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[no telhado às costas / adiarei o amor? ―/ florestas pacíficas © Haiku e fotografia («Home to Go», de Adrian Paci): Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Apressemo-nos a amar

| 26/10/2026

[domingo xxx do tempo comum ― a ― 2026]

1. Escutámos hoje mais uma das controvérsias
entre Jesus e representantes dos partidos político-religiosos de Israel.
Depois de termos acompanhado Jesus no desenlace
que surpreendeu os discípulos dos fariseus e os herodianos,
ao dizer-lhes: «Então, dai a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus» (ver Mt 22,21),
iremos ver que, também quanto à questão feita pelo doutor da Lei,
a Sua resposta teve em consideração as duas faces do amor.

 Fontana della Barcaccia, Piazza di Spagna, Roma.

[Mãe dando de beber a uma criança na Fontana della Barcaccia, Piazza di Spagna, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

2. Considerando que se encontram aqui vários irmãos brasileiros
― eles que significam um em cada dez da população bracarense ―,
sabemos que, da eleição do seu novo presidente, hoje realizada,
resultarão grandes desafios para atender às fações políticas do Brasil.
Em princípio ninguém terá de telefonar aos marcianos,
a fim de os informar que o Brasil poderia entrar em guerra,
mas, ainda assim, conforme a letra de «Alô, Alô Marciano»,
temos de assinalar a existência de uma fissura dramática
que parece estar a suceder
não só no Brasil, mas também em muitos outros países:
«Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura, porque
Tá cada vez mais Down the high society».

3. Para cicatrizar, de forma pacífica, esta fissura,
nós cristãos precisaremos de investir mais numa cultura de base,
que nos faça comprometer, corresponsavelmente, com a vida política.
Cada um a seu modo, segundo as diferentes áreas do serviço público,
sem misturar o que é de César com o que é de Deus,
nem tampouco os equiparar, como se os novos Césares fossem deuses.
Porque, efetivamente, estamos fartos de semideuses,
como salientou Fernando Pessoa nos poemas de Álvaro de Campos.
Para a formação desta cultura, a Igreja pode exercer uma missão singular,
que é, ao mesmo tempo, extremamente delicada e, como nunca, urgente.
Quando me refiro à Igreja, estou a pensar em todos os cristãos,
desde logo nos que exercem cargos políticos,
mas também nos demais batizados, inclusive os ministros da Igreja.

4. Naquilo que aos ministros da Igreja diz respeito,
para evitar quer ingerências indevidas, através de declarações públicas,
quer silêncios que, por vezes, poderão ser coniventes e faltas à profecia,
consideraremos que a formação dos futuros padres
deverá atender a uma formação exigente em relação às ciências políticas.
Eis porque, no Seminário Conciliar de Braga, no programa do último ano,
em complementaridade às matérias lecionados na Faculdade de Teologia,
os alunos têm uma introdução às ciências políticas.
No programa desta unidade curricular constam estes seis objetivos gerais:
Proporcionar conhecimentos gerais
relativos à vida política nacional e internacional.
Promover a compreensão da necessidade
de pautar a ação política por uma ética.
Contribuir para a formação (para lá da missão) de cidadãos autónomos,
responsáveis conscientes e críticos.
Potenciar o desenvolvimento de uma perspetiva crítica
sobre o mundo e sobre a vida em sociedade.
Ter conhecimentos gerais de terminologias, jargões e conceitos
abordados na Ciência Política.
Conhecer os princípios gerais das ideologias,
as filosofias políticas de origem e alguns dos seus pensadores.
Quanto aos objetivos específicos, são assinalados três:
Revisitar a Doutrina Social da Igreja Católica
como fonte de princípios e valores de organização comunitária
visando o bem comum.
Compreender o papel político-espiritual de um padre
como mentor da paz e do bem comum
na comunidade política local, regional, nacional e internacional.
Proporcionar ferramentas de atuação ao futuro padre
com os diferentes atores políticos com os quais pode ter que lidar.

Andorinhas

[Promover a compreensão da necessidade de pautar a ação política por uma ética. Fotografia © Joaquim Félix]

5. Sem ter frequentado aulas de ciências políticas,
Jesus soube estar à altura das controvérsias do seu tempo,
tantas vezes movidas por políticos dos principais partidos de Israel.
Depois de ter surpreendido alguns dos fariseus e os herodianos,
a propósito da liceidade do tributo a César,
e ter calado os saduceus, membros da elite social e política,
quando O interrogaram acerca da ressurreição dos mortos (ver Mt 22,23-33),
os fariseus voltaram à carga num terceiro assalto.
Desta vez, porém, os fariseus reuniram-se em grupo
e decidiram-se por uma estratégia mais sofisticada:
contrataram um doutor da Lei para experimentar Jesus.
Convém referir que os doutores da Lei eram estudiosos,
intérpretes e guardiões da Lei de Moisés, a Torá.

[Quando O interrogaram acerca da ressurreição dos mortos. Fotografia © Joaquim Félix]

6. «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mt 22,35).
Tendo em conta os diversos códigos legislativos de Israel,
é fácil adivinhar que a discussão acerca do mandamento mais importante
costumava animar debates intermináveis
entre os fariseus e os doutores da Lei, também conhecidos por escribas.
Na verdade, as sagradas escrituras judaicas estavam pejadas de códigos:
o Decálogo (ver Ex 20,1-17), o Código da Aliança (ver Ex 20,22-23,33),
a Lei da santidade (ver Lv 17-26), o Código deuteronómico (ver Dt 12-26),
o Dodecálogo siquemita (ver Dt 27,15-26),
além de outros mandamentos e proibições presentes no Pentateuco.
Nesta matéria, os judeus possuíam 613 preceitos:
365 (tantos quantos os dias do ano) eram proibições
e 248 (tantos quantos os membros do corpo humano no entender dos rabis)
eram deveres ou ações a praticar na vida quotidiana.

[As sagradas escrituras judaicas estavam pejadas de códigos. Fotografia © Joaquim Félix]

7. Jesus, no entanto, de forma breve e integradora,
convertendo os «nãos» das formulações antigas em proposições apelativas,
― que abrem o futuro como caminho vital a percorrer ―, respondeu-lhe:
«’Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração,
com toda a tua alma e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento» (Mt 22,37-38).
E, logo a seguir, acrescentou a outra face do amor:
«O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’» (Mt 22,39).
No final, rematou com uma síntese que nem a IA faria:
«Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas» (Mt 22,40).
Isto é, toda a Revelação é epifania e promoção do amor.

Aventino, Roma.

[Convertendo os «nãos» das formulações antigas em proposições apelativas. Aventino, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

8. Notemos bem, Jesus começou por citar o Sema’ Israel (Dt 6,5),
cuja recitação todos os judeus faziam no início e no final de cada dia.
Amar a Deus sobre todas as coisas, sim,
porque é a forma de corresponder ao amor com que o seu povo é amado.
Nisto, efetivamente, reconhecemo-lo como S. João na sua primeira Carta:
«Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1Jo 4,19).

Êxtase de Santa Teresa. Cappella Cornaro, Chiesa di Santa Maria della Vittoria, Roma.

[«Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1Jo 4,19). Êxtase de Santa Teresa. Cappella Cornaro, Chiesa di Santa Maria della Vittoria, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

Por isso, cantemos conjuntamente com Caetano Veloso e Kleber Lucas
a canção «Deus Cuida de Mim», repetindo estas duas estrofes:
«Eu preciso aprender um pouco aqui
Eu preciso aprender um pouco ali
Eu preciso aprender mais de Deus
Porque Ele é quem cuida de mim
[…]
Se na vida não tenho direção
E preciso tomar decisão
Eu sei que existe alguém que me ama
Ele quer me dar a mão».

9. O amor a Deus, conforme Jesus acrescentou, desdobra-se noutro amor.
A face mais visível do amor, recomenda-a Jesus
a partir de um mandamento da Lei da Santidade,
que se encontra exarada no livro do Levítico (ver Lv 17-26):
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39).
Na série Os Dez Mandamentos, transmitida pela Rai 1,
o ator Roberto Benigni comentou este duplo mandamento,
entusiasmando as pessoas a apressarem-se no amor.
Segundo ele, devemos amar-nos a nós mesmos
para que nos tornemos a medida do amor.
Mais, para ele, esta é uma lei surpreendente,
porque, além de nos dizer para amar o próximo,
também nos assegura que temos o direito de ser amados.
E, porque o tempo passa, e amamos pouco e sempre muito tarde,
é importante que nos apressemos a amar.

10. Sem esconder a felicidade como os cães que enterram o osso,
perguntemo-nos: como poderemos amar-nos a nós mesmos
de forma que, sentindo-nos amados, o nosso amor transcenda
para o amor a Deus e ao próximo?
Creio que a resposta se encontra no Shema’ Israel, que Jesus citou.
Quando estivermos unificados desde a totalidade do nosso coração,
da nossa alma e do nosso espírito ― integridade só alcançável no amor ―,
então o nosso ser, na sua plenitude mais ampla, transbordará de amor.

[O nosso ser, na sua plenitude mais ampla, transbordará de amor. Parco delle Lavande. Campotenese, Morano Calabro. Fotografia © Joaquim Félix]

Tendo presente a forma concreta de amar ao próximo,
como ouvimos da leitura do Livro do Êxodo (Ex 22,20-26)
― o estrangeiro, o migrante, o órfão, a viúva, o endividado e o despido ―
e todos aqueles de quem nos fazemos próximos nos caminhos da vida,
creio que teremos mesmo de apressar-nos a amar,
sublinhando versos de um poema de António Ramos Rosa,
que cada um de nós poderá repetir para si mesmo:
«Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas».

11. Imitadores de Jesus e de S. Paulo (ver 1Tes 1,5-10),
recebamos esta Palavra no meio das tribulações presentes, sim,
mas também com a alegria do Espírito Santo,
sem medo de amar a Deus, que dá o seu Sangue e o seu Corpo até ao fim,
e ao próximo, evitando a Aporofobia ― nome cunhado por Adela Cortina,
professora de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência ―,
que se manifesta através da aversão,
do medo e do desprezo das pessoas pobres e em situações vulneráveis.
Por isso mesmo, para terminar com outra voz do Brasil,
cantemos estes versos de Adélia Prado, confessando-nos:
«Por causa dele (o amor) podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero».
Ah! que os povos indígenas da Amazónia, como aqueles do Illinois,
nos possam dizer que, por muito tempo, as florestas serão pacíficas.

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 25 de outubro, [domingo xxx do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja de São Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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