Na primeira missa da sua primeira viagem apostólica à América Latina, o Papa Leão XIV lembrou o “bispo gaúcho” Jacinto Vera, antigo bispo de Montevidéu e que foi beatificado pelo Papa Francisco em 2023, um exemplo de generosidade, justiça e sacrifício.
Na cidade de Paysandú, no interior do país, junto da fronteira com a Argentina, a mais de 350 quilómetros da capital, Montevidéu, Leão XIV lembrou a “histórica defesa” da cidade em 1864, quando “monsenhor Vera instalou-se na Ilha da Caridade, em frente à cidade sitiada, para prestar assistência aos refugiados e feridos de ambos os lados”.
“Generoso na caridade e totalmente dedicado à missão apostólica, manifestou o seu zelo pastoral em todas as direções e sem poupar sacrifícios. Por exemplo, ia a cavalo visitar os doentes, apesar das grandes distâncias, dos perigos do caminho e das intempéries», referiu o Papa, citado pelo jornal uruguaio El País. Leão XIV chamou Jacinto Vera de “bispo gaúcho” que “percorreu três vezes o território uruguaio, levando fé e esperança aos seus habitantes”.
Com este exemplo, o Papa Leão XIV afirmou que cabe à geração atual “dar continuidade ao legado que estes semeadores do Evangelho deixaram” e que isso deve ser feito “tendo em conta o que diz a Palavra de Deus: com justiça, honestidade e fidelidade”.
A importância de “ser construtor de pontes”
À evocação do bispo Vera, o Papa mencionou outros “três símbolos” que “caracterizam esta região e podem ajudar a refletir sobre o tesouro da fé que nos foi dado e a missão que hoje nos é confiada: o primeiro é a ponte, o segundo os palmeirais e o terceiro o mate”.

O Papa preside à primeira missa de sua viagem apostólica à América Latina, em Paysandú, Uruguai. Foto © Vatican Media.
“Nesta cidade de Paysandú encontra-se a Ponte Internacional General Artigas, que atravessa o [rio] Uruguai, unindo dois países vizinhos”, afirmou Leão XIV, citado pelo jornal uruguaio, na sua edição online. Esta obra serviu-lhe para a mensagem que queria fazer passar aos uruguaios: a ponte implica “abertura, comunicação, intercâmbio” e a importância de “ser construtor de pontes”, uma “vocação” para a qual são “todos chamados”.
Referindo-se ao Evangelho deste sábado, o Papa afirmou que Jesus recorda a importância da fidelidade aos dons recebidos: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito”, disse, de acordo com a reportagem do Vatican News. “Estas palavras foram postas em prática por tantos homens e mulheres – como D. Jacinto Vera – que foram fiéis à vocação recebida e espalharam as sementes do Evangelho na alma do povo uruguaio. Essas sementes permanecem vivas na comunidade, mas é necessário continuar a proporcionar as condições necessárias para que possam crescer e expressar todo o seu potencial. É necessário continuar a formar as crianças e os jovens na fé, a acompanhar as famílias, a apoiar os idosos e a praticar as obras de caridade.”
Pensar a vida desde o seio materno
Ao final da tarde de sexta-feira (já noite em Lisboa), 6 de novembro, no primeiro discurso do Papa no Uruguai, na Praça da Independência de Montevidéu, perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, Leão XIV deixou uma “saudação a todos os uruguaios, onde quer que se encontrem”, para sublinhar os 40 anos ininterruptos de democracia no país, celebrados em 2025, e algumas decisões que impactaram a nação, como o uso dos recursos naturais, como notou o Vatican News.
A produção de energia elétrica baseia-se quase inteiramente em fontes renováveis, mas por outro lado, o Papa apresentou-se preocupado com a evolução demográfica e a necessidade de pensar na vida que cresce no seio materno, num país onde a interrupção voluntária da gravidez é permitida até às 12 semanas, com etapas de orientação e um período de reflexão exigidos pela lei.

O Papa no seu primeiro ato público, à chegada ao Uruguai, num encontro na Praça da Independência, em Montevidéu. Foto © Vatican Media.
Papa com “orgulho” em exercer o direito de voto
Na longa viagem de 13 horas que o levou de Roma a Montevidéu, Leão XIV apresentou-se com “bom ar e cheio de energia”, na descrição da publicação America Magazine, ele que foi submetido em outubro a uma cirurgia ao pulmão, depois de lhe ter sido diagnosticado um tumor.
Durante o voo, respondeu ao facto de ter votado nas eleições intercalares nos Estados Unidos, por correspondência, um gesto inédito, confirmado pelo Vaticano. “Como devemos interpretar o significado disto”, quis saber um jornalista da CNN, ao que o Papa respondeu: “Já fiz uma declaração sobre isso. Tenho orgulho em ser americano e em exercer esse direito.”
No relato das declarações feitas na viagem, a America Magazine relata que outro jornalista perguntou Leão XIV se ele também tinha votado nas eleições peruanas, ao que o Papa respondeu: “Não votei porque não é possível; no entanto, tê-lo-ia feito [se pudesse], é algo positivo.” E limitou-se a um “sem comentários” sobre o que pensava do resultado das eleições no Texas, onde ao fim de 38 anos ganhou um democrata, James Talarico.
Esta é a viagem mais longa do atual pontificado. Leão XIV visita o Uruguai, a Argentina e o Peru, onde viveu e trabalhou. Depois da sua passagem, este sábado, por Paysandú, o Papa regressaria a Montevidéu, para uma agenda ainda intensa: um encontro privado com religiosos agostinianos, uma paragem na casa sacerdotal Monsenhor Jacinto Vera, a visita ao bairro periférico de Casavalle, uma sessão na Universidade Católica e uma vigília de oração com jovens no Estádio Centenário da capital do Uruguai, um dos países mais secularizados da América Latina.










