituais, pequenas certezas e até códigos internos. Sabemos onde encontrar o outro, para quem telefonar, onde dormir depois de uma longa viagem, com quem conversar quando estamos cansados do mundo.” Foto © Tyler Nix / Unsplash

Quando alguém que amamos passa a viver um (novo) relacionamento no qual parece existir algum tipo de controle, ficamos diante de um dilema cruel. Queremos respeitar suas escolhas, mas também queremos protegê-la (no caso de uma amiga). Queremos continuar perto, mas não queremos participar de uma dinâmica que visivelmente parece doentia. E há um momento em que já não sabemos se estamos diante de uma escolha dela, de uma influência externa ou de uma combinação das duas coisas. Essa é uma parte dolorosa: não ter certeza.

Continuamos gostando da pessoa. Continuamos reconhecendo nela a amiga, a irmã de tantos anos, aquela com quem dividimos histórias que ninguém mais conhece. Mas já não conseguimos ocupar o mesmo lugar em sua vida.

Nesse momento, começamos a notar que não somos mais bem-vindos. Houve algum mal entendido? Uma calúnia sobre nós? O quê? O quêêê?

A confiança é abalada. E então surge uma pergunta incômoda: podemos confiar novamente na pessoa?

A resposta mais fácil seria deixar de confiar. Construir muros, desconfiar de todos. Mas isso seria permitir que uma decepção destruísse algo que ainda queremos preservar em nós: a capacidade de acreditar nas pessoas.

Na verdade, confiar não significa acreditar que alguém jamais nos decepcionará. Devemos aceitar que as pessoas mudam, (inclusive nós mesmos), que circunstâncias mudam, que relações mudam — e que, mesmo assim, podemos escolher não nos tornar pessoas amargas.

Há amizades que não terminam com uma despedida. Apenas deixam de ser procuradas, não necessariamente por falta de carinho, admiração e amor. Mas porque já não existe o mesmo motivo para atravessar uma cidade, um país ou um continente para estar junto de alguém que, por tantos anos, fazia questão de estar ao nosso lado.

Há uma diferença enorme entre perdoar alguém e continuar oferecendo a essa pessoa o mesmo lugar em nossa vida. Podemos continuar amando uma amiga e, ainda assim, parar de procurá-la, por “n” motivos. Assim como deixamos de ser procuradas, também.

Podemos desejar que ela esteja bem e, ao mesmo tempo, aceitar que não queremos mais fazer parte de determinadas circunstâncias.

Acho que a maturidade ensina algo sobre a confiança: ela não precisa desaparecer quando uma pessoa nos decepciona. Pode apenas mudar de lugar: deixamos de confiar “naquela” pessoa. E começamos a confiar um pouco mais em nós mesmos.

Que nunca nos falte bondade no coração para, ao menos, tentar fazer (e enxergar) o bem.

 

Denise Sabino Villanova é doutorada em Literaturas Estrangeiras Modernas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Mestre em cultura britânica e em cultura francesa pela Universidade de Leibniz, Hannover, Alemanha. Escritora, palestrante e cronista de vários jornais.

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