O novo episódio do podcast Entre o Quadro e o Mundo parte de uma afirmação — “a educação não é uma mercadoria vendável” — para refletir sobre o papel da escola num tempo marcado pela inteligência artificial, pela simplificação do pensamento e por modelos de vida cada vez mais definidos por algoritmos.
Quando uma máquina consegue escrever, calcular, resumir, traduzir e responder em poucos segundos às nossas perguntas, o que deve a escola continuar a ensinar? Talvez, antes de tudo, a fazer essas mesmas perguntas e avaliar as respetivas respostas, sublinha o autor do podcast, Luís Francisco Marques.
A reflexão desenvolvida neste episódio nasce de uma conferência recente do professor Luís António Umbelino, na Escola Secundária D. Duarte, em Coimbra, e alerta que educar não pode reduzir-se a preparar alguém para “fazer alguma coisa”. Porque há uma pergunta que deve ser colocada antes: aquilo que fazemos merece ser feito?
É aqui que entra a inteligência artificial. Luís Francisco Marques, também ele professor, reconhece a dimensão extraordinária da transformação em curso, mas desloca a questão da capacidade das máquinas para a responsabilidade humana perante aquilo que elas produzem: uma coisa é obter uma resposta; outra é saber formular a pergunta, avaliar a resposta e compreender o seu significado.
Pensar, recorda o autor, exige tempo: exige relacionar ideias, reconhecer contradições, aceitar diferentes respostas e conviver com perguntas que não têm solução imediata. Uma exigência que colide com uma cultura marcada pela simplificação, em que muitas vezes “uma frase curta substitui um argumento” ou “um rótulo dispensa a compreensão”. O risco surge quando deixamos de conseguir fazer o caminho de regresso à complexidade e passamos a explicar pessoas e acontecimentos através de categorias elementares — “bons e maus, vencedores e vencidos, amigos e inimigos” — alerta.
A questão educativa cruza-se, depois, com outra: a construção de um projeto de vida. Convocando o filósofo espanhol Ortega y Gasset, o episódio interroga a relação entre técnica, desejo e liberdade. Todos os dias, redes sociais, publicidade e algoritmos apresentam modelos de felicidade, beleza, sucesso e realização pessoal. Mas, se os nossos desejos são permanentemente alimentados e antecipados por outros, “como distinguimos aquilo que realmente queremos ser daquilo que aprendemos a querer?”, pergunta Luís Francisco Marques.
Podemos, sugere Luís Francisco, acabar por consumir não apenas objetos, mas também identidades, escolhendo modelos de vida como quem seleciona produtos num catálogo. E é precisamente aí que a escola pode ter uma responsabilidade decisiva: não dizer aos jovens aquilo que devem ser, mas dar-lhes instrumentos para o descobrirem.
Uma escola que, sustenta Luís Francisco, não deve competir com as máquinas na velocidade com que produzem respostas, nem fingir que é possível regressar ao mundo anterior à sua chegada. Uma escola em que os professores atuem, não apenas enquanto transmissores de conteúdos, mas pessoas capazes de ajudar os alunos a compreender, questionar e ganhar autonomia.
Este podcast, que pretende ser um convite à reflexão num mundo cada vez mais polarizado e automático, está a ser transmitido às sextas-feiras na Rádio Regional do Centro, e é cedido pelo autor e pela RRC ao 7MARGENS.
O novo episódio pode ser ouvido na íntegra a seguir.
No final, a pergunta que atravessa todo o episódio permanece em aberto. Se as máquinas respondem cada vez melhor, talvez a missão da escola não seja produzir respostas ainda mais depressa, mas garantir que continuamos capazes de perguntar.
Porque, como conclui Luís Francisco, “educar não é vender respostas. É ajudar alguém a tornar-se capaz de formular as suas próprias perguntas”.













