Uma vitória de Bolsonaro na eleição presidencial do próximo domingo “seria absolutamente grave para os povos indígenas”, porque “a perspetiva da extrema-direita é o genocídio, é o desaparecimento, é o descarte dos povos indígenas” afirmou Luis Ventura Fernández, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na mesma entrevista, Ventura considerou que “o Governo Lula não respondeu às expectativas criadas”, tendo resultados insuficientes na demarcação de terras e na prevenção da violência.
Se Flávio Bolsonaro for eleito Presidente, “o Estado vai retomar aquelas práticas do tempo da ditadura militar, das décadas de 1960 e 1970, que vão levar para um genocídio, para uma destruição absoluta dos povos indígenas”, vaticina Ventura, para quem não restam dúvidas de que um Governo de Flávio Bolsonaro “iria acelerar a aprovação de projetos que permitem a exploração de terras indígenas por terceiros e dificultam novas demarcações de reservas”.
A entrevista do secretário executivo do Cimi foi publicada pelo Repórter Brasil de 19 de outubro e retomada pela agência Unisinos do dia seguinte. Nela, Ventura mostra-se preocupado com o reforço dos partidos anti-indígenas saído das recentes eleições para o Congresso, partidos que sustentam “uma perspetiva de controle dos territórios [indígenas], para colocá-los à disposição do mercado e dos principais setores económicos, sobretudo do agronegócio e da mineração”.
Ou seja, no dizer de Ventura, apoiam uma “alteração da propriedade da terra”, favorecendo “a multiplicação da propriedade privada dentro do território, a concentração ainda maior da propriedade da terra dentro do país”. A demarcação das terras indígenas consiste na homologação de um amplo perímetro reconhecido como sendo de usufruto exclusivo das populações que nela vivem e é fundamental para parar o avanço da tomada de posse das terras por parte de empresas que exploram o solo e o subsolo, sem atender à sustentabilidade da região.
Mas, para o dirigente católico, as recentes alterações no Congresso brasileiro apenas pioraram a situação, já que “nestes últimos quatro anos, o Congresso apresentou 83 proposições legislativas contrárias aos povos indígenas, o que representa um aumento exponencial” comparado com a “série histórica que vem desde 1988”. Muitas delas não foram aprovadas, mas Ventura referiu que o Governo Lula foi muito dececionante, apesar da criação do Ministério dos Povos Indígenas e do fortalecimento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas. A deceção surge da resistência e lentidão nos processos de demarcação de terras e também da incapacidade de controlar a violência: “258 assassinatos de indígenas em 2025, contra 211 no ano anterior, um aumento de aproximadamente 22 por cento”.
Antropólogo espanhol, Luís Ventura Fernández chegou ao Brasil há 24 anos e trabalhou durante duas décadas com povos indígenas em Roraima. Em 2022, passou a integrar o Secretariado Nacional do Cimi, em Brasília, de que é desde 2023 secretário executivo.










