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Papa Leão XIV. Foto Vatican Media
No continente de onde veio o antecessor de Leão XIV, vários casos de alegados abusos continuam a suscitar pedidos de justiça e reparação. Foto © Vatican Media

Viagem apostólica

Leão XIV vai encontrar-se com vítimas de abusos numa América Latina que exige “ações concretas” da Igreja

| 29/10/2026

O Papa Leão XIV vai encontrar-se com vítimas de abusos cometidos por membros da Igreja Católica durante a viagem que realizará ao Uruguai, Argentina e Peru, entre os próximos dias 6 e 17 de novembro. A confirmação foi dada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, numa altura em que, sobretudo na Argentina, sobreviventes e familiares de vítimas reclamam medidas mais firmes da Igreja perante casos que continuam sem uma resposta canónica conhecida.

Segundo o Vatican News, os encontros, cujos detalhes relativos a locais, datas e participantes não foram divulgados, “respondem à vontade do Papa de expressar proximidade àqueles que sofreram e ainda sofrem por causa dessa violência”, procurando também “construir com eles caminhos de cura acessíveis” e garantir que a Igreja seja “um lugar seguro e espiritualmente saudável, que viva e comunique o Evangelho”.

Esta será a terceira viagem internacional consecutiva em que Leão XIV se reúne com pessoas que sofreram abusos no contexto da Igreja. Recorde-se que o Papa se encontrou com algumas vítimas a 8 de junho, em Madrid, durante a sua viagem apostólica a Espanha, e voltou a fazê-lo a 27 de setembro, em Lourdes, durante a sua visita a França. Em ambos os casos, os encontros decorreram à porta fechada.

Em Lourdes, depois de cerca de duas horas de conversa com sete vítimas, Leão XIV defendeu “máxima vigilância” e “máxima determinação” no caminho da verdade, justiça, perdão e reparação e na construção de “uma cultura de prevenção e proteção contra tais crimes”.

Já durante a viagem de regresso a Roma, questionado pelos jornalistas, o Papa sublinhou que os abusos sexuais cometidos dentro da Igreja assumem uma dimensão particular porque podem atingir profundamente a própria fé das vítimas.

“O abuso sexual é, sobretudo, um problema humano; quando ocorre dentro da Igreja, assume, na verdade, outra dimensão, pois a vida de fé das pessoas é profundamente ferida e, às vezes, até mesmo destruída”, afirmou. Por isso, acrescentou, “a Igreja tem uma responsabilidade particular em acompanhá-las e ajudá-las a buscar a cura”.

 

Um alegado abusador no ativo e membros da Opus Dei acusados de tráfico de seres humanos

O Papa Leão XIV com o prelado do Opus Dei, Mons. Fernando Ocáriz, acompanhado pelo seu vigário auxiliar, Mons. Mariano Fazio.

O Papa Leão XIV com o prelado da Opus Dei, Fernando Ocáriz, acompanhado pelo seu vigário auxiliar, Mariano Fazio, visado numa investigação. Foto © Vatican Media

A passagem de Leão XIV pela Argentina deverá, contudo, colocar o Papa perante casos que vão além da questão do acompanhamento das vítimas e levantam interrogações sobre a resposta institucional da Igreja.

Numa reportagem publicada esta quinta-feira, 29 de outubro, pela Associated Press (AP) e reproduzida pelo Crux, sobreviventes e familiares de vítimas manifestam frustração perante a ausência de informação sobre processos canónicos relativos a membros do clero já condenados pela justiça civil e pedem que alguns deles sejam expulsos do estado clerical.

Outros esperam poder encontrar-se com Leão XIV durante a visita. É o caso de familiares de crianças de um jardim de infância católico na província de Córdoba, onde o padre Alejandro Nicola é investigado por alegados abusos sexuais, na sequência de denúncias apresentadas por mais de uma dezena de famílias.

A investigação criminal está em curso e a Igreja local abriu também uma averiguação preliminar. O facto de o presbítero ter sido visto a celebrar missa na catedral de Córdoba, em julho, apesar das acusações, provocou indignação entre algumas das famílias, segundo a AP. Quando questionado sobre o caso, o arcebispo de Córdoba, Ángel Rossi, invocou a presunção de inocência do padre. Mas Fernanda Agüero, que acusa o padre Alejandro Nicola de ter abusado da filha, disse esperar que a mensagem do Papa seja acompanhada por “ações concretas”.

Também um grupo de 43 mulheres que acusa membros da Opus Dei de tráfico de seres humanos e trabalho forçado pretende encontrar-se com Leão XIV em Buenos Aires. De acordo com a AP, as mulheres alegam ter sido recrutadas, algumas ainda adolescentes, com falsas promessas, e obrigadas a trabalhar como empregadas domésticas entre 12 e 16 horas por dia, sem remuneração e em condições de isolamento e controlo, em centros da organização na Argentina, entre a década de 1970 e 2015.

Entre as pessoas visadas na investigação encontram-se antigos responsáveis da Opus Dei na América do Sul e Mariano Fazio, vigário auxiliar da organização. O advogado das mulheres pretende ainda que o prelado da Opus Dei, Fernando Ocáriz, seja incluído no processo, enquanto os representantes da organização na Argentina rejeitam categoricamente as acusações.

As denunciantes pedem agora uma intervenção do Papa e um pedido público de desculpas por parte da liderança da Opus Dei e afirmam não ter recebido resposta do Vaticano à denúncia formal apresentada em 2021.

 

O caso dos alunos surdos e os processos sem decisão pública

Entre os casos mais mediáticos que marcaram a Igreja argentina nos últimos anos está também o do Instituto Antonio Próvolo, em Mendoza, onde dezenas de crianças e jovens surdos foram vítimas de abusos.

Em setembro deste ano, a antiga religiosa Kumiko Kosaka foi condenada a 20 anos de prisão por abusos sexuais de cinco alunos e por ajudar e encobrir os padres que, durante anos, abusaram sexualmente das crianças surdas que estavam sob os seus cuidados na instituição. Já em 2019, os padres Horacio Corbacho e Nicola Corradi tinham sido condenados, respetivamente, a 45 e 42 anos de prisão. Corradi morreu posteriormente enquanto cumpria prisão domiciliária.

Segundo a AP, sobreviventes têm criticado o Vaticano por não ter tornado público o desfecho do processo canónico contra Corbacho, iniciado em 2017. De acordo com a mesma fonte, um vigário judicial nomeado pelo Vaticano recomendou que ambos os padres fossem expulsos do estado clerical.

Há ainda outros casos de condenados pela justiça argentina cujo estatuto canónico continua, publicamente, por esclarecer. Entre eles encontra-se Julio Grassi, antigo responsável por lares para crianças órfãs, que cumpre uma pena de 15 anos de prisão por abuso sexual de um menor. De acordo com a AP, não é conhecida uma decisão do Vaticano sobre a sua permanência no clero.

A reportagem recorda também o caso do antigo bispo Gustavo Zanchetta, condenado em 2022 a quatro anos e meio de prisão por abusar sexualmente de dois seminaristas e colocado em liberdade condicional em 2025. O Papa Francisco autorizou, em 2019, a abertura de um processo penal canónico contra Zanchetta, mas o Vaticano não tornou pública qualquer decisão final.

Outro caso referido é ainda o de Christian Von Wernich, antigo capelão da polícia, condenado a prisão perpétua em 2007 pelo envolvimento em sete homicídios e dezenas de sequestros e casos de tortura durante a ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983. Também neste caso não foi tornada pública qualquer sanção canónica.

Contactados pela Associated Press, nem o Vaticano nem as dioceses argentinas responsáveis pelos processos responderam a pedidos de esclarecimento sobre o atual estatuto canónico destes membros do clero.

Segundo a AP, o Vaticano tende a não iniciar julgamentos canónicos antes de estarem esgotadas as possibilidades de recurso na justiça civil, de modo a não antecipar o desfecho desses processos. Recomenda, contudo, aos bispos a adoção de medidas cautelares durante as investigações, como o afastamento dos padres do ministério ativo.

 

Uma prática iniciada com Bento XVI

Leao XIV durante encontro com vitimas de abusos em Madrid. Foto Vatican Media

Leão XIV durante o encontro com vitimas de abusos em Madrid. Foto © Vatican Media

Os encontros reservados com vítimas de abusos durante viagens apostólicas não começaram com Leão XIV. Bento XVI reuniu-se com sobreviventes nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Alemanha, entre outros países, e Francisco fez o mesmo em viagens ao Chile, Irlanda, Portugal e Bélgica.

Para Leão XIV, o primeiro encontro deste género realizado durante uma viagem ao estrangeiro foi em Madrid. Antes disso, já tinha recebido no Vaticano membros da direção da Ending Clergy Abuse, 15 sobreviventes belgas e o irlandês David Ryan, vítima de abusos durante a infância num colégio de Dublin, assinala o Vatican News.

Agora, no continente de onde veio o seu antecessor e onde vários casos continuam a suscitar pedidos de justiça e reparação, os encontros anunciados pela Santa Sé deverão voltar a colocar no centro da viagem uma questão que o próprio Leão XIV já classificou como uma “chaga”, um “escândalo” e uma “ferida real” para a Igreja.

 

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