O Papa concluiu este domingo no Uruguai a primeira etapa da viagem à América Latina, iniciada na sexta-feira, com apelos à justiça social e à importância da fé, num contexto marcado pela secularização.
“Não podemos passar ao largo quando sabemos que há crianças no Uruguai que não vão à escola por medo de não voltarem”, denunciou Leão XIV no sábado, num encontro com moradores do bairro periférico de Casavalle, nos arredores da capital.
“Não podemos silenciar a nossa consciência quando constatamos que uma mãe não tem meios para alimentar os seus filhos. Não podemos ignorar que, à nossa volta, há muitas pessoas que sofrem, estão sozinhas e vulneráveis”, acrescentou, perante famílias e instituições sociais reunidas no ‘Barrio Borro’.
Casavalle, na periferia de Montevidéu, é um dos bairros mais vulneráveis do Urugua, marcado pela pobreza, o tráfico de droga e a violência. “Que estas casas sejam para as suas famílias muito mais do que um teto: um verdadeiro lar onde possam crescer com dignidade, paz e esperança, sentindo sempre a proximidade e o amor de Deus.”
Depois de condenar a fome infantil e a violência urbana, na paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, o pontífice visitou a Universidade Católica do Uruguai, onde alertou para um “processo de desumanização” tecnológico e pediu um ensino que coloque “a pessoa antes do algoritmo”.
Ao encerrar o segundo dia da visita numa vigília de oração no Estádio Centenário, em Montevideu, o Papa afirmou — citado pela agência Ecclesia — que a experiência dos católicos uruguaios ajuda outras comunidades confrontadas com o “avanço da secularização”, advertindo que “quando se pretende construir um mundo sem Deus, corre-se o risco de deixar também o homem sem lugar”.
O último compromisso público decorreu na praça da Catedral-Basílica de Florida, Santuário Nacional da Virgem dos Trinta e Três, onde Leão XIV se dirigiu às mães e avós a transmissão da fé e lembrou à Igreja que não pode “ficar sempre à espera que quem se afastou volte pelo próprio pé”.
Após a missa, o Papa quis agradecer a todas as pessoas que organizaram a visita pastoral, em particular às autoridades civis e religiosas. “Tinham-me dito que, embora o Uruguai fosse um país relativamente pequeno, o seu povo tem um coração generoso. É um povo capaz de coisas muito grandes: isso ficou claro, nestes dias”, referiu, sob os aplausos da multidão.
O Papa falou da sua viagem como uma celebração da alegria da “fé em Cristo” que se “multiplica, abra horizontes” e dá um “sentido novo” à vida.
A deslocação de três dias ao país sul-americano começou na sexta-feira, menos de um mês após a operação a um nódulo cancerígeno no pulmão no Hospital Gemelli, em Roma, tendo o pontífice referido aos jornalistas, antes da chegada a Montevideu, que “desde o primeiro dia não tive qualquer dúvida: estava convencido de que a viagem devia realizar-se”.
A pessoa acima dos algoritmos
No sábado, o Papa defendeu que a educação católica promova um uso responsável da inteligência artificial (IA) e da tecnologia, colocando sempre a pessoa humana acima dos critérios da eficiência e dos algoritmos.
“É urgente que a nossa educação escolar e universitária contribua para o uso sábio das tecnologias e da IA, colocando a pessoa antes do algoritmo e harmonizando as inteligências técnica, emotiva, social, espiritual e ecológica”, afirmou Papa Leão XIV, num encontro com o mundo da educação na Universidade Católica do Uruguai.
O pontífice alertou para os riscos de uma cultura que atribui inteligência às máquinas, denunciando um “processo de desumanização” em curso.
“O paradoxo tornou-se cada vez mais evidente: enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana”, declarou, citando um discurso pronunciado na sede da Unesco, em Paris.
Perante educadores e estudantes, o pontífice desejou que a Universidade Católica ajude todos a crescer na “sua inalienável dignidade de pessoa humana”. “Não pode ser considerado sábio aquele que reúne informação sem discernir, refletir ou conhecer o contexto”, indicou ainda.










