Três anos depois das palavras do Papa Francisco na JMJ, há outros jovens (e não só) a fazer-nos o convite e a pedir-nos apoio, desde as acampadas nas praças de D. João I e do Rossio.
Podemos aqui dispensar estatísticas, apesar de existirem. Pessoas são despejadas de suas casas, que são entregues a especuladores. Fundos compram prédios inteiros para os deixarem vazios, a renda devora o salário e vamos a caminho da segunda geração aparentemente condenada a viver num quarto. Isto não é uma crise. É um sistema a funcionar exatamente como foi desenhado.
Contra ele, reuniu-se o povo e montaram-se tendas, no Porto, a 10 de Outubro, e em Lisboa, a 17 de outubro, tendo alastrado a outras cidades. Assembleias populares, cozinhas coletivas, cuidado mútuo, discussão de propostas…afeto radical. Quem procura a comunidade dos Apóstolos, onde tudo se punha em comum, encontra-a aqui, debaixo de uma lona onde é bem-vindo “quem vier por bem”.
São seis as reivindicações: o fim dos despejos quando não há habitação alternativa; a reversão da nova lei do arrendamento; um travão à compra de imóveis por fundos imobiliários; iniciativa pública para a recuperação de imóveis devolutos, para fins habitacionais; aumento da oferta de habitação pública; e a aplicação de tetos às rendas.

Beatriz Barbeta na sua cozinha improvisada, na cave onde vive. Beatriz recebeu uma ameaça de despejo da Câmara de Loures em Abril 2024. Foto ©️ José Alberto Catalão/7MARGENS
A resposta do poder foi, primeiro, à bastonada e depois com tasers, cães e balas de borracha. No Porto, ao terceiro dia, por ordem de um Presidente “implacável”, a Câmara enviou as Polícias para intimidar quem protestava, no sentido de desmontar as tendas e desmobilizar. Nessa madrugada, às três horas da manhã, deu-se a primeira de quatro cargas policiais sobre os manifestantes deste movimento pacífico. Dezenas de feridos, dois com gravidade. Mas como é que não há um único detido, entre tantos “criminosos” tão perigosos que só poderiam ser parados com tal nível de violência e selvajaria? A segunda carga, em Lisboa, dias depois, resultou em 55 detidos por crime de desobediência. Luís Neves, ministro-xerife, decretou então o fim das acampadas. E na última madrugada [1] assumiu a responsabilidade política de duas cargas policiais, as mais sofisticadamente armadas da história da nossa democracia, sobre quem pretendia dormir em tendas na rua, como símbolo da luta por casas para todos. Em ambas as cidades, sincronizadas ao segundo, com os media a assistir, porque as lutas não devem ser importadas, mas os meios de repressão, sim. Nos hospitais da capital foram atendidas 27 pessoas em resultado desta operação. No Porto, a organização registou cerca de 40 feridos. Ao todo, 31 detenções. Não nos enganemos. Esta resposta nunca foi sobre tendas (de resto, a primeira carga no Porto deu-se quando estas acabavam de ser desmontadas). Nasceu do medo da capacidade mobilizadora de um punhado de jovens cujo protesto visivelmente acolhe o respaldo da sociedade. Do asco a quem ousa fazer parte da democracia e pôr o país inteiro a falar da maior, mais urgente e mais transversal crise social que conhecemos nos últimos 50 anos.
Esta não é só uma causa simpática a que um cristão pode aderir se lhe apetecer. É a Palavra de Deus em carne viva! Isaías amaldiçoou os que juntam casa a casa até não haver lugar para ninguém. O Menino nasceu num curral porque não havia lugar na hospedaria. Maria cantou um Deus que despede os ricos de mãos vazias. Jesus avisou que não se pode servir, ao mesmo tempo, a Deus e ao dinheiro. Permanecer instalado perante este nível de repressão dirigida a pessoas que se mobilizam para contribuir para a resolução de uma crise gravíssima é menos um problema de agenda do que um problema de coerência.

“Esta não é só uma causa simpática a que um cristão pode aderir se lhe apetecer. É a Palavra de Deus em carne viva! Isaías amaldiçoou os que juntam casa a casa até não haver lugar para ninguém.” Foto: Acampada no Porto. © site Sirigaita
Durante séculos impusemos a nossa fé, a ferro e fogo, nos quatro cantos do mundo. Pois bem, aqui está a ocasião de a afirmar do lado certo da história. E não partimos do zero: lembro a vigília da Capela do Rato, contra a Guerra Colonial; o Frei Bento Domingues no socorro aos presos políticos… E tantos, tantos leigos que arriscaram as suas vidas e pagaram com a liberdade a oposição ao Estado Novo e à Guerra Colonial. Chamaram-lhes progressistas, mas eram apenas católicos inteiros e a tempo. E nós, os leigos de hoje, deixamo-nos ficar 50 anos para trás?
Fazemos sopa para os pobres há dois mil anos. Por quanto mais tempo vamos fazer de conta que não sabemos quem os fabrica? Em 2023, o Patriarca de Lisboa chamou à habitação “um dos mais dramáticos problemas” da cidade. No último dia 23 de outubro, o bispo que preside à Comissão da Pastoral Social pediu que o tema não fosse silenciado nem instrumentalizado. Evitar o esquecimento é precisamente o que temos feito aqueles que enchemos as ruas e as praças. E quatro cargas depois, da Pastoral Social, nem uma palavra de solidariedade com as vítimas, ou para, pelo menos, condenar a violência perpetrada pelo Estado sobre cidadãos comprometidos com a democracia e a participação.
Sinto que, aqui chegados, a solidariedade é uma obrigação e tem de se ver. Ir para as praças e resistir, lado a lado; pôr hábitos e corpos entre a os manifestantes e a polícia; abrir igrejas e salões paroquiais às assembleias de bairro; e pôr os devolutos da Igreja ao serviço do Estado, para fazerem parte de novas medidas de habitação pública e/ou apoiada. Exortar os nossos Bispos a que se pronunciem sobre a violência policial e as tentativas de criminalização do protesto, sem equidistâncias. Fazer da homilia denúncia. Usar, enfim, a influência da Igreja na sociedade portuguesa para quebrar a recusa dos governantes em “ouvir a voz das ruas” e ir ao encontro de quem tem propostas para fazer.
A solidariedade com quem é agredido pelas forças do Estado porque luta por uma causa que é justa não é um favor, nem pode ser caridade opcional. A promoção da paz e da não-violência, principalmente do Estado para os cidadãos, é uma obrigação de qualquer cristão. Devia ser um imperativo de fé. Dita em voz alta, vista na rua, assinada com o nome de cada um de nós.
(1) Este texto foi escrito no domingo, 25 de Outubro.
Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing. Contacto: anapontovasquez@gmail.com
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