O bispo alemão Georg Bätzig, que foi até há poucos meses presidente da Conferência dos Bispos Alemães, considera “inadequada e, pelas suas potenciais consequências, altamente problemática” a afirmação recente do Papa Leão XIV de que o abuso sexual na Igreja Católica “é primordialmente um problema humano” e não “um problema sistémico”, relacionado com o clericalismo.
A afirmação do bispo, publicada no site da sua diocese de Limburgo, tem servido para vários setores eclesiais voltarem ao ataque ao prelado, mas também à Igreja alemã, que fez do grave problema dos abusos do clero e de leigos no interior da estrutura eclesiástica, um dos motivos e temática do seu “caminho sinodal”.
Para esclarecimento de um debate público que não é muito frequente no interior da Igreja, sobretudo entre altos dignatários, mas que continua a ser relevante, importa recordar o que disse, afinal, o Papa, o que questionou agora o bispo de Limburgo e o contexto e significado desse debate.
Na sua viagem de regresso ao Vaticano, em 28 de setembro último, no fim da sua viagem pastoral a França, Leão XIV respondeu a várias perguntas dos jornalistas. A primeira foi de Cyriac Zeller, da agência iMedia, que recordou o encontro do Pontífice com sete vítimas de abusos, ocorrido no dia anterior. Quis saber se, na linha de comentários de algumas das pessoas presentes, o Papa confirmava que tinha reconhecido a “natureza sistémica do abuso sexual na Igreja”.
Leão XIV: “antes de mais, um problema humano”

Leão XIV, ‘depois de reconhecer “a dor que foi causada nas suas vidas devido a situações de abuso” e de manifestar a vontade dele e da Igreja “de as ouvir e de as acompanhar na sua busca pela cura”, observou que quem falou de abuso sistémico foram “várias delas”.’ Foto: regresso da viagem a França. Foto © Vatican Media
Na resposta, o Papa, depois de reconhecer “a dor que foi causada nas suas vidas devido a situações de abuso” e de manifestar a vontade dele e da Igreja “de as ouvir e de as acompanhar na sua busca pela cura”, observou que quem falou de abuso sistémico foram “várias delas”. “Pessoalmente, disse o Papa, prefiro expressá-lo de uma forma diferente, embora tenha falado de algumas organizações dentro da Igreja que, por vezes, se assim se pode dizer, têm sido abusivas enquanto sistema”.
“Mas, prosseguiu, penso que é importante fazer a distinção. O abuso sexual é, antes de mais nada, um problema humano. Quando ocorre no seio da Igreja, adquire ainda toda uma outra dimensão, pois a vida de fé das pessoas fica profundamente ferida e, por vezes, até destruída. A Igreja tem a responsabilidade específica de as acompanhar e ajudá-las a procurar a cura. Nesse sentido, falei com elas [as vítimas] sobre como a Igreja, de certa forma, tem sido vista como responsável, mas também sobre como a Igreja, penso eu, é uma parte importante para as ajudar a encontrar a cura”.
Sem que se possa afirmar que Leão XIV seja insensível à dimensão sistémica, torna-se evidente que não é esse o seu foco do problema e daí ter sublinhado esse ponto ao abrir a resposta. “Sem querer contradizer ninguém”, afirmou.
O bispo Bätzig não gostou e não concordou com o que ouviu. Mas a demora em publicar a sua “tomada de posição”, como lhe chama, denota que quis refletir sobre o assunto e possivelmente, ouvir outras opiniões. Afinal, não é todos os dias que se ousa contradizer um Papa, sem necessariamente com isso estar a atacá-lo, como se disse, mal o texto foi conhecido.
“Hoje – começa ele por escrever – sabemos muito sobre como é que o abuso sexual foi possível na Igreja Católica, por que pôde ser encoberto ao longo de décadas e quais as estruturas da Igreja o facilitaram. Devemos esse conhecimento, acima de tudo, às vítimas que ergueram as suas vozes apesar de toda a resistência. E devemos isso às investigações científicas independentes que revelaram, sem piedade, a profunda interligação entre falhas individuais e condições institucionais”.
Bätzig, que reconhece ter ficado “perturbado” com as declarações do bispo de Roma, diz não ter dúvidas de que o abuso sexual é “um fenómeno que vai muito além da Igreja Católica”, ocorrendo em contextos como as famílias, clubes, escolas e outras instituições. “Precisamente por isso, devemos analisar atentamente as condições específicas que o possibilitam ou facilitam, em cada contexto”, acrescenta.
Mas onde estará a relevância da ênfase nas causas sistémicas? Para este bispo – e, pode-se afirmar – para a Igreja alemã, em geral, esse foco “determina se tiramos as conclusões corretas dos crimes do passado”. Não se trata apenas – nota ele – de “má conduta de perpetradores individuais”, já que, como documenta o estudo alargado do fenómeno encomendado pela Igreja Católica alemã, já em 2018, “existem fatores de risco específicos e características estruturais dentro da Igreja que facilitaram o abuso e dificultaram sua deteção”.
Fatores de risco aliados a uma cultura institucional enviesada

‘Entre esses fatores, o texto deste responsável destaca “o clericalismo e as relações de poder assimétricas, a sacralização da autoridade sacerdotal, formas problemáticas de desenvolvimento da personalidade e maturação psicossexual, bem como um tabu em torno da sexualidade e da orientação sexual”.’ Foto © Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.
Entre esses fatores, o texto deste responsável destaca “o clericalismo e as relações de poder assimétricas, a sacralização da autoridade sacerdotal, formas problemáticas de desenvolvimento da personalidade e maturação psicossexual, bem como um tabu em torno da sexualidade e da orientação sexual”.
E prossegue: “Particularmente preocupante é a cultura institucional em que, durante décadas, proteger a reputação da Igreja foi muitas vezes mais importante do que proteger crianças, jovens e outras vítimas. Aqueles que ocupavam posições de responsabilidade fizeram vista grossa, protegeram ou transferiram os perpetradores e deixaram as pessoas que sofreram enormemente a lidar sozinhas com suas experiências”.
Essas conclusões, refere a reflexão do bispo, não se limitam à Alemanha, surgindo documentadas em estudos internacionais – como o relatório português, por exemplo – bem como outros estudos com validade científica “também demonstraram que culturas institucionais, desequilíbrios de poder e a falta de supervisão podem contribuir significativamente para a facilitação, o encobrimento e a perpetuação do abuso sexual”.
Por isso, “não basta responsabilizar os agressores, realizar formações de prevenção ou melhorar as normas processuais”. Para que a Igreja mude, de facto, o documento salienta ser necessário “mudar as estruturas em que o poder é exercido, a responsabilidade é assumida e as decisões são tomadas”, não permitindo que alguns hierarcas “se esquivem ao controle” nem que as lideranças evitem “a prestação de contas vinculativa, processos de tomada de decisão transparentes e mecanismos de controle eficazes e, idealmente, independentes”. É isso que, segundo diz, a Igreja alemã, incluindo a Diocese de Limburgo, têm procurado fazer.
Além da destruição da confiança e da violação da dignidade das pessoas associados ao crime grave que é o abuso sexual, o bispo Batzig chama atenção para que “na Igreja, entra em jogo outra dimensão: o abuso da autoridade espiritual e da confiança religiosa”, que “também pode prejudicar ou destruir profundamente a fé de uma pessoa”.
O problema também afeta a Cúria Romana

‘O bispo (Georg Bätzig) vai mais longe e faz notar que este trabalho de avaliação, ainda a ser feito, deve incidir sobre toda a Igreja, incluindo a própria Cúria Romana e as estruturas de liderança da Igreja universal, no que se refere à “transparência no exercício do poder, à verificação da prestação de contas e à garantia de uma supervisão eficaz”.’ Foto © Vatican Media
Ele afirma reconhecer que o Papa “abordou explicitamente essa violação específica e a responsabilidade da Igreja para com as vítimas”. Mas, acrescenta, “precisamente por essa razão, espero que ele também reconheça claramente as causas sistémicas do abuso sexual”. A dúvida que lhe ficou e que considera de “fundamental importância” é se o Papa reconhece que “não apenas indivíduos e organizações, mas também estruturas específicas dentro da Igreja Católica facilitaram abusos e seu encobrimento”.
Nesta linha, apela a um esclarecimento do Papa sobre o assunto, uma vez que a minimização, a negação ou a não identificação clara das causas sistémicas do abuso sexual “representaria um sério retrocesso: prejudicaria ainda mais as vítimas e comprometeria a credibilidade da investigação”, além de descredibilizar “uma igreja que proclama o Evangelho”.
O bispo vai mais longe e faz notar que este trabalho de avaliação, ainda a ser feito, deve incidir sobre toda a Igreja, incluindo a própria Cúria Romana e as estruturas de liderança da Igreja universal, no que se refere à “transparência no exercício do poder, à verificação da prestação de contas e à garantia de uma supervisão eficaz”. A esse nível universal, “ainda vejo poucas evidências da mudança cultural fundamental de que precisamos”, acrescenta o bispo.
Recorde-se que o bispo Bätzig sucedeu no cargo de presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha ao arcebispo de Munique e Freising, o cardeal Reinhart Marx, um influente hierarca que, entre outros cargos, integrou o Conselho de Cardeais (C6) que assessorou o Papa Francisco na reestruturação da Cúria.
Ora, cabe recordar que foi este cardeal que, numa célebre carta que acabou por vir para o domínio público, e que o 7MARGENS deu a conhecer na altura, pediu ao Papa Francisco a renúncia à liderança da sua Diocese, assumindo “a responsabilidade pela catástrofe do abuso sexual cometido por responsáveis da Igreja nas últimas décadas”. Resignar seria, assim, “um sinal pessoal para um novo começo, para um novo despertar da Igreja
Marx entendia que muitos dos abusos decorriam de “falhas pessoais e erros administrativos”. Mas revelavam igualmente “falhas institucionais ou sistémicas” em cuja responsabilidade compartilhada “alguns membros da Igreja se recusam a acreditar”. Para ele, não bastava a responsabilização pessoal de quem cometeu ou encobriu os abusos. A “falha institucional requer mudanças e uma reforma da Igreja”, escrevia ele.
Recordando o cardeal Marx e o Papa Francisco

“Para ele (Cardeal Reinhard Marx), não bastava a responsabilização pessoal de quem cometeu ou encobriu os abusos. A “falha institucional requer mudanças e uma reforma da Igreja”, escrevia ele.” Foto: Cardeal Reinhard Marx a celebrar eucaristia. Foto © FDI2 / Pixabay
“Ao permanecer em silêncio, negligenciando as ações e focalizando excessivamente a reputação da Igreja, tornei-me pessoalmente culpado e responsável. Só a partir de 2002 e ainda mais a partir de 2010, as pessoas vítimas de abusos sexuais foram colocadas em primeiro plano de forma mais consequente e essa mudança de perspetiva ainda não foi concluída. Ignorar e desconsiderar as vítimas foi certamente o nosso maior defeito no passado”, justificou o cardeal.
Como seria previsível, o Papa não aceitou o pedido deste seu braço direito e agir de outro modo redundaria previsivelmente numa sucessão de outros pedidos de exoneração. Mas a atitude ficou e, com ela, uma questão que não foi nem está ultrapassada.
Morreu Francisco e o clericalismo continua viçoso. Todos nos lembraremos do que dizia esse Papa sobre a urgência de o combater … e como sonhava com uma Igreja sinodal.










