A empresa norte-americana Anthropic revelou que o seu modelo de inteligência artificial [IA] Claude foi usado para reunir e compilar dados sobre cardeais católicos na Ásia, a liderança da Igreja Presbiteriana em Taiwan, grupos da sociedade civil budista tibetana e o Governo tibetano no exílio, bem como sobre membros do grupo religioso Falun Gong que, depois de traduzidos para chinês terão sido entregues ao Governo de Pequim. A coleta de dados incidiu sobre possíveis escândalos e outros aspetos que poderiam ser usados como fatores de pressão sobre os visados.
Várias redes missionárias cristãs que mantêm relações com a China continental, Hong Kong e Singapura foram também alvo de vigilância, sendo que a operação incluía o reconhecimento de locais de culto, imagens de fachadas e disposições estruturais. O documento, divulgado pela Anthropic no mês passado, integra um relatório que analisa casos de uso indevido dos seus modelos entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. A empresa garante ter bloqueado tais contas e reforçado os seus sistemas para detetar esse tipo de abuso.
O relatório indica que uma unidade de inteligência chinesa dedicada a assuntos religiosos — que antes contava com diversas equipas de analistas — teria sido reduzida a um único escritório; com o auxílio da IA, esse núcleo é agora capaz de produzir milhares de relatórios de vigilância por mês. As ações de recolha e compilação de informações abrangiam plataformas chinesas — como WeChat, Xiaohongshu, Douyin e Weibo — e plataformas ocidentais, incluindo LinkedIn, Instagram, Threads, X e Facebook.
Entre os elementos solicitados à IA, encontrava-se um termo chinês que, neste contexto, se refere a uma vulnerabilidade que pode ser explorada para exercer pressão sobre um indivíduo. Para a Anthropic, o termo está associado ao Departamento de Trabalho da Frente Unida, um órgão do Partido Comunista encarregado de gerir as relações com grupos religiosos, minorias étnicas e comunidades chinesas no exterior. Além disso, a atividade das contas sugeria que os operadores estavam baseados na China. No entanto, tais detalhes não são suficientes para identificar, de forma definitiva, o órgão específico responsável, acrescenta o documento divulgado pelo Antrhopic.
Vigilância vem de longe

“A vigilância de comunidades religiosas na Ásia por parte de agências estatais chinesas não é algo novo, acrescenta aquela agência noticiosa do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras.” Foto © Site Neo Feed (Brasil)
Já em junho deste ano, relata o Asian News, foi identificado um projeto da Universidade do Sudeste, em Nanjing, que propunha o uso de IA para monitorar conteúdo religioso online — em parte para suprir a falta de pessoal encarregado da fiscalização. O objetivo do uso da IA era ampliar as capacidades para além da simples filtragem por palavras-chave, permitindo análises semânticas mais abrangentes que possibilitassem a identificação e o bloqueio de conteúdos em desacordo com as diretrizes oficiais.
A vigilância de comunidades religiosas na Ásia por parte de agências estatais chinesas não é algo novo, acrescenta aquela agência noticiosa do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras. Segundo a Asian News, a empresa de cibersegurança Recorded Future documentou, em 28 de julho de 2020, uma campanha de intrusões cibernéticas atribuída ao RedDelta, um grupo que se acredita estar ligado ao Estado chinês.
Entre os alvos dessa investigação estavam o Vaticano, a Diocese Católica de Hong Kong, a Missão de Estudo da Santa Sé na China e o Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME). TaIS atividades foram detetadas nos meses que antecederam a renovação do acordo provisório entre a Santa Sé e Pequim sobre a nomeação de bispos.
Recorde-se que após décadas de existência tranquila, tudo mudou nas relações entre a República Popular da China e a organização religiosa Falun Gong que reunia milhões de seguidores. Em julho de 1999 mais de 10 mil membros do Falun Gong, entre os quais 150 dirigentes de alto nível, foram presos, dando início a uma campanha de perseguição cuja intensidade só encontra paralelo na repressão ocorrida na década de 1950 contra outro novo movimento religioso chinês, o Yiguandao. Por volta de 2006, cerca de 100 mil membros do Falun Gong haviam sido presos, e muitos morreram na prisão na sequência de tortura ou execuções extrajudiciais.










