Temos assistido nestes dias à reivindicação do direito efetivo à habitação e contestação ao rumo que o governo (e os sucessivos governos a quem coube a responsabilidade pelas políticas para assegurar este direito) tem tomado ou se prepara para tomar. Contestação que desembocou em atos de desobediência às autoridades que justificaram, na ótica destas, a intervenção violenta para a reposição da “ordem pública”.
Muitos se têm pronunciado sobre a justeza destas reivindicações, mas salvaguardando o dever inalienável de obediência às autoridades, cuja quebra não deixa a estas outro recurso senão o uso da força.
Diante da questão da obediência face às autoridades não posso deixar de me perguntar: haverá ou não situações em que a desobediência se justifica? E que posição me inspira a minha fé em Jesus Cristo?
Temos visto também políticos e católicos assumidos, que fazem questão de salientar a sua filiação eclesial e tornar pública a sua imagem à saída da igreja, defender a legitimidade da intervenção policial face ao superior dever de obediência às autoridades, única alternativa ao caos e à insurreição, à violência e ao ódio. Deve ser este o posicionamento do cristão?
Hoje vivemos numa democracia (até ver!…). Onde estaríamos sem atos de desobediência? Não foi todo o processo que levou ao 25 de abril um ato de rebelião e, por isso, de desobediência? E sem o ato de desobediência pessoal, afrontando diretamente a ordem de uma patente superior presente que lhe ordenava que disparasse contra Salgueiro Maia na Ribeira das Naus, qual teria sido o desenlace do golpe militar?
Sim, mesmo num quadro de submissão hierárquica, ao ato de obedecer ou desobedecer não pode ser alheia a consciência pessoal.
Naturalmente, agir segundo a consciência implica correr riscos e assumir as consequências! Por isso, o ato de desobediência consciente diante de quem detém a força é sempre um ato de coragem. Assumir as consequências sem ripostar na mesma moeda, uma suprema coragem. Esmagar a contestação pacífica com o uso da força é um ato de cobardia. De medo da contestação, de pavor diante da perda de autoridade. Fazê-lo quando a resposta não é no mesmo tom…

O que podemos ou queremos recordar do testemunho de Martin Luther King, que aprendeu com Gandhi e reviu a sua luta não violenta no testemunho de Cristo, na experiência do povo de Israel em libertação das várias opressões e na experiência dos primeiros cristãos? Foto © Direitos Reservados
Quantas lutas justas se desenrolaram com base na desobediência? Quantos direitos incontestáveis (por quem acredita na igualdade de todos aos olhos do Deus de Jesus Cristo, que não faz acessão de pessoas, pelo menos, e de muitas mais pessoas de boa vontade…) se alcançaram sem outra arma senão a denúncia da injustiça e a firmeza na desobediência? De quantos atos de desobediência somos devedores? O que podemos aprender com o testemunho histórico de Gandhi? (Falando de Gandhi, como seria importante refletirmos no facto de ele afirmar que só não se tornou cristão por ver como os cristãos viviam…) O que podemos ou queremos recordar do testemunho de Martin Luther King, que aprendeu com Gandhi e reviu a sua luta não violenta no testemunho de Cristo, na experiência do povo de Israel em libertação das várias opressões e na experiência dos primeiros cristãos? E com o “nosso” Aristides Sousa Mendes, que desobedeceu a Salazar concluindo que é mais importante obedecer a Deus do que aos homens? E o que dizer de todos esses cristãos que veneramos como mártires por se terem recusado até ao fim a vergar às exigências de um poder que lhes exigia a veneração de um Deus que não o seu? A veneração ao deus-poder configurado na suprema, divina, autoridade do imperador?
Hoje, subtilmente e sem invocar o seu carácter divino, vemo-nos forçados a prestar vassalagem a vários deuses: ao deus-dinheiro, ao deus-capital, ao deus- “mercados”…
Onde está a justiça, onde está a verdade? É essa a primeira questão. Qual o modelo de luta para a alcançar, é a segunda questão: a submissa veneração da razão do poder, por mais legítimo que este seja, ou a expressão firme, ainda que não reverente, de uma verdade que todos reconhecem? A entrega da questão nas mãos do deus-mercados, que promete resolvê-la no futuro (assim o diz a fé de quem nele acredita sem vacilar…) ou o reconhecimento da presença de Deus em cada despejado, em cada sem-abrigo, na realidade concreta da vida das pessoas já hoje?
E o próprio Jesus Cristo? Não foi Ele vítima da sua desobediência às autoridades religiosas e civis? E não foi Ele que nos alertou que não podemos servir a Deus e ao dinheiro? Esse mesmo Jesus Cristo que se fez irmão de todos e solidário de todos os excluídos escolhendo viver sem ter “onde repousar a cabeça” e nascendo como um excluído da dignidade de um teto…
Tive acesso a uma publicação do Instagram em que um padre se perguntava quando seriam os católicos capazes de dar a cara. Concordo no geral. Dar a cara não para defender qualquer privilégio da Igreja, para a defender de acusações tantas vezes justas, para afirmar posições de poder, mas para estar ao lado destes mais fracos como Cristo testemunhou. Dar a cara para, em nome de Jesus, tomar a iniciativa da defesa da dignidade e dos direitos das pessoas que Deus ama e não ficar com medo de polémicas, de conotações políticas ou refugiados no sem bem-estar.
Mea culpa, mea maxima culpa.
Carlos Dias é professor de Educação Moral e Religiosa Católica, membro da Comunidade da Concha de Santiago (Torres Vedras)
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