“«E para vós, irmãos reencontrados? Estão dispostos para considerar a morte como vosso único inimigo?
Sim, a morte, apenas a morte. Nem potências rivais, nem outros povos, nem outras raças. Nem nós.Unicamente a morte. (…)
Estão preparados para reconsiderar a vossas rioridades e abrir uma nova página, connosco e entre vós?»”
(Amin Maalouf, Irmãos inesperados)
“Trazes em ti os germes de uma vida universal”
(Pico de La Mirandolla, Sobre a Dignidade do Homem)
Qual o propósito – ou propósitos – que nós, enquanto espécie, devemos perseguir?
Sem prejuízo dos propósitos particulares que, em liberdade, cada ser humano tem direito a perseguir, julgo que há propósitos comuns que têm a ver, desde logo, com a preservação dessa mesma liberdade. Se há um ou mais propósitos comuns à espécie, eles têm a ver, precisamente, com aquilo que torna a vida do ser humano, não apenas possível, mas significativa e com sentido. Por conseguinte, devemos, enquanto espécie, perseguir todos os propósitos que favoreçam, justamente, a vida humana e a sua realização plena.
Enquanto espécie, não se trata apenas de lutarmos pela nossa sobrevivência, pessoal e coletiva, mas de realizarmos uma ideia de Homem e da sua dignidade, no quadro mais vasto do universo onde a existência humana tem lugar. Mas para realizar tal ideia, temos naturalmente de favorecer um outro propósito intermédio: a busca pelo conhecimento em todas as suas dimensões, justamente para tentarmos responder às questões fundamentais “Quem somos”, “Onde estamos”, “Para onde vamos”.

“E há quem insista que é a fome material o grande “dragão” a vencer, provendo-se a Humanidade daquelas condições básicas a uma existência humana digna que são, além do pão, a saúde, o rendimento, a habitação. Foto © Marco Frattini |PAM (Programa Alimentar Mundial)
Temos muitos “dragões” a vencer neste mundo, muitos inimigos a eleger, entre os quais a miséria – material e espiritual –, a estupidez da guerra, a exploração do homem pelo homem, a ignorância, a cupidez, a mentira, a mistificação, o preconceito, etc. Há quem defenda que se deva também vencer a morte, pura e simplesmente; isto é, conquistar a imortalidade física. E quem insista que é a fome material o grande “dragão” a vencer, provendo-se a Humanidade daquelas condições básicas a uma existência humana digna que são, além do pão, a saúde, o rendimento, a habitação.
Tudo isto está certo e está na base, mas a verdade é que “Nem só de pão vive o Homem”. Precisamente porque ele não é apenas matéria e fisiologia. A sua especificidade tem a ver com aspirações mais altas, de âmbito ético-moral e espiritual. Ainda que o Homem já tivesse tudo, materialmente falando, vivendo plenamente saciado, e além disso pudesse viver para sempre, ou perto disso, em perfeita saúde, mesmo assim ficaria aquém de si mesmo, o enigma que é para si próprio não estaria resolvido. Sem respostas e indagações mais profundas acerca de si mesmo e do seu lugar, do porquê da sua existência e da Existência enquanto tal; sem pensamento, liberdade autêntica, espiritualidade, criação; sem participação em objetivos mais amplos e profundos, superiores à mera gestão rotineira dos seus assuntos pessoais do dia-a-dia; sem, enfim, beleza, sonho e imaginação, luta e superação, a vida humana esvaziar-se-ia, o tédio encheria tudo, e a imortalidade conquistada tornar-se-ia num peso e numa condenação, em vez de sinónimo de vida e liberdade.
Vemos assim que a vitória sobre aqueles “dragões” oferece vários propósitos absolutamente dignos e incontornáveis para a espécie, propósitos, a bem dizer, intermédios, porque visam superar as condições negativas que impedem a realização positiva da vida humana na sua plenitude, essencialmente moral e espiritual. Essa realização pode formular-se no seguinte propósito, muito mais fundamental e final: o da construção de uma Humanidade mais consciente de si própria, do seu lugar “cósmico” e do seu destino comum (imanente e até mesmo transcendente); das suas reais potencialidades intelectuais, éticas e espirituais, em paz consigo própria e com o mundo natural, ao qual está indissociavelmente vinculada, sem se confundir totalmente com ele.

Aguarela de Yaku (criança), “Cores da Felicidade” (DR)
A questão fundamental para o Homem é menos “com que (sobre)viver”, e muito mais “como devo viver” ou “para que devo viver”. É para ele essencial dispor de um horizonte ético-moral para onde possa orientar a sua vida, individual e coletivamente. Não só porque isso lhe confere sentido para viver, mas também porque lhe permite avaliar, a cada momento histórico, o nível de progresso humano e civilizacional do seu mundo. Não há dúvidas, neste contexto, de que o verdadeiro progresso civilizacional é, sobretudo, ético-moral, muito mais do que tecnológico ou económico. Daí que esteja longe de ser inútil a reflexão acerca dos propósitos últimos que devem orientar-nos coletivamente. Porque a reflexão sobre fins conduz-nos sempre, necessariamente, à reflexão sobre os princípios. E vice-versa. Eis algo que só nós podemos fazer. Quais são, em que consistem, que peso devem ter, para nós, certos valores e princípios, e que fins devem servir para que a existência humana seja completa, significativa, justa e justificada.
A ponderação dos princípios e dos fins, o pensamento ético fundamental, está para além do mero raciocínio instrumental ou da lógica estrita. Nenhuma potência de inteligência artificial [1] poderá alguma vez estabelecê-los por nós, porque o raciocínio – ou seja, a lógica estrita – não pensa, não pondera, limita-se a seguir regras de validade inferencial que garantem que a conclusão se segue necessariamente às premissas, se estas forem verdadeiras. A lógica dedutiva é um caminho de A para B, isto é, da primeira premissa para a conclusão, mas o conteúdo da primeira premissa, aquela que serve de ponto de partida ao raciocínio – falo especialmente no domínio ético e moral – só a profundidade da consciência, da sensibilidade e da experiência humana pode fornecê-lo. A isso chama-se, com propriedade, pensar. Ao pensar eticamente podemos – e devemos, evidentemente – oferecer razões a favor ou contra um dado valor, princípio ou fim, mas tais razões só podem emergir da experiência humana fundamental, ou seja, da experiência do sofrimento, da vulnerabilidade, e bem assim da alegria, da compaixão, e, porque não, também do ódio (à injustiça, por exemplo). E também, é certo, de uma aspiração humana intrínseca à unidade e à universalidade, que se confunde com a mais alta filosofia e espiritualidade.
Em suma, só o ser humano pode, em consciência, formular a sua ética, orientar humanamente a sua existência, coletivamente. Não de forma aleatória e subjetiva, criando os seus próprios valores (como o niilismo e o existencialismo ateu, desde Nietzsche, acharam possível), mas por uma ponderação baseada nas suas experiências mais profundas – pessoais e coletivas, ou insertas na memória histórica –, na sua própria natureza social e relacional, na sua espiritualidade, no seu sincero desejo, mais ou menos consciente, de fraternidade universal, de verdade, de reconhecimento, de amor. A ética – que, para ser realmente humana, tem de ser universal – emerge, assim, de uma consciência cada vez mais profunda do homem em relação a si mesmo e àquilo que liga cada homem a todos os outros; emerge da consciência de uma condição comum, marcada em grande medida pelo sofrimento, pela desorientação, pela sede de sentido e de esperança; emerge da consciência de que todos partilham, no fundamental, de uma mesma luta por compreender e encontrar o seu destino, no meio da dúvida e da incerteza; emerge, enfim, não apenas do desejo de evitar injustiças que podem ser evitáveis, mas de realizar uma justiça total, uma justiça ontológica. Quer dizer, a consumação daquela vida mais elevada, profunda e autêntica que cada ser humano, em princípio, deseja e reivindica para si próprio, no mais fundo de si mesmo, verdadeiramente livre, em comunhão essencial com os outros, pura de intenções, criativa, nobre, aberta ao universal.
[1] Ver o meu artigo anterior neste mesmo jornal, A IA e a tarefa inalienável de pensar
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da Vida, Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.
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