Hoje abrimos as caixas do correio sem grande prazer e às vezes com algum temor. É nelas que habitualmente os carteiros deixam propaganda de toda a ordem, anúncios de alterações necessárias para mantermos contactos com empresas, fornecimentos e outros endereços do mesmo género. É também nelas que recebemos por vezes notícias de produtos cuja utilidade pomos em causa, de contas em atraso, de avisos de reuniões de condóminos ou de outro tipo. Em suma, de tudo o que perturba um quotidiano tranquilo.
Acontece que tenho um amigo que sempre que viaja, quer dentro quer fora de Portugal, me escreve a dar notícias do local onde está, usando como meio de contacto um postal ilustrado. São mensagens que constituem uma raridade mas que eu muito prezo pois herdei álbuns de postais de pais e de avós, algo que hoje é raramente acrescentado com novos contributos, exceptuando quando se trata das mensagens deste meu amigo. Habituada a informações telegráficas por emails e telemóveis, às vezes tão sucintas que se tornam ininteligíveis, aprecio aqueles que se correspondem com papel e caneta, oferecendo-nos uma prosa mais longa e descansada, sem abreviaturas nem imagens.

“Sou por natureza coleccionadora de determinados objectos, entre os quais figuram tinteiros antigos que herdei de avós e bisavós e que vou espalhando ao longo das estantes de livros que enchem os corredores da minha casa.”
Sou por natureza coleccionadora de determinados objectos, entre os quais figuram tinteiros antigos que herdei de avós e bisavós e que vou espalhando ao longo das estantes de livros que enchem os corredores da minha casa. Falo no plural pois é uma casa antiga onde da entrada até à cozinha se dá um verdadeiro passeio. Há anos atrás não me passaria pela cabeça integrar nessa colecção os tinteiros de vidro que se usavam na minha infância e adolescência. Hoje, a raridade dos mesmos levou-me a fazê-lo e assim, ao lado de tinteiros de porcelana que coleccionei ao longo da vida, já coloquei os tinteiros da minha infância, que na altura deitava fora quando acabavam, nunca pensando que poderiam ser valorizados. Parker, Quinck, Waterman, Pelikan, Sheaffer e Mont Blanc são as marcas que consegui reunir.
Infelizmente as tintas secaram e já não consigo utilizar as ditas canetas. Hoje, para além de se terem transformado em ornamento, elas constituem objectos que despertam a curiosidade dos meus netos que em vão procuram usá-las embora os resultados sejam desastrosos. Habituados à escrita em computadores e telemóveis desconhecem o prazer de deslizar uma caneta numa folha de papel em branco ou em postais, algo que continuo a apreciar, embora use o computador para quase tudo o que escrevo.

Imagem de capa da publicação “Os postais ilustrados na vida da comunidade, Moisés de Lemos Martins. 2017 | CECS-UMinho
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa










